Aluguel mais caro expulsa moradores para periferia e imóveis menores

Por Taís Laporta - iG São Paulo |

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Calotes saltaram 32,9% em um ano e devolução de chaves dobrou em São Paulo; tendência é nacional, veem especialistas

Quando o aluguel do imóvel em que morava, em São Paulo, aumentou de R$ 1.500 para R$ 1.900, Priscila Andrade foi aconselhada pela imobiliária a procurar outro lugar para viver. Sua renda e do marido era insuficiente para bancar o reajuste de 26%. Agora, ela tem 30 dias para devolver as chaves e alugar um novo apartamento.

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Alta do aluguel em bairros nobres de São Paulo afasta mais moradores de baixa renda

“Está difícil encontrar um imóvel compatível com nosso salário no bairro onde queremos, na Vila Prudente [zona leste]. Vou abrir mão de espaço e alugar algo bem menor”, conta a auxiliar administrativa, que também divide moradia com um cachorro.

A proporção de imóveis devolvidos aos proprietários por motivos financeiros dobrou na capital paulista em um ano, de acordo com último levantamento do Creci-SP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo).

Esse número saltou de 15,16% em fevereiro deste ano para 28,34%, na comparação com o mesmo mês de 2013. Paralelamente, a inadimplência do aluguel subiu 32,9% no mesmo período – de 4,10% para 5,45%. Esse dado considera o índice de atraso no pagamento acima de 30 dias.

Geralmente, os contratos de aluguel só aceitam inquilinos que tenham renda três vezes maior que a mensalidade do imóvel, sem contar custos com seguro-fiança e condomínio.

“A tendência é que os inquilinos migrem para regiões mais afastadas do centro e se submetam a viver em espaços menores”, afirma o presidente do Creci-SP, José Augusto Viana Neto.

O aumento da procura por imóveis mais baratos deve inflacionar os preços dos aluguéis em bairros periféricos de São Paulo entre os próximos 60 e 90 dias, na avaliação do executivo.

Proprietários estão insatisfeitos com rendimento 

Na análise do coordenador do núcleo de real estate da Universidade de São Paulo (USP), João da Rocha Lima, é natural que os proprietários dos imóveis, em todo o País, queiram aumentar a rentabilidade diante do boom de preços e do cenário econômico.

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Comunidade pobre no Rio de Janeiro: reajustes do boom imobiliário prejudicam baixa renda

“Os imóveis passaram a valer mais e quem é investidor deseja ter uma renda compatível no aluguel. Outro fator é a alta dos juros: quanto mais eles sobem, mais os locadores desejam equiparar o retorno a esta alta, elevando a cobrança do aluguel”, analisa.

Em abril, o iG mostrou que o rendimento do aluguel em São Paulo e no Rio de Janeiro perdeu até para as aplicações de menor risco, incluindo a poupança, nos três primeiros meses do ano. Os ganhos somaram 1,45% em São Paulo e 1,11% no Rio, enquanto a caderneta rendeu 1,68% no período (0,5% ao mês mais Taxa Referencial).

Na visão do diretor da Direto Contabilidade, Gestão e Consultoria, Silvinei Toffinin, não só os juros e inflação ajudaram a elevar a devolução das chaves, mas também a nova Lei do Inquilinato, que acelerou as ações de despejo. O locatário tem apenas 15 dias para abandonar o imóvel se não fizer o pagamento.

Leia também: Preço de imóveis esfria nos bairros caros de Rio de Janeiro e São Paulo

De acordo com o advogado e professor Mario Cerveira Filho, do escritório Cerveira Advogados Associados, a lei incentiva a desistência do imóvel por medo do inquilino de ser despejado, após deparar-se com um reajuste acima de suas possibilidades financeiras.

“Isso acontece não só na renovação dos contratos, mas nos reajustes anuais com base em índices como o IPC (Índice de Preços ao Consumidor). A renda do brasileiro não suporta mais esses aumentos”, conclui Cerveira Filho.

Locatários também abandonam imóveis comerciais

A empresária Sônia de Pieri, de 51 anos, acaba de devolver o imóvel onde mantinha seu escritório, na zona oeste de São Paulo, após ser pega de surpresa com um reajuste de 50% na renovação do contrato.

“Não planejava devolver as chaves, mas achei o aumento abusivo”, conta. Sônia preferiu adaptar um imóvel próprio, bem menor que o alugado, para instalar sua empresa na mesma região. Mas conta que, se precisasse alugar outro comercial, ofertas não faltam com preços mais em conta.

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Na análise do professor Rocha Lima, da USP, há um forte desequilíbrio entre a oferta e procura dos imóveis comerciais na cidade de São Paulo e em capitais brasileiras, fator que tem estimulado o aumento da vacância. “Os preços já caíram e vão cair mais nos comerciais”, prevê.

Para o docente, no entanto, um reajuste de 50% na renovação do aluguel não soa tão absurdo levando-se em conta o período de três anos (ou 30 meses) de contrato. “Considerando a valorização dos imóveis no período e a evolução dos juros, o reajuste não parece abusivo”, considera Rocha Lima.


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