Aumento nos preços dos alimentos é um dos fatos que mais pesa no bolso do brasileiro
Ana Branco/Agência O Globo
Aumento nos preços dos alimentos é um dos fatos que mais pesa no bolso do brasileiro

É olhar nas prateleiras dos supermercados, realizar uma busca na internet ou bisbilhotar as vitrines das lojas para perceber os aumentos nos preços dos produtos . Salário defasado,  inflação  - que fechou 2020 em 4,52% - e a pandemia de Covid-19  escancaram as dificuldades financeiras dos trabalhadores.

Para tentar equilibrar a situação econômica do país, o Comitê de Políticas Monetárias do Banco Central (Copom) aumentou em 0,75% a taxa básica de juros para diminuir os índices inflácionarios previstos para 2021 . É a chamada taxa Selic, que subiu de 2% para 2,75% ao ano. 

Manter a economia brasileira estável é a esperança dos brasileiros para baixar os preços dos alimentos e combustíveis. Mas como a Selic influência nisso?

A empresária Júlia Nogueira vai ao supermercado todos os dias para comprar ingredientes para suas receitas. No entanto, precisou aumentar o preço para os clientes, pois não estava dando conta dos altos valores nas prateleiras.

"Percebi um aumento muito grande nos preços, principalmente de produtos básicos, como arroz, óleo e carne, que subiu demais. Realmente, isso acabou pesando", conta.

“Hoje, temos que utilizar uma verba muito maior aqui dentro da nossa casa para fazer as compras de casa e da empresa. Fazer comida para fora, querendo ou não, precisa ser repassado para o consumidor, porque, se não gerou, geraria um lucro ainda menor do que estava se gerando. O lucro ficou menor, o ganho ficou menor, mesmo repassando”, completa.

A Júlia não é a única que sentiu o peso no bolso na hora de ir às compras. A funcionária pública, Maria Sylvia Mendes, precisou reduzir o valor gasto nos supermercados.

"Eu fazia compra mensal, mas precisei reduzir para cada 15 dias ou semanal para comprar apenas o que está faltando em casa. Hoje em dia você gasta muito no supermercado e não leva nada", afirma.

No entanto, especialistas acreditam que a situação deve se estabilizar nos próximos meses. A decisão do Copom em aumentar a taxa básica de juros provocará manutenção nos valores dos produtos, mas prejudicará o crédito do consumidor a curto prazo e elevar os preços de compras parceladas. 

"Com a taxa de juros mais elevada, os bens financiados e bens de consumo não duráveis comprados também com o crédito, terá uma alteração nas parcelas e preços, seja médio, curto ou longo prazo", explica o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin.

"Juros maiores provoca uma venda em crédito mais cara. Você compra um carro a R$ 50 mil. À vista é esse valor, a prazo é mais caro", completa.

Alta nos juros

O consumidor, entretanto, deve ser afetado com maior restrição de créditos e alta nos juros para empréstimos. Rochlin aconselha pessoas e empresas a pesquisarem as condições de crédito antes de assinar contratos.

Empréstimos e financiamentos devem ficar mais caros nos próximos meses, afirma especialista
Juan Mabromata/Divulgação
Empréstimos e financiamentos devem ficar mais caros nos próximos meses, afirma especialista

"Quem tem crédito pós fixado tem alteração nos preços. Quem já tem o crédito pré fixado não terá prejuízos. Agora, os que buscam empréstimos ou empresas que estão realizando investimentos produtivos bancários terão consequencias negativas com a alta dos juros", ressalta.

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Poder de compra da população

Com as alterações nos preços e a maior necessidade de consumo, Maria Sylvia conta que seu poder de compra caiu nos últimos meses. Ela lembra dos reajustes nos combustíveis, que assustaram a população neste começo de ano.

Sylvia
Arquivo pessoal

A funcionária pública, Maria Sylvia Mendes, precisou reduzir o valor gasto no supermercado nos últimos meses

“O meu poder de compra caiu nos últimos meses com os aumentos. Os combustíveis, por exemplo: anunciaram redução nos preços, mas isso não chega no consumidor”, afirma.

O professor da Fundação Getúlio Vargas confirma a queda no poder de compra da população com a alta da Selic. Entretanto, explica que a falta de venda das empresas provocará a manutenção nos preços dos produtos, podendo aumentar o poderio financeiro dos consumidores a médio prazo.

“Quando aumenta a Selic, imediatamente diminui o poder de compra da população. Você precisa de mais reais para suportar a prestação. A Selic aumentando, isso reduzindo o consumo, as empresas vão reduzir os preços e isso vai aumentar o poder de compra das famílias, isso a médio e longo prazo, e não a curto”, diz Mauro Rochlin.

Rochlin ressalta o aumento nos investimentos após a alta da taxa básica de juros. Para o especialista, a medida pode colaborar para incentivar a população em poupar dinheiro, principalmente em época de crise.

“Com a taxa de juros maior, as pessoas têm mais incentivo em poupar, eles trocam o consumo pela poupança porque é mais rentável”, lembra.   

Taxa Selic

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou, na última quarta-feira (17), o reajuste em 0,75% da Selic e agora a taxa juros será de 2,75% ao ano. Essa foi a primeira vez, em cinco anos, que a taxa sofre alta.

Em comunicado, o comitê informou entender "que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui o ano-calendário de 2021 e, principalmente, o de 2022".

O Copom tenta equilibrar os efeitos da pandemia de Covid-19 na economia do país. Em 2020, o conselho reduziu a Selic de 4,25% para 2%, com o objetivo de aumentar a geração de empregos no país. Para isso, foi necessário prever a alta de inflação.

Banco Central prevê Selic entre 5,5% e 6% em 2021
Agência Brasil
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No entanto, os preços dos alimentos e combustíveis assustaram a população no começo deste ano. Nos últimos 12 meses, a carne subiu 29% e a gasolina apresentou alta de 54% entre janeiro e março deste ano . A última, inclusive, é considerada a vilã da inflação no começo de 2021, que está prevista para 4,4%, segundo o Boletim Focus .

A previsão é que a Selic encerre o ano entre 5,5% e 6%, as maiores taxas desde outubro de 2019. No entanto, os reajustes na taxa básica de juros vão depender da situação econômica do país nos próximos meses.

O Copom volta a se reunir em maio e prevê mais um reajuste de 0,75% na taxa básica de juros, salvo mudanças na situação econômica no país.

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