
Cada vez mais brasileiros recorrem à inteligência artificial para tomar decisões de consumo, como se ela fosse capaz de apontar, de forma imparcial, as melhores opções do mercado. Na hora de escolher um cartão de crédito, porém, o ChatGPT comete erros que jamais passariam pelo crivo de quem entende do assunto. Em alguns casos, deixa de fora justamente alguns dos produtos mais completos disponíveis.
Essa foi a constatação deste colunista após ter acesso a um estudo da Ranqia, empresa especializada em inteligência de mercado para mecanismos de busca e inteligência artificial.
O levantamento analisou mais de 18 mil respostas geradas pelo ChatGPT a dez perguntas diferentes sobre cartões de crédito para identificar quais produtos aparecem com maior frequência nas recomendações da ferramenta.
Entre os questionamentos feitos ao modelo estão dúvidas comuns, como “quais são os melhores cartões de crédito do Brasil?”.
A partir dos resultados do estudo, confrontei as recomendações da IA com as características dos principais cartões do mercado e identifiquei distorções difíceis de justificar sob critérios técnicos.
Ranking geral
De acordo com o estudo, o ChatGPT coloca o XP Visa Infinite e o Nubank Ultravioleta nas duas primeiras posições entre os melhores cartões do país, algo que causa estranheza.
O XP Visa Infinite nunca ocupou o posto de melhor cartão do mercado brasileiro, se levarmos em conta critérios objetivos.
Com acúmulo de apenas 2,2 pontos por dólar e somente quatro acessos anuais a salas VIP em aeroportos, trata-se de um produto que sempre se destacou mais pelo baixo custo de entrada do que pela robustez de seus benefícios.
Boa parte de sua atratividade está concentrada no pacote oferecido pela própria bandeira Visa Infinite, e não em vantagens exclusivas do emissor.
O segundo colocado pelo GPT tampouco faz jus à posição em que aparece.
Como já discuti aqui no Pé de Milha, o Nubank Ultravioleta está longe de ser um dos melhores cartões do Brasil.
Curiosamente, se a comparação fosse restrita aos benefícios oferecidos, ele teria até mais argumentos para aparecer à frente do XP: acumula a mesma pontuação de 2,2 pontos por dólar, oferece a mesma quantidade de acessos a salas VIP, mas pelo menos oferece acesso ilimitado a uma sala VIP própria no terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Ainda assim, nenhum dos dois reúne atributos suficientes para liderar um ranking nacional.
Cartões para alta renda
As inconsistências continuam quando a pergunta é: “quais são os melhores cartões de crédito para alta renda?”
O ChatGPT coloca o Santander Unlimited na liderança, seguido pelo BTG Ultrablue, mas sequer menciona produtos como o American Express Centurion ou o Visa Infinite Privilege emitido pelo Porto Bank, por exemplo.
Outro caso curioso é o do Revolut Ultra, que também não aparece entre os cartões de alta renda.
Lançado no Brasil neste ano, o produto reúne um conjunto de benefícios que o coloca no topo da disputa pelo segmento premium: até 3 pontos por dólar gasto no crédito, 1,5 ponto no débito, acesso ilimitado a salas VIP, programa próprio de pontos com algumas transferências sem deságio para companhias aéreas internacionais, IOF e spread zerados na compra de moeda estrangeira e um pacote de serviços que inclui assinaturas premium.
Ainda assim, o cartão ficou de fora do ranking, sugerindo que a IA ainda não incorporou plenamente um dos lançamentos mais relevantes do mercado brasileiro.
No caso do Santander Unlimited, é preciso reconhecer um mérito.
Desde a criação do programa Santander Rewards, o cartão passou a oferecer uma proposta bastante competitiva, com acúmulo que pode chegar a 5,4 pontos por dólar, além da integração com o Esfera, um dos programas de fidelidade mais completos do mercado brasileiro.
Isso, porém, não basta para colocá-lo no topo absoluto entre os cartões destinados à alta renda.
Já a presença do BTG Ultrablue na segunda posição é ainda mais difícil de justificar. Como mostrei recentemente nesta coluna, o cartão perdeu competitividade diante da nova geração de produtos premium lançados no mercado e ficou para trás justamente nos benefícios que deveriam diferenciá-lo.
A posição do Bradesco Aeternum no ranking do GPT é a que mais evidencia a distorção. O cartão aparece apenas na 17ª colocação no ranking geral e na 16ª entre os produtos para alta renda, atrás de opções que oferecem menos benefícios, como o Nubank Ultravioleta.
Além de acumular 4 pontos por dólar em compras nacionais e passar a oferecer 7 pontos por dólar em compras internacionais, o Aeternum é hoje um dos únicos cartões emitidos por um grande banco brasileiro apoiado por uma estratégia consistente de salas VIP próprias, com lounges de alto padrão em aeroportos como Congonhas e Guarulhos.
Contudo, ele passa despercebido nas recomendações do ChatGPT.
Nubank lidera até entre os cartões sem anuidade
O estudo ainda aponta o Nubank como a principal recomendação do ChatGPT para quem procura um cartão sem anuidade.
Mais uma vez, a conclusão não encontra respaldo na realidade.
A isenção de anuidade deixou de ser um diferencial exclusivo há bastante tempo. Hoje existem diversas alternativas que dispensam essa cobrança e ainda oferecem programas de pontos.
O C6 Bank e o Inter, por exemplo, possuem cartões sem anuidade que acumulam pontos, ainda que modestamente.
Cabe frisar que, atualmente, a anuidade é facilmente negociada com muitas instituições financeiras, seja mediante um determinado volume de gastos, seja por meio de investimentos.
A proposta do Nubank de oferecer um cartão sem anuidade tornou-se ultrapassada, até porque a instituição praticamente não oferece contrapartidas para quem concentra gastos no “roxinho”.
Os equívocos do ChatGPT ficam ainda mais evidentes ao se observar o segundo colocado entre os cartões sem anuidade: o Will Bank, instituição que pertencia ao Banco Master e encerrou suas atividades em janeiro deste ano, após a liquidação do controlador em meio ao escândalo de uma fraude bilionária.
O estudo da Ranqia foi realizado em julho de 2026, meses depois do fim das operações do banco.
Estudo não mede os melhores cartões, mas quem domina as respostas da IA
É importante fazer uma ressalva. O objetivo da Ranqia nunca foi elaborar um ranking dos melhores cartões de crédito do Brasil.
O estudo buscou responder a outra pergunta: quais marcas e produtos aparecem com mais frequência nas respostas do ChatGPT.
Para isso, a empresa analisou 18.654 respostas geradas em dez prompts diferentes, considerando indicadores como visibilidade, posição média nas listas, co-menções entre produtos e as fontes mais influentes utilizadas pelo modelo.
A própria metodologia ressalta que os dados são descritivos e não estabelecem relação de causalidade entre as fontes consultadas e as recomendações produzidas pela inteligência artificial.
O estudo identifica ainda quais domínios exercem maior influência nas respostas do ChatGPT. Entre eles aparecem portais especializados em cartões de crédito, programas de fidelidade, sites de viagens e, em alguns cenários, comunidades como o Reddit.
Em outras palavras, o levantamento não afirma que XP Visa Infinite, Nubank Ultravioleta ou Santander Unlimited sejam os melhores cartões do mercado. Ele mostra apenas que esses produtos ocupam espaço privilegiado na “camada de resposta” do ChatGPT.
Generative Engine Optimization
É justamente aí que entra um conceito que vem ganhando força com a popularização da inteligência artificial: o Generative Engine Optimization (GEO).
Assim como o SEO reúne estratégias para posicionar páginas entre os primeiros resultados do Google, o GEO busca aumentar a presença de marcas e produtos nas respostas geradas por ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude...
O relatório deixa isso claro ao afirmar que “ganhar presença exige aderência ao território e evidência verificável” e recomenda que empresas disponibilizem informações claras sobre benefícios, anuidade, pontuação, elegibilidade e demais características dos produtos para ampliar sua visibilidade nas respostas da IA.
Na era da inteligência artificial, ser frequentemente recomendado não depende apenas da qualidade do produto, mas da quantidade, da consistência e da facilidade com que suas informações podem ser encontradas, interpretadas e cruzadas pelos modelos de IA.
Isso ajuda a explicar por que cartões pouco atrativos para o consumidor aparecem entre as principais recomendações, enquanto outros, considerados mais completos ou que chegaram recentemente ao mercado, acabam recebendo pouca ou nenhuma visibilidade.
A principal conclusão é que relevância para uma IA e qualidade de um produto são conceitos diferentes. Um cartão pode ser excelente e aparecer pouco nas respostas do ChatGPT, assim como outro pode dominar as recomendações porque existe um ecossistema muito mais robusto de informações sobre ele na internet.
Por isso, respostas produzidas por inteligência artificial devem servir como ponto de partida para uma pesquisa na hora de escolher um cartão de crédito — nunca como um parecer técnico definitivo.
Apesar dos avanços rápidos, a IA ainda não substitui a análise especializada; ela depende dela. Suas respostas são construídas a partir do conhecimento produzido por jornalistas, especialistas, empresas e pela própria comunidade de usuários.
Sem esse trabalho, não há algoritmo capaz de apontar, de forma consistente, as melhores escolhas para o consumidor.