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Com anúncio de possível fusão, mercado reagiu com cautela e papéis da BRF caíram 4,25%. Viabilidade do acordo será analisada nos próximos 90 dias

A falta de mais detalhes sobre a fusão entre BRF e Marfrig , anunciada na quinta-feira (30), fez os investidores reagirem com cautela. Os papéis da dona das marcas Sadia e Perdigão caíram 4,52% e o do frigorífico tive alta de 0,74%. Na visão de analistas, caso o negócio seja concluída, a nova empresa terá ganhos limitados de sinergia e acesso a mais mercados. Pesou, no entanto, a ausência de informações sobre o que esperar da estrutura e gestão da nova companhia, que tem potencial de ter uma receita líquida de R$ 80 bilhões neste ano divida, quase que igualmente, entre os segmentos de carne de frango, bovinos e suínos. 

fachada da BRF
NELSON ALMEIDA/AFP
Mercado financeiro recua após anúncio de possível fusão entre BRF e Marfrig

“Essa era uma operação pouco provável e não esperada. A BRF tem um nível de dívida maior e preparava a abertura de capital da One Foods, que não saiu, então a empresa precisou buscar uma alternativa. O peso sobre o papel vai ficar no curto prazo”, avaliou Eduardo Guimarães, especialista em ações da Levante Investimentos.

A One Foods é a divisão da BRF que atua no Oriente Médio. A oferta inicial de ações (IPO na sigla em inglês) dessa subsidiária é cogitada desde o final de 2017, mas não foi adiante. As duas companhias vão estudar a fusão por no mínimo 90 dias. Se vingar, os atuais acionistas da empresa terão uma participação de 84,98% e os da Marfrig, 15,02%.

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A BRF é a maior exportadora de frango do mundo e também atua no segmento de suínos. Já a Marfrig é um dos maiores frigoríficos de carne bovina do país. Embora tenham produtos complementares, os ganhos de sinergia do lado das despesas, ou seja, o que vão conseguir economizar, é limitado. Isso porque as cadeias de produção são diferentes. Apenas a compra de milho deve ser favorecida. Por outro lado, no exterior, a dona da Sadia e Perdigão tem forte participação no mercado do Oriente Médio e o frigorífico, nos Estados Unidos. Dessa forma, cresce o potencial de alcance a novos mercados para todos os segmentos de produtos, utilizando-se e uma estrutura já montada.

“O ganho na compra de insumo vai ser limitado. Só no milho vai ser importante. Mas, do ponto de vista estratégico, é bem importante essa diversificação geográfica”, completou Guimarães, acrescentando que é um negócio que não deve enfrentar problemas de aprovação pelos órgãos de defesa da concorrência, já que as operações são complementares e não de consolidação de um setor.

Outro ponto avaliado a o nível de endividamento. A BRF sozinha tem uma dívida líquida de R$ 15,5 bilhões, o que representa 5,64 vezes a capacidade de geração de caixa (alavancagem) da companhia. A Marfrig possui dívida líquida de R$ 9,7 bilhões, o que representa uma alavancagem de 2,76 vezes a sua geração de caixa.

Juntas, terão uma alavancagem de 3,7 vezes, nos cálculos do BTG Pactual. As agências de avaliação de risco de crédito viram como positiva essa possível fusão. A Fitch Ratings vê que a combinação das duas empresas é positiva para a avaliação de crédito. Já a S&P colocou a nota de crédito (rating) da nova empresa em perspectiva positiva.

Para Rafael Panonko, chefe da área de análise da Toro Investimentos, afirma que a falta de detalhes sobre como será essa possível fusão dificulta a avaliação para o preço das ações em Bolsa. No entanto, a princípio, vê como positiva a união.

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“Será criada uma gigante no setor de proteína animal com atuação nos três segmentos. Isso significa que será uma companhia mais resiliente às volatilidades do setor. Os ganhos de novos mercados também devem beneficiar a geração de receita e, no médio e longo prazo, facilitar a queda do endividamento”, disse em relação a fusão da BRF com a Marfrig.