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madalena escravizada por 38 anos em minas gerais
Reprodução/UOL
Madalena, livre após ser escravizada por 38 anos, diz que vive com medo de ser perseguida

"Eu não sinto mais nada. Não quero mais nada com eles. Não quero nem saber. A gente fica tão angustiada. O tanto que chorei. Tem hora que eu choro um pouquinho, as pessoas chegam perto de mim e eu começo a chorar. Mas isso está tirando a angústia. Eu choro muito. Nossa! Medo dos homens me seguirem, de sair, medo de morar sozinha. É difícil. Tenho medo de eles mandarem alguém para me perseguir. É medo".  Madalena Gordiano, 46, escravizada por 38 anos pela família Milagres Rigueira nas cidades mineiras de São Miguel do Anta, Viçosa e Patos de Minas.

Retirada da escola aos 8 anos e escravizada pela mesma família por 38 anos, com direito a casamento forçado e pensão que era sua por direito sendo usado pela família dos patrões, financiando faculdade de medicina da filha da família Milagres Rigueira, Madalena Gordiano deu entrevista ao UOL que foi ao ar em vídeo nesta terça-feira (12), falando sobre os anos de opressão e sua vida após conseguir a liberdade. A mulher foi mantida sob regime análogo à escravidão, sem remuneração, férias, direitos trabalhistas e teve suas pensões, que totalizavam R$ 8,4 mil, usadas por seus patrões.

Rotina, medo e negligência

"Eu levantava cedo, passava um monte de roupa, depois fazia café, arrumava a casa e limpava banheiro. Eu ficava até de noite arrumando as coisas, até a hora de deitar. Não parava um minuto. Minhas costas até doíam. Dói ainda. Tudo era eu. É complicado, muito complicado... Quando tinha serviço eu trabalhava. Como tomo remédio controlado, eu deitava às 8 da noite e acordava 2 da manhã. Acho que era efeito do remédio. Eu já acordava e começava a trabalhar e ficava acordada até 8 da noite. Eu ficava um bagaço", relatou Madalena sobre sua rotina.

"Eu não podia fazer nada. Minha cabeça estava explodindo querendo falar com alguém que me ajudasse e resolvesse esse problema para mim. E trabalhando... Trabalhando, sabe? Igual escrava . Trabalhava e eles [família Milagres Rigueira] falando que nada estava bom. Arrumava e nada estava bom. Dava uma raiva. Isso não estava certo", contou.

Segundo Madalena, seu silêncio era motivado por medo dos patrões, que a repreendiam, sobretudo Valdirene, sua ex-patroa, mãe da família, a quem Madalena faz os piores relatos da relação nos 38 anos de trabalho.

"Eu não podia falar nada. Tinha de chegar caladinha, sem falar nada. Minha patroa dizia que eu ia para a igreja só para fofocar. Falava desse jeito! Minha patroa, mulher mais chata do mundo. Nossa! Aborrecida!", disse Madalena, que trabalhou na casa dos 8 aos 47 anos.

A falta de compreensão e a negligência também marcaram as tentativas de comunicação de Madalena. Segundo ela, contou ao padre um pouco da situação, e ele aconselhou que a fiel rezasse. "Eu pedia a Deus para me dar uma luz, um lugar para eu sair, pedia distância desse povo. Eu não aguentava mais. Eu pedia muito. Falei até com o padre 'padre, o que eu faço? Todo dia a mulher [Valdirene] está nervosa, o homem [Dalton] está nervoso'. O padre disse para eu entrar no quarto, rezar uma Ave Maria, um Pai Nosso e deixar para lá que isso vai acalmar. Mas era todo dia. Eu não ia aguentar. Mas minha casa era a igreja", relatou.

Interrupção dos estudos e casamento forçado

"Eles me tiraram da escola para eu trabalhar. Eu estava grande, minha madrinha falou. Disse que eu não precisava estudar porque eu já estava mocinha", conto Madalena. "Mas mocinha estuda, velho, novo estuda. Todo mundo estuda", continuou.

Com seus três anos de estudo , ela aprendeu a ler e escrever, o que salvou sua vida e garantiu sua liberdade. Suas cartas enviadas aos vizinhos da família que a escravizou foram a base para as denúncia ao Ministério Público do Trabalho (MPT).

Durante seus 38 anos de trabalho para a família Milagres Rigueira, Madalena, além de ter sido constantemente explorada, ainda foi vítima de um casamento forçado com Marino Lopes da Costa, que tinha 78 anos, era um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e tio de Valdirene Lopes da Costa, esposa de Dalton César Milagres Rigueira, filho de Maria das Graças Milagres Rigueira, quem escravizou Madalena há quatro décadas.

Com saúde debilitada e sem conseguir andar, a família previu a morte do tio de Valdirene e, para garantir uma pensão, arranjou um casamento entre Madalena e o homem. Eles casaram em 2001, Madalena nunca morou com ele e diz que só o viu no dia do casamento. Marino morreu dois anos depois e as duas pensões, que juntas chegavam a R$ 8,4 mil e seriam de Madalena, passaram a ser usadas pela família que a escravizava.

"Eu não sabia desse dinheiro. Não sabia não, não sabia mesmo. Sabia que eles [família Milagres Rigueira] faziam na cara dura, que estava acontecendo alguma coisa, mas eu não podia falar nada. Eu não morei com ele [Marino] não. Só casei mesmo. Casei por casar. Ele era idoso, não aguentava andar. Eu não cheguei a morar com ele não", contou Madalena.

Vida após conseguir a liberdade

Aos 47 anos, Madalena pode agora, livre, finalmente viver sua vida. Apesar do medo de ser perseguida, ela não esconde sua felicidade por poder, enfim, ter dignidade.

Em Uberaba (MG) desde novembro, quando foi retirada da casa em que era escravizada, ela faz parte de um programa de ressocialização feito pela Clínica de Enfrentamento ao Trabalho Escravo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com direito a auxílio de assistentes sociais e psicólogos.

Ainda sem saber qual será seu futuro, Madalena projeta que ter sua própria casa é seu único sonho. "Eu quero ter o meu lugar. É hora de arrumar o meu lugar. Eu quase não tenho sonho de nada. Eu não sonho com muita coisa não. Só mudança de casa. Eu não sonho mais. Não sonho nem com minha mãe e com meu pai".

"Eu ainda não escolhi a cidade. Mas sabe onde quero morar? Rio Grande do Sul, Uberlândia, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis", brincou. Em 2020, ela teve, pela primeira vez desde os seus 8 anos, um Natal fora da família Milagres Rigueira. Feliz, ela conta que "O Natal foi muito bom. Eu montei uma árvore sozinha. Foi a minha primeira vez. Agora eu quero montar todo ano".

Após conseguir sua liberdade, Madalena já fez as unhas e comprou roupas, cuidando de si e sua aparência. Segundo ela, seus patrões reclamavam quando ela pintava as unhas ou deixava o cabelo crescer.

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