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Mesmo conseguindo dar fim à hiperinflação característica dos anos 1980 e 1990, a nova moeda viu o País alternar momentos de expansão e recessão

fhc e plano real
Divulgação/PSDB
Para especialista, FHC não conseguiu implementar uma estratégia de desenvolvimento sustentável após o Plano Real

A implementação do Plano Real, que completa 25 anos nesta segunda-feira (1º), conseguiu erradicar a hiperinflação que assolou a economia brasileira nos anos 1980 e 1990. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil , no entanto, o legado do plano não inclui o crescimento sustentável: desde a entrada em vigor das medidas, em 1994, o País alterna momentos de expansão com recessões profundas.

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Alexandre de Freitas Barbosa, professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, fez sua tese de livre docência sobre uma das épocas de maior crescimento econômico da história nacional (1946–1964), é bastante crítico aos resultados do Plano Real além da estabilização monetária. “Até hoje estamos procurando um plano de desenvolvimento”, diz. "O governo FHC e também os governos posteriores não conseguiram trazer uma estratégia que pudesse ser sustentável”.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o ano de maior crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) entre 1996 e 2016 foi 2010, ao fim do mandato do ex-presidente Lula (PT), com taxa de 7,5%. Cinco anos depois, já com Dilma Rousseff (PT), a economia do País entrou em recessão, com PIB em queda de 3,5%.

Para o Barbosa, o Plano Real “acabou” em 1999, no início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando o governo abandonou a âncora cambial e passou a adotar o tripé macroeconômico – com a implementação de metas de inflação, metas fiscais para controle das contas públicas e câmbio flutuante – para manter a estabilidade da moeda.

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Já José Ronaldo Souza Júnior, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), discorda. Para o economista, “a introdução do tripé foi determinante para a longevidade do Plano Real”. Sua opinião é compartilhada pelo jornalista Thomas Traumann, autor do livro " O pior emprego do mundo", que narra a trajetória de 14 ministros da Fazenda. Para Traumann, o tripé "foi uma forma de recuperar credibilidade" do País.

Histórico

O real é a segunda moeda mais duradoura desde o tempo da colonização do Brasil e a que mais tempo se manteve em circulação desde a década de 1940 , quando se adotou o extinto cruzeiro. Nos quinze anos que antecederam ao plano, a taxa de inflação acumulada soma de mais de 20 trilhões percentuais (20.759.903.275.651%).

Segundo o Banco Central, em 1994 a inflação foi de 916%. Em 1995, ano da efetiva implementação do real, a taxa atingiu 22%. Em junho de 1994, antes do anúncio da criação Plano Real, o percentual mensal foi de 46,58%; em julho seguinte, já com o real em circulação, a inflação foi de apenas 6,08%.

Pesquisa acadêmica

Roberto Meurer, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente da Associação Nacional de Centros de Pós-Graduação em Economia (ANPEC), indica que a implementação do Plano Real e o fim da hiperinflação também mudaram a pesquisa acadêmica e os interesses das dissertações de mestrado e teses de doutorado.

“Com a queda da inflação, houve uma natural mudança da pesquisa em macroeconomia , já que inflação deixou de ser o tema mais premente da discussão. O que se viu foi uma gradual migração de parcela relevante da pesquisa da área de macroeconomia aplicada [como relação entre grandes variáveis da economia] para a microeconomia aplicada [que estuda o comportamento dos agentes econômicos]”, explica Meurer.

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Segundo o professor, os temas de pesquisa acadêmica foram acompanhando a própria evolução da economia. "Isso pode ser ilustrado com as discussões sobre regimes cambiais e eficiência da política monetária", diz. "Outro tema que está na origem do próprio Plano Real é a relação entre política fiscal e política monetária, que também atraiu e continua sendo tema de muitas pesquisas”, acrescenta.

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