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Especialistas apontam que sem planejamento financeiro não dá para sair da inadimplência, situação que contempla mais da metade das famílias no País

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Entrar em desespero e tomar atitudes por impulso são alguns dos erros que não te ajudam a sair das dívidas

A viagem das férias não foi bem planejada e, quando percebeu, as contas do mês não batiam , o cheque especial precisou ser utilizado e o cartão de crédito atingiu o limite. Foi assim que a professora Márcia Ferreira Damasceno, de 51 anos, se viu em uma dívida que está penando para pagar. 

“Peguei dinheiro emprestado no banco para pagar a dívida, mas acabei não me organizando e continuei usando o cheque especial. Já faz oito meses que não consigo sair do vermelho e minha dívida dobrou”, admite.

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No desespero de ver as contas aumentarem e o dinheiro sumir, é normal tomar atitudes que, invés de ajudar, só pioram o endividamento .

Tão normal, que Márcia está longe de ser a única a cometer esse erro: em setembro, 65,1% das famílias brasileiras relataram ter dívidas, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esse foi o maior resultado desde julho de 2013.

“Quando a pessoa não se propõe a encarar as contas , se organizar e mudar de atitude, é muito fácil voltar para o endividamento”, explica o professor Marco Antonio Cordeiro, coordenador do curso de ciências contábeis da Anhanguera.

Ele explica que quando não há essa consciência, a tendência é aumentar a dívida , mesmo quando se recorre ao empréstimo.

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É difícil, mas não é impossível sair da inadimplência . No entanto, algumas atitudes podem atrapalhar ainda mais esse processo. Confira  5 atitudes  indicadas por especialistas financeiros que não devem ser tomadas na hora que a dívida chega, e saiba como  voltar a ter paz.

1 - Ignorar a dívida

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Não ignore a dívida e continue gastando, isso pode piorar a situação

Por mais doloroso que possa ser, é preciso abrir a conta corrente e encarar o saldo negativo. Adiar esse momento só faz com que o consumidor continue gastando , aumentando os juros sobre a dívida. 

“O primeiro passo para quem está no vermelho é ter noção da composição da dívida. Classificar todas as contas, tudo o que deve, para ter uma noção real desse valor”, orienta Cordeiro. 

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Para ter a consciência dessa quantia o ideal é colocar todos os gastos no papel , incluindo saldo atual da conta bancária, cobranças nos cartões de crédito, empréstimos e fazer um levantamento dos descontos futuros. Ser realista é fundamental para traçar um plano e sair dessa situação.

Além disso, quanto antes o indivíduo reconhecer o saldo devedor , menos ele terá que pagar. “Se eu tenho uma dívida que é corrigida com juros a cada 30 dias, o melhor é tentar resolvê-la o mais rápido possível”, lembra o professor.

Marcela Kawauti, economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) reconhece que enfrentar a inadimplência não é fácil. “É comum a pessoa saber que não vai conseguir resolver aquele problema e segue a vida como se nada estivesse acontecendo. Então ela protela um problema , paga juros, fica com o nome sujo e deixa de colocar a vida nos eixos. Mas quanto antes a gente resolver, mais perto se fica da solução do problema”. 

2 - Evitar falar com o gerente

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Não fuja do gerente, a melhor negociação é a presencial

Para uma pessoa endividada, se deparar com a opção de crédito pré-aprovado na tela do caixa eletrônico seguido das palavras “contrate agora” pode ser muito tentador. Mas contratar a partir desse recurso pode ser uma cilada .

“A mesma modalidade de empréstimo se negociada diretamente com o gerente do banco , por exemplo, pode ser muito mais vantajosa, com taxas mais atrativas para o cliente”, ensina Cordeiro. 

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Muitas vezes, a vergonha de falar sobre o endividamento atrapalha na hora de colocar as contas em dia. Porém, o professor lembra que o brasileiro precisa entender que negociar pode deixar a situação mais favorável.

“Cada um sabe da sua necessidade e capacidade de pagamento. Falar quanto pode pagar, questionar o gerente sobre taxas e juros e, principalmente, não aceitar a proposta do banco caso não concorde são direitos do cliente”, aponta Cordeiro.

3 - Recorrer ao empréstimo como primeira opção

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Nem sempre fazer um empréstimo é a melhor opção para sanar as dívidas

Ao contrário do que muitos pensam, pedir dinheiro emprestado nem sempre vai ser a melhor saída. “Em diversas situações, se a pessoa se organizar e colocar gastos e ganhos no papel, ela pode perceber que dá para sair da inadimplência sem precisar de um empréstimo”, aponta Marcela Kawauti.

Caso seja mesmo necessário, é preciso ter muita atenção antes de contratar o crédito e a representante do SPC explica o porquê: “Quando se está endividado, tudo o que puder fazer para evitar ou baixar os juros deve ser feito”, explica.

Em caso de empréstimo emergencial, aquele que é liberado pelo banco e ultrapassa o limite do cartão de crédito ou cheque especial, é melhor pensar duas vezes antes de aderir. “Essas opções são arriscadas porque as taxas são muito elevadas. Para se ter ideia, em cartões de crédito e cheques especiais há juros que rodam a 300%, enquanto o empréstimo consignado tem taxa de 27%”, diz Kawauti. 

Uma pesquisa recente feita pelo CNDL/SPC Brasil aponta que 40% dos usuários de cheque especial recorrem ao limite extra todos os meses e 20% dos brasileiros utilizaram esse recurso no último ano. A maioria não fez pedido de forma espontânea e 25% usaram dinheiro para pagar contas ou lidar com imprevistos.

4 - Renegociar sem se planejar

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Se não houver planejamento e mudança nas atitudes as dívidas voltam a aparecer

O planejamento financeiro precisa deixar de ser um tabu para o brasileiro que quer ficar no azul. Saber o que é gasto e o que é ganho é o dever de casa que todos precisam estar em dia. Sem isso, as dívidas não vão embora.

Determinar quais são as despesas mensais e a renda ajuda a pensar em estratégias para sair da inadimplência e evitar cair nessa situação novamente.

“Esqueça a preguiça e separe, no campo das dívidas, o que são contas relacionadas ao que você gosta e o que você realmente precisa. É necessário ser criterioso. Na lista do que gosta o ideal é fazer cortes. Precisa ter sangue frio ”, indica a economista-chefe do SPC.

O coordenador do curso de ciências contábeis reconhece que não existe uma receita pronta que ensina como sair das dívidas e explica que a educação financeira deve ser praticada diariamente. “Sem planejamento nada funciona e a probabilidade do nome negativar é muito grande”.

5 - Esconder da família

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Ao envolver todos os membros da família, fica mais fácil encarar as dívidas e se organizar para normalizar a situaçã

Por fim, a economista do SPC lembra que também é preciso envolver a família : “Se não envolver todo mundo, a pessoa fica lutando sozinha. Quando se conta com a ajuda da família, fica mais fácil. Dizer para o filho, por exemplo, que está em situação de dívida e precisa fazer um sacrifício durante um mês, é um caminho”, finaliza.

É o momento de contenção de gastos , lembra Marcela Kawauti. De nada adianta pegar um empréstimo, parcelar a dívida ou pedir um prazo maior ao devedor se as atitudes não mudarem. A dica, nessa situação é ter disciplina.

“Faça uma tabela e separe os gastos por setores , como ‘casa’, ‘estudos’, ‘saúde’ , ‘alimentação’ e ‘locomoção’. Veja o que você pode gastar em cada uma dessas áreas e não ultrapasse o orçamento. Nada de querer comprar uma roupa ou se dar um presente até sair do vermelho”, sugere Cordeiro. 

Com planejamento financeiro, é importante entender o que fez com que o indivíduo chegasse na inadimplência. “Não diagnosticar o motivo pelo qual chegou ao problema é continuar no problema”, reforça Kawauti. 

Seja por falta de controle, impulsividade ou não saber lidar com cartão, é necessário olhar para trás, monitorar os velhos hábitos e agir para não cair novamente no mesmo erro.