
O Nubank teve um papel inegável na transformação do mercado financeiro brasileiro nos últimos anos. A fintech ajudou a bancarizar milhões de pessoas, simplificou o acesso ao crédito e popularizou um cartão sem anuidade em um momento em que bancos tradicionais ainda tratavam serviços básicos como privilégio.
O problema é que o mercado evoluiu, mas o roxinho estagnou.
Hoje, enquanto concorrentes oferecem cashback, pontos, milhas, programas de fidelidade e benefícios em viagens até em cartões gratuitos, o cartão tradicional do Nubank continua funcionando quase exclusivamente como uma ferramenta de parcelamento.
E isso cria um paradoxo curioso: o cartão mais popular do país é também um dos que menos devolvem valor para o cliente que concentra gastos nele.
Cartões sem anuidade já oferecem mais benefícios que o Nubank
A diferença fica evidente quando o Nubank é comparado a cartões gratuitos e intermediários da nova geração.
O C6 Mastercard, por exemplo, oferece acesso ao programa de pontos Átomos até mesmo em sua versão mais básica e sem anuidade. No plano gratuito, o cliente acumula 0,05 ponto por real gasto — pontos que não expiram e podem ser usados para cashback, passagens aéreas, abatimento da fatura e produtos dentro do ecossistema do banco.
Já no C6 Platinum, também sem anuidade, a pontuação sobe para até 0,45 ponto por real gasto para clientes que movimentam ao menos R$ 3 mil mensais no crédito.
O Inter seguiu caminho parecido. Em seu programa de fidelidade, o Inter Loop, o banco oferece acúmulo de pontos até nas categorias mais simples: no Inter Mastercard Gold, o cliente recebe 1 ponto a cada R$ 10 gastos; no Inter Mastercard Platinum, 1 ponto a cada R$ 5.
Pode não parecer algo significativo à primeira vista. Mas entendo que existe uma sinalização importante no movimento do mercado: até cartões gratuitos começaram a criar mecanismos mínimos de retorno financeiro para incentivar fidelização e concentração de gastos.
Enquanto isso, milhões de clientes do roxinho tradicional seguem com o mesmo modelo de cartão há vários anos.
Acredito que existe um risco mais profundo nessa estratégia.
O Nubank nasceu justamente para desafiar bancos tradicionais que, acomodados pelo tamanho da própria base de clientes, passaram anos oferecendo pouco e inovando lentamente.
O problema é que a fintech começa a transmitir uma sensação parecida: a de que a força da marca e a fidelidade construída ao longo da última década seriam suficientes para sustentar um cartão que evoluiu menos do que o restante do mercado.
O cartão do Nubank ainda vale a pena?
Na prática, o cliente usa o cartão diariamente, movimenta limite, gera receita para o banco e concentra gastos no crédito, mas não recebe nada em troca.
Isso ajuda a explicar por que o cartão do Nubank continua extremamente forte em popularidade, mas cada vez menos competitivo quando analisado sob a ótica de benefícios financeiros.
Em 2015, anuidade zero era suficiente para revolucionar o mercado. Em 2026, virou apenas o mínimo esperado.
Hoje, cashback, pontos e programas de fidelidade deixaram de ser luxo e passaram a funcionar como ferramentas básicas de inteligência financeira. Concentrar gastos em um cartão que não oferece retorno significa, na prática, abrir mão de benefícios que o próprio mercado já começou a tratar como padrão.
O grande desafio do Nubank
O Nubank continua extremamente forte em imagem, experiência digital e reconhecimento de marca, mas seu principal cartão está cada vez menos alinhado à evolução do mercado.
Atualmente, o Nubank praticamente divide sua estratégia de cartões entre dois extremos: o roxinho tradicional, que oferece poucos benefícios concretos além da ausência de anuidade, e o Ultravioleta, posicionado como produto premium.
Talvez esteja justamente aí um dos principais desafios da fintech.
Enquanto concorrentes criaram segmentos com diferentes níveis de benefícios, programas de fidelidade e mecanismos de retenção, o Nubank continua operando em uma lógica muito mais simplificada.
Essa simplicidade, que no passado foi sinônimo de inovação, hoje começa a transmitir a sensação de um ecossistema pouco desenvolvido.
Talvez tenha chegado a hora de o Nubank entender que experiência do aplicativo, sozinha, já não basta. O mercado de cartões evoluiu, o consumidor ficou mais técnico e concentrar gastos sem receber praticamente nada em troca deixou de parecer moderno; virou limitação.