
Durante anos, ter um cartão premium do Itaú era quase um símbolo automático de status financeiro. Mas o mercado mudou. Clientes de alta renda hoje não escolhem um banco apenas pela marca; eles analisam salas VIP em aeroportos, flexibilidade de pontos, parceiros estratégicos e, sobretudo, a eficiência do programa de fidelidade. Nessa comparação, o Itaú soa menos sofisticado do que sua imagem historicamente sugere.
Um dos principais cartões do banco hoje é o Itaú The One Mastercard Black. Recentemente, o banco também lançou o Mastercard World Legend para um público de ultra alta renda — produto que igualmente levanta questionamentos relevantes, mas que merece uma análise separada.
O The One hoje opera em duas camadas: o The One Personnalité e o The One Private. A versão Personnalité oferece 3 pontos por dólar em compras nacionais e até 3,5 no exterior, enquanto a versão voltada ao Itaú Private Bank chega a 4 pontos por dólar, além de condições mais amplas para acessos a salas VIP. Em ambos os casos, os pontos não expiram e o foco está em clientes de alta renda.
Os critérios para chegar ao The One Personnalité já colocam o cliente em uma faixa patrimonial elevada: além de um relacionamento considerado excelente pelo banco, é necessário ter renda mínima de R$ 15 mil ou cerca de R$ 150 mil investidos, além de um limite pré-aprovado de pelo menos R$ 60 mil em outro cartão da instituição. O problema é que o mercado premium mudou de patamar.
Hoje, clientes de alta renda não avaliam apenas quantos pontos um cartão acumula, mas também a flexibilidade do programa de fidelidade, a eficiência nas transferências, os benefícios em viagens e o retorno efetivo entregue pelo banco em relação ao patrimônio investido.
É justamente nesse ponto que os concorrentes começaram a pressionar o Itaú.
O Banco do Brasil, por exemplo, disputa o segmento ultra premium com o Altus, integrado à Livelo, destinado ao clientes do segmento Private. O cartão oferece até 5 pontos por dólar gasto, pontos sem expiração e IOF zero em compras internacionais por tempo indeterminado. Além disso, a estrutura escalonada permite aumentar a pontuação conforme o volume de gastos, enquanto clientes com mais de R$ 5 milhões investidos conseguem isenção total da anuidade.
Mesmo para quem não é Private, o BB oferece o Altus Liv Visa Infinite, que oferece até 4 pontos Livelo por dólar gasto, inclusive em compras internacionais, além de pontos que não expiram. O modelo é escalonado: clientes com maior volume de gastos conseguem sair da faixa inicial de 3 pontos e atingir os 4 pontos por dólar.
Os dois cartões do BB oferecem acessos ilimitados a salas VIP por meio dos programas Visa Airport Companion e LoungeKey.
Já o Bradesco Visa Aeternum entrega 4 pontos Livelo por dólar gasto no Brasil e no exterior, também sem validade dos pontos. Diferentemente do Itaú, o cliente do Bradesco não precisa ser Private para solicitar o Aeternum — já é possível no segmento Principal.
O cliente também pode usar o fast track exclusivo em Congonhas e lounges próprios em Congonhas, Guarulhos (T2 e T3), Rio de Janeiro (Santos Dumont) e Curitiba, além de salas conveniadas em Brasília, Confins, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador e Viracopos. Neste aspecto, o Bradesco sai na frente em relação a todos os demais concorrentes.
O Santander reforça ainda mais essa mudança no mercado premium. O Santander Unlimited Visa Infinite oferece até 3,6 pontos por dólar gasto para clientes Select e até 4 pontos no segmento Private.
Com o recém-lançado Santander Rewards, essa pontuação pode subir para até 5,4 (segmento Select) e 6 pontos (Private) por dólar, respectivamente, dependendo do relacionamento do cliente com o banco.
Nesse novo programa, a pontuação do Santander pode ser potencializada de maneira bem simples, com adesão de produtos, investimentos, ter chaves Pix cadastradas no banco, receber o salário na instituição, etc.
Assim como os demais, o cartão mantém acessos ilimitados a salas VIP por meio do programa LoungeKey e uma integração com o Esfera, programa que hoje se destaca pela frequência de campanhas promocionais e pelas parcerias com programas de fidelidade internacionais.
Pontos já não bastam
O valor de um cartão premium hoje está menos ligado ao acúmulo bruto de pontos e mais à capacidade de extrair valor deles. É justamente nesse aspecto que o Itaú parece operar em uma lógica mais limitada.
Enquanto Bradesco e Banco do Brasil estão integrados à Livelo — plataforma que se consolidou como principal hub de fidelidade do mercado brasileiro —, e o Santander está conectado ao Esfera, o Itaú trabalha em um ecossistema mais restrito, com transferências concentradas em Latam Pass, Smiles, Azul Fidelidade e TAP Miles&Go.
Na prática, isso reduz a capacidade do cliente de aproveitar transferências bonificadas, promoções agressivas e oportunidades mais vantajosas em programas internacionais.
Esse ponto ganhou ainda mais importância depois da popularização das tarifas dinâmicas. Hoje, programas como Latam Pass, Smiles e Azul alteram constantemente a quantidade de milhas exigida em uma emissão. Em alguns casos, a diferença de preço pode variar drasticamente em questão de horas.
Ter pontos concentrados em plataformas como Livelo ou Esfera permite ao cliente esperar oportunidades melhores, comparar parceiros e reduzir o impacto da desvalorização frequente das milhas com transferências bonificadas. O Itaú, por outro lado, ainda oferece uma estrutura menos adaptada a esse novo perfil de consumidor.
Anuidades
O contraste fica ainda mais evidente quando a discussão chega ao custo do produto.
O Itaú The One Mastercard Black cobra anuidade de R$ 4.000 por ano, com isenção condicionada a investimentos de R$ 5 milhões ou gastos mensais de R$ 60 mil na fatura.
O Bradesco Visa Aeternum, por sua vez, cobra cerca de R$ 1.900 anuais, também com possibilidade de isenção para clientes com investimentos acima de R$ 5 milhões.
Já o BB Altus cobra R$ 1.800 anuais — segundo consta na tabela de valores atualizados do banco com possibilidade de isenção mediante relacionamento e volume financeiro.
Curiosamente, o Altus Liv possui anuidade mais alta: R$ R$ 3.600, com possibilidade de isenção para clientes com gastos acima de R$ 25 mil mensais ou cerca de R$ 2 milhões investidos no banco.
O Santander Unlimited reforça essa mudança de percepção no segmento premium. O cartão cobra anuidade de aproximadamente R$ 2.200 anuais, com possibilidade de isenção mediante gastos de R$ 30 mil por mês ou R$ 5 milhões investidos no banco.
No mercado premium atual, luxo deixou de ser apenas barreira de entrada. O cliente de alta renda espera eficiência, flexibilidade e retorno proporcional ao patrimônio e ao volume financeiro que entrega ao banco.
O Itaú ainda sustenta parte relevante da sua estratégia premium na força histórica da marca e na dificuldade de acesso aos seus cartões. O problema é que o mercado de alta renda ficou mais racional, técnico e comparativo. Hoje, os concorrentes conseguem entregar mais justamente para o público que mais entende de milhas, aeroportos e benefícios financeiros.
O premium deixou de ser só pontuação
Fora do sistema tradicional dos bancões brasileiros, o Revolut Ultra tenta disputar um público mais globalizado. Com uma mensalidade de R$ 250 (com isenção para quem gastar acima de R$ 30 mil por mês), o cartão oferece 3 pontos por dólar gasto no crédito e 1,5 ponto por dólar no débito — incluindo compras no débito internacional pela conta global —, uma dinâmica ainda rara no mercado brasileiro.
O programa RevPoints também se destaca pelas transferências mais eficientes para parceiros internacionais importantes, como Executive Club (British Airways), Iberia Plus e Flying Blue, muitas vezes sem deságio ou com deságio significativamente menor do que o praticado por Livelo e Esfera.
Para quem viaja ao exterior com frequência, é hoje uma das estruturas mais interessantes do mercado, embora ainda precise ampliar a rede de parceiros no varejo e campanhas bonificadas para ganhar mais competitividade no dia a dia.
Hoje, o único cartão emitido no Brasil que oferece paridade praticamente direta de transferência para programas internacionais relevantes é o American Express Centurion. Ainda assim, trata-se de um produto extremamente restrito, voltado a clientes de patrimônio muito elevado e com gastos anuais que podem ultrapassar centenas de milhares de reais, além de depender de convite da própria American Express.