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Em carta aberta, Luiz Schwarcz falou sobre a crise no mercado editorial e pediu solidariedade ao setor: "Todos os tipos de livro precisam sobreviver"

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"Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado", acredita Luiz Schwarcz

Em carta aberta divulgada nesta terça-feira (27), o editor Luiz Schwarcz comentou a crise no mercado editorial, muito marcada pelos recentes pedidos de recuperação judicial da Livraria Cultura e da Saraiva. No texto, publicado no blog da Companhia das Letras , a maior editora do País, Schwarcz diz que as consequências desse colapso ainda são incalculáveis, mas já assustadoras.

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"O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis", escreveu o editor. "O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado", acredita.

A primeira a reagir aos efeitos dessa crise no mercado editorial foi a Livraria Cultura, uma das mais tradicionais do Brasil. Em 24 de outubro, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial , justificando a decisão pelo cenário econômico nacional adverso e pela situação do setor, que encolheu 40% nos últimos quatro anos.

Cerca de um mês depois, foi a vez da Saraiva anunciar que entraria com um pedido de recuperação judicial. Fundada há 104 anos e com dívidas que somam R$ 675 milhões, a maior rede de livrarias do País afirmou que a medida é a "mais adequada" para o momento, acrescentando, ainda, que a crise no mercado editorial é reflexo do atual cenário econômico do Brasil.

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Para Schwarcz, mesmo com os pedidos, as duas empresas ainda podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. "Dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos, gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil", disse o editor.

A crise na Companhia

Na carta, Schwarcz se mostra otimista quanto à possibilidade de superar a crise:
Reprodução/Facebook
Na carta, Schwarcz se mostra otimista quanto à possibilidade de superar a crise: "Muitos de nós também guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores"

A Livraria Cultura e a Saraiva foram as primeiras a responder ao colapso no mercado editorial – mas não são as únicas a senti-lo na pele, já que as editoras são as grandes credoras das livrarias atualmente. Schwarcz, porém, está otimista quanto à possibilidade de superar a crise. "Muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como também guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores", escreveu.

Na carta, o editor ainda relatou o que chamou de "um dos piores momentos" de sua vida pessoal e profissional: o momento em que teve que demitir seis pessoas da Companhia das Letras. "Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir", lembrou.

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Schwarcz ainda disse estar disposto a fazer uma autocrítica honesta do setor editorial, e pediu que todos procurem soluções criativas e idealistas para solucionar a crise. "As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje", comparou o editor, fazendo menção a cartas, "zaps", e-mails e publicações nas redes sociais. "O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros", completou.

Para salvar o livro

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"Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva", disse o editor da Companhia das Letras

Ao final, Luiz Schwarcz pediu que as pessoas que, como ele, "têm no afeto aos livros sua razão de viver", espalhem o desejo de comprá-los – especialmente neste fim de ano. O editor também falou sobre os editores pequenos, que precisam da venda imediata para continuar existindo, e os humanistas, que defendem a diversidade de raças, gêneros, credos, ideais e, claro, de livros. 

"Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação", argumentou. "Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva".

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Para o editor, o livro é um instrumento fundamental para possibilitar que a sociedade lute por um mundo mais justo, e presentear alguém com um deles simboliza, ainda, a sobrevivência de um pequeno editor ou do emprego de um funcionário de uma empresa maior. "[Presentear] representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro", finalizou.

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