Como o governo quer manter o leilão por questões eleitorais, o terminal corre risco de ser vendido pelo valor mínimo
Rovena Rosa/Agência Brasil
Como o governo quer manter o leilão por questões eleitorais, o terminal corre risco de ser vendido pelo valor mínimo

A 21 dias da data do leilão, há apenas uma empresa interessada em arrematar Congonhas , aeroporto considerado como a joia da coroa da rede da Infraero. Segundo fontes do governo, do setor e especialistas, apenas o Grupo CCR apresentou interesse firme na disputa pelo terminal paulistano, com operadores internacionais desistindo do negócio. 

Como o governo não quer retroceder —, inclusive por questões eleitorais — cresce a chance do aeroporto ser arrematado pelo valor mínimo.

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Há pessimismo no mercado, diferentemente do que houve em rodadas anteriores. A deterioração dos indicadores econômicos, como juros altos e aumento da inflação, ameaça de recessão global, além dos riscos políticos, turbinados neste período eleitoral pelo questionamento do processo eleitoral, afastam os investidores.

Com lance mínimo de R$ 740,1 milhões, Congonhas precisará de um investimento de R$ 3,3 bilhões, de acordo com o edital. Antes da pandemia, o aeroporto movimentava 22 milhões de passageiros por ano e deve chegar a 30 milhões, segundo os estudos da concessão com prazo de 30 anos. 

Outro problema é o risco elevado do investimento: para conduzir Congonhas ao grau de certificação internacional, permitindo receber aviões de maior porte e ampliar sua capacidade, seria preciso construir uma nova pista ou transferir o terminal de passageiros para outro local, o que paralisaria temporariamente as operações.

Além disso, o terminal será leiloado em bloco, com outros dez aeroportos de Mato Grosso do Sul, Pará e Minas Gerais — Campo Grande, Ponta Porã, Corumbá, Santarém, Marabá, Altamira, Carajás, Uberlândia, Uberaba e Montes Claros —, ampliando custos e tornando a gestão mais complexa.

Governo quer insistir

Espremido na área central de São Paulo, qualquer aumento no número de voos compromete o sistema viário de acesso, já saturado. Além disso, há o problema de ruídos, que põe a vizinhança em pé de guerra. O vencedor terá ainda que desembolsar R$ 900 milhões com desligamentos de funcionários da Infraero.

O governo, no entanto, dá sinais de que vai insistir na concessão com o pretexto de realizar mais uma entrega e avançar nos planos de privatização. Caso venha a desistir do certame, isso somente deverá ocorrer às vésperas do leilão, provavelmente no dia 15 de agosto, quando está prevista a entrega das propostas. O leilão está marcado para 18 de agosto, na B3.

Nos bastidores, técnicos do governo admitem que o leilão não deve atrair grandes operadores internacionais que ainda não atuam no Brasil. Mesmo entre os grupos que já estão no país como Fraport, operadora alemã, já comunicaram ao governo que estão fora da concorrência.

A torcida de integrantes do governo que participam dos debates deste tema é para que o grupo espanhol Aena, que opera seis aeroportos em capitais do Nordeste, surpreenda e entre de última hora na disputa por Congonhas.

Procurado, o Ministério de Infraestrutura disse em nota que o leilão está mantido, mesmo com o cenário internacional adverso, por confiar na modelagem do projeto: “O governo também confia na atratividade dos ativos, sobretudo o aeroporto de Congonhas”.

Outro “sonho” do governo é que fundos de pensão ingressem na disputa, buscando, depois, operadores de aeroportos, mas isso não está garantido. 

A CCR, em nota, informou que “o Grupo está sempre atento às oportunidades de negócios. E elas são analisadas de acordo com sua matriz de risco, pressupostos de disciplina de capital, segurança jurídica e criação de valor para os acionistas e investidores.”

Para o economista Claudio Frischtak, sócio da Inter B Consultoria, a imagem ruim do país no exterior afasta entrantes:

"Uma razão muito importante da ausência de investidores é a destruição da reputação do Brasil pelo próprio governo", disse o economista, acrescentado que o ideal seria ter entre três e quatro concorrentes em Congonhas.

Operadores e investidores foram procurados, mas por questões estratégicas preferem não comentar, dizendo que ainda estudam a venda dos ativos. Em conversas reservadas, porém, os maiores operadores confirmam que não disputarão Congonhas.

A rodada prevê a concessão de 15 aeroportos ao todo, com investimento de R$ 7,2 bilhões ao longo dos contratos. Há o bloco dos aeroportos de Belém e Macapá, que segundo fontes teria interesse apenas do grupo francês Vinci, que opera oito aeroportos no Brasil, como Salvador e Manaus. 

O outro bloco é o de aviação executiva, com os terminais de Jacarepaguá e Campo de Marte, que seria alvo de interesse do Grupo JHSF Participações S.A, dono do terminal Catarina, na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo fontes, ainda não há uma decisão tomada. Procurada, a JHSF informou que “não comenta rumores de mercado”.

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