
O lançamento do Modo Latam Pass pelo Nubank, em março, veio acompanhado de uma promessa sedutora: facilitar a subida de categoria no programa de fidelidade da companhia aérea.
Na teoria, a proposta chama atenção. O cliente do Ultravioleta passa a transferir automaticamente os pontos do cartão para o Latam Pass e ainda recebe pontos qualificáveis (QPs), usados para avançar nas categorias elite da companhia. Na prática, porém, a matemática revela uma história bem diferente.
O regulamento prevê que cada 4 milhas acumuladas geram 1 ponto qualificável. Como o cartão acumula 2,2 milhas por dólar gasto, o cliente precisa gastar cerca de US$ 1,82 para conseguir apenas 1 QP.
Com o dólar na faixa dos R$ 5, isso significa aproximadamente R$ 9 em gastos para gerar um único ponto qualificável.
É aí que a distância entre discurso e realidade começa a aparecer.
Hoje, a Latam exige:
- 12 mil QPs para categoria Gold;
- 35 mil para Platinum;
- 100 mil para Black;
- 200 mil para Black Signature.
Os números rapidamente saem da realidade da maior parte dos consumidores.
Para atingir o nível Gold apenas com gastos no cartão, o cliente precisaria movimentar algo próximo de R$ 109 mil por ano.
No Platinum, a conta sobe para cerca de R$ 318 mil anuais.
Já a categoria Black exige aproximadamente R$ 909 mil em gastos no cartão ao longo de um único ano.
Para chegar ao Black Signature — que garante mais upgrades e assento premium, acesso a lounges, etc. —, demandaria despesas próximas a R$ 1,8 milhão anuais no cartão de crédito.
Ou seja, embora o programa realmente gere pontos qualificáveis, a ideia de subir de status via cartão é muito menos acessível do que a comunicação sugere.
E cabe aqui uma observação: um cliente que, eventualmente, tenha esse volume de gastos no Nubank Ultravioleta está deixando de ganhar. Há instituições financeiras que oferecem retorno significativamente maior em pontuação e benefícios para esse perfil.
Limitações
Porém, há algo ainda pior: o próprio regulamento limita o acúmulo a 60 mil QPs por ano via parceria com o Nubank.
Portanto, ninguém conseguirá alcançar o Black ou Black Signature apenas usando esse mecanismo, independentemente do quanto gastar.
Isso muda bastante a leitura do produto. Em vez de funcionar como um caminho realista para atingir o topo da Latam, o programa funciona mais como um complemento para quem já voa com frequência ou já possui status avançado.
Para esse público, os QPs extras podem ajudar na renovação de categoria. Para o consumidor médio, porém, a promessa perde força quando confrontada com os números.
Há ainda outro ponto relevante nessa discussão. Ao aderir ao programa, o cliente abre mão da flexibilidade tradicional dos pontos do Ultravioleta. Todos os pontos elegíveis passam a ser enviados automaticamente ao Latam Pass, sem possibilidade de escolher o momento da transferência ou aproveitar campanhas futuras de bônus.
Isso pode representar perda de eficiência para usuários mais estratégicos do mercado de milhas.
Hoje, não é raro encontrar promoções que aumentam significativamente o retorno nas transferências para companhias aéreas.
O programa também prevê um período mínimo de permanência de 90 dias e deixa claro que as transferências são irreversíveis após o crédito das milhas.
Em outras palavras: depois que os pontos entram no Latam Pass, não há retorno ao ecossistema do Nubank.
O que diz o Nubank
Após a publicação deste texto, o Nubank entrou em contato com a coluna e enviou o seguinte posicionamento:
"O Modo LATAM Pass foi desenvolvido pelo Nubank para acelerar a evolução dos clientes no programa, oferecendo 1 ponto qualificável a cada 4 milhas geradas e um limite de até 60 mil pontos qualificáveis por ano, o que configura uma proposta de cartão de crédito competitiva para quem busca benefícios em viagens. O cartão funciona como um acelerador da jornada no LATAM Pass, mas não é a única forma de acesso às categorias do programa, que também considera o relacionamento do cliente com o ecossistema da companhia.
No exemplo citado na coluna, para atingir a categoria Gold, o volume estimado de gastos é de cerca de R$ 109 mil por ano, ou aproximadamente R$ 9 mil por mês, um patamar compatível com o perfil de uso do público de alta renda a que o Nubank Ultravioleta se dirige. Além disso, o saldo já acumulado pelo cliente também entra nessa equação, tornando a proposta ainda mais vantajosa. Por fim, o Modo LATAM Pass oferece um componente relevante de experiência e simplicidade que a coluna não contempla: a ativação pode ser feita com um toque no aplicativo, sem necessidade de troca de cartão nem de taxas adicionais."
Cartões Itaú Latam Pass

Vale ressaltar aqui que a Latam possui cartões co-branded, Visa e Mastercard, em parceria com o Itaú.
Eles acumulam 2,5 milhas por dólar em compras nacionais; 3,5 milhas por dólar em compras internacionais; oferecem bônus temporário de 50% para assinantes do Clube Latam Pass; até 9 mil pontos qualificáveis por ano; e milhas que não expiram enquanto o cartão estiver ativo.
Esses cartões, entretanto, revelam que companhia ainda está atrasada na disputa pelos clientes de alta renda.
Embora ofereçam acúmulo competitivo e benefícios como upgrades de cabine, a experiência prática costuma ser menos generosa do que o marketing sugere.
Os upgrades gratuitos, por exemplo, são difíceis de conseguir, especialmente em voos internacionais. Após mudanças recentes nas regras da Latam, clientes desses cartões passaram a ocupar as últimas posições na fila.
Até benefícios básicos, como embarque prioritário, nem sempre aparecem automaticamente no cartão de embarque e frequentemente exigem validação manual.
Enquanto isso, programas rivais seguiram outro caminho.
Cartões co-branded da Smiles, da Gol, e da Azul já oferecem status automático ou atalhos muito mais claros dentro de seus programas de fidelidade.