Werner Roger
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Werner Roger

Como se diz no jargão popular, “o futebol é uma caixinha de surpresas” . A frase nos faz lembrar da derrota do Brasil para o Uruguai por 2x1 na Copa do Mundo de 1950, deixando 200 mil brasileiros atônitos, e da mais recente (e ainda mais acachapante) para a Alemanha, por 7x1, na Copa de 2014 – quando a surpresa não foi a derrota, mas o placar.

Nesse dia, estávamos em Munique e pudemos verificar in loco a discreta comemoração germânica (que se repetiu depois, quando venceram nossos hermanos argentinos e ficaram com o título mundial).

Mas, para mim, a maior surpresa e a derrota mais sofrida – que me serviu de grande lição – foi aquela que ficou conhecida como Tragédia do Sarriá: a derrota por 3x2 para a Itália em 1982 (para piorar, o empate ainda favorecia o Brasil...), colocando fim ao sonho da conquista do tetracampeonato.

O time, então comandado pelo excelente e saudoso Telê Santana, chegou a ser comparado à melhor seleção que vi jogar – a do tri do México, em 1970. Mas o que tinha esse time de tão especial? Ele simplesmente reuniu três magos: Falcão, o também saudoso Sócrates e Zico.

Mas (e me desculpem a palavra) o maledeto Paolo Rossi acabou com nosso dream team. Il Bambino d’Oro, como era chamado, teve reduzida de três anos para dois sua pena de banimento do futebol por participar de fraude na totobola (loteria esportiva italiana), justamente para participar do mundial (foi o nosso “azar”).

Após passar em branco nas quatro partidas anteriores, Rossi marcou três vezes, e a desacreditada Azurra despachava para casa o Brasil, favorito absoluto, que encantou os fãs do futebol.

A Itália sagrou-se campeã mundial e nem tomou conhecimento, na final, da favorita Alemanha, sua maior rival, aplicando-lhe sonoros 3x0. Nosso carrasco Rossi tornou-se artilheiro da Copa, com seis gols anotados (metade deles aplicados à seleção canarinho numa só partida).

Você viu?

Mas, por que este gestor nos vem lembrar desta (triste) história futebolística?

Ela e sua relação com a “caixinha de surpresas” se aplicam ao mercado acionário neste momento. Reforça nossa tese contrária à prática de market timing (tentar prever o comportamento do mercado) e, também, a estrita observância à disciplina, ainda mais necessária nos momentos de incerteza.

A pandemia não dá trégua ao Brasil, e mesmo assim o lockdown vai ficando para trás. Diante de tantas surpresas (como no futebol) e com a combinação de tantas coincidências (a Itália quase foi eliminada pela seleção de Camarões na primeira fase), um jogador afastado há dois anos do futebol e de participação pífia nos quatro jogos anteriores detona nossa maravilhosa seleção.

Isso para dizer que temos de ser pragmáticos em nossa estratégia, deixando de mudar de rumo a cada nova “quase certeza”. Como lembrou Benjamin Franklin a seu amigo Jean-Baptiste Le Roy por carta, em 1789, certos nesta vida só podem ser considerados a morte e os impostos. Temos de evitar seguir a manada, que aposta sempre no “favorito”, como aconteceu com nosso querido Brasil em 1950 e no fatídico 5 de julho de 1982 (eu, recém-saído de lua de mel, lembro-me bem do gosto amargo que aquele dia deixou na boca).

A lição daquela partida foi que o pragmatismo superou a arte, e que a estratégia defensiva superou o ataque. Algo parecido com isso é o que praticamos no momento: pragmatismo com cautela. O comportamento do câmbio é imprevisível, e ninguém consegue antecipar com confiança como estará em uma semana ou em um mês (e menos ainda daqui a um ano).

Para reforçar o atual estado da conjuntura, cito uma vez mais o excelente livro O Andar do Bêbado, escrito por Leonard Mlodinow, físico, matemático, roteirista da série Star Trek e escritor (ele é coautor do bestseller Uma Nova História do Tempo, com Stephen Hawking, e de Ciência e Espiritualidade, com Deepak Chopra). O livro fala de como nossas vidas e nossos investimentos são submetidos a eventos aleatórios e imprevisíveis. A lição do futebol e a lógica do bêbado nos ensinam que o inesperado está sempre presente.

Para finalizar esta coluna, uma pequena coincidência. Mlodinow venceu o Prêmio de Pesquisa Humboldt, concedido pela Fundação Alexander von Humboldt (1769-1859) a cientistas e estudiosos. A coincidência é que minha formação escolar se deu no colégio nomeado em homenagem a Humboldt, um dos maiores cientistas alemães e mundiais: ele foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista.

Com perfil investigativo semelhante ao de Benjamin Franklin, sua obra-prima foi Kosmos, publicada em cinco volumes de 1845 a 1862. O último deles, póstumo, condensava o conhecimento científico de sua época e sugeria que as leis universais também se aplicam ao aparente caos do mundo terrestre. A meu ver, aplicam-se igualmente ao nosso universo de investimentos: imprevisível, desafiador – autêntica “caixinha de surpresas”.

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