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Pesquisa diz que quase a totalidade de municípios no Brasil deveriam reabrir por último os restaurantes e bares, levando em conta risco sanitário e economia local

Pesquisa que mapeou a segurança sanitária e a contribuição econômica de diversos setores da economia, em todos estados do país, mostra que o  setor de alimentação – de restaurantes e bares –  deveria ser um dos últimos retomados em todas capitais, exceto Manaus, e em 99,8% das cidades brasileiras.

Para chegar a esta conclusão inédita, os pesquisadores da ong de dados Impulso criaram uma ferramenta chamada Saúde em Ordem, em que cruzaram dados sobre o risco ocupacional de cada setor com seu  impacto econômico, medido pela massa salarial deste setor e seu peso na economia de cada região. A partir destes critérios, dividiram a economia em quatro fases de reabertura, da mais rígida à mais flexível.

A análise leva em conta também o peso da economia informal em cada região e mostra que atividades industriais, pecuária e agricultura seriam os primeiros setores mais seguros para retomada em quase todos estados.

Já as atividades do setor de serviços, em especial a abertura de bares e restaurantes, deveriam ser retomados apenas na última e quarta fase de reabertura. A exceção é de serviços técnicos e científicos, que poderiam voltar na primeira ou segunda fase de reabertura na maioria do país.

No estado do Rio de Janeiro, os dados de risco epidemiológico e contribuição econômica indicam que as primeiras atividades seguras para retomada seriam as industriais, entre as quais a fabricação de veículos, produtos químicos, metais e petróleo. Por último viriam bares e restaurantes, bem como atividades culturais, esportivas e educacionais, além do transporte térreo, aéreo e as atividades domésticas e administrativas.

O cenário repete-se para todas capitais do país, exceto Manaus:

Bares e restaurantes respondem por uma parcela maior da economia na regional de Manaus do que em outras regiões do país. Por isso, nossa metodologia sugere reabri-los ali com um pouco mais de prioridade do que em outros locais, pois lá eles fariam mais diferença para a economia local. Entretanto, por se tratar de um setor com risco de saúde elevado, ainda assim ficam na fase 3 de 4 (penúltimo grupo de atividades a reabrir), mesmo em Manaus —explica Marco Brancher, coordenador de dados para governos da Impulso e responsável pela metodologia do Saúde em Ordem.

Os dados sobre risco sanitário em cada setor vieram da pesquisa O*NET, do Departamento Americano de Trabalho e Emprego, e consideram as condições de funcionamento de cada atividade sem a adoção de medidas de distanciamento. Os dados econômicos, por sua vez, são do Ministério da Economia e IBGE, a partir do RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

A metodologia é a mesma utilizada no programa de reabertura em fases adotado pelo governo do Rio Grande do Sul, que contou com a participação dos pesquisadores na formulação. Difere, porém, das metodologias adotadas por estados como Rio de Janeiro e São Paulo, que priorizam parâmetros como oferta de leitos e número de mortes.

A pesquisa Saúde em Ordem deu origem a uma ferramenta online gratuita de mesmo nome, que pode guiar as decisões de prefeitos e gestores de saúde em cidades menores que ainda não abriram a economia ou que tem alternado entre o abre e fecha. Mas qualquer cidadão pode pesquisar sua região e descobrir quais atividades deveriam ser reabertas e em que ordem. Pode ainda calcular as fases de reabertura ideais de acordo com o peso que decidir dar para a prioridade à saúde (no mínimo 70%) ou economia (no máximo 30%).

Como tem sido feito

Na capital do Rio, a reabertura de bares e restaurantes em 3 de julho, após três meses de portas fechadas, gerou diversas aglomerações em regiões como Leblon e denúncias de funcionamento após as 23h, horário de fechamento determinado pela prefeitura, e descumprimento do uso de máscaras. A volta foi considerada precipitada por especialistas.

Em 1 de agosto, o horário de funcionamento foi estendido para até 1 da manhã, com abertura em qualquer horário. Os estabelecimentos podem ocupar até metade das mesas, com distância de dois metros entre elas. Mas o self-service continua proibido. Voltaram também os pontos turísticos, com 50% da capacidade de lotação, e a reabertura voluntária de colégios particulares. A cidade está na quinta fase de um plano de flexibilização da quarentena com seis etapas.

Especialistas da Fiocruz, no entanto, alertaram no início de agosto para uma possível segunda onda de contaminação no estado, após aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave registrados no final de julho. Em 26 de agosto, a cidade registrou o sétimo dia seguido de aumento na média móvel de mortes.

Em São Paulo, a reabertura de bares e restaurantes é parte da fase amarela do Plano São Paulo, a terceira de quatro rumo à abertura e etapa em que a maioria das cidades paulistas está atualmente. Ela prevê ocupação limitada a 40% da capacidade do local, somente ao ar livre ou áreas arejadas, com funcionamento durante máximo de 8 horas e até as 22h. O estado tem 29.194 mortos pela doença. Em 15 de agosto, no segundo final de semana de ampliação da abertura do setor, registrou mais de 10 mil casos da doença em 24 horas.

Nesta semana, o presidente  Jair Bolsonaro discursou em congresso da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, em Brasília, onde  elogiou o trabalho infantil, proibido por lei, e a resposta do Brasil à Covid-19. A participação foi considerada parte de sua articulação política frente a uma das categorias mais beneficiadas pelo seu discurso contra o isolamento social.

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