Werner Roger
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Werner Roger

Como já contei algumas vezes sobre a história da minha vida profissional, sou uma combinação de peixe fora d’água, engenheiro agrônomo formado em julho de 1981, portanto há quase 40 anos, um dos poucos gestores de recursos com essa formação acadêmica, imagino, e filho da crise. Vivíamos em 1982 uma das piores recessões do Brasil, com o partido político PT , fundado em 1980 e seu líder Lula , também crias desta recessão. A região do ABC foi berço do partido, onde estavam as principais montadoras de veículos do país, com demissões em massa e greves.

Na época, o banco Lar Brasileiro, Lar Chase, ou Chase Manhattan , suas diversas denominações, estava se protegendo da crise, no Brasil e no mundo, formando “oficiais de crédito” ou trainees, programa de treinamento de 10 meses (verdadeiro MBA), em crédito, com aulas, provas (10 com nota mínima de 7) e exclusões (jubilamento como se diz nas universidades). Portanto, foi nessa crise que para mim surgiu a oportunidade ao ingressar, como agrônomo, no programa de trainee do Chase, recém-casado, desempregado e com filho a caminho.

Da nossa turma de outubro de 1982, 16 trainees, três eram agrônomos, e três trainees (nenhum agrônomo, todos economistas) foram excluídos por não conseguirem as notas mínimas. O treinamento era em inglês com instrutores norte-americanos, exceto nosso professor de contabilidade, brasileiro, também ex-trainee do banco, matéria mais importante, três meses, visava melhorar os padrões de crédito do Chase.

O programa era mundial, mas, no Brasil, o banco vislumbrava o agronegócio como verdadeira salvação da lavoura, onde estava abrindo novas agencias em regiões ligadas ao campo, como, por exemplo, Dourados (MS) e Itumbiara (GO). Por isso a contratação de três agrônomos em cada turma de dezesseis trainees, e abertura das novas agências. Nessas, alocavam os novos oficiais de crédito, ou simplesmente analistas, no meu caso, na linda e aprazível Goiânia.

O Chase se destacou como o principal formador de profissionais de crédito no Brasil, e coincidência, dos grandes bancos americanos, o único que se salvou sozinho sem ajuda do Tio Sam, da crise 2008, tema parte desta coluna.

Credito a isso, seu excelente processo de gestão de crédito e risco, talvez ainda herança daquele extraordinário programa de formação profissional. O Citigroup, por exemplo, quase sucumbiu no início dos anos 90 por exposição a crédito imobiliário e de fato em 2008, pelo mesmo motivo, desta vez resgatado pelo governo.

Como atuei nas duas instituições por um bom tempo, para mim era fragrante a diferença da qualidade e dos processos de crédito. O Chase, claramente orientado por políticas e processos e o Citi, por negócios.

Situação no início da década de 80 muito parecida à atual. Crise, recessão e o agronegócio carregando o Brasil, embora muitas vezes maltratado e ignorado pelos nossos governantes. Assim, revivo a mesma situação.

Recebo muitos pedidos para comentar a atual crise, e o que fazer, tendo em vista minha jornada de quase 40 anos no mercado financeiro, 25 em crédito, e experiência em pelo menos 20 crises.

Só para citar algumas, o próprio Brasil em várias oportunidades (moratória, hiperinflação, planos econômicos frustrados etc.), Mexico, Rússia, Hong Kong, colapso do banco Barings em 1995 (tendo clientes como a rainha e agora viúva Elizabeth II, devido uso de derivativos), 11 de Setembro e subprime em 15 de setembro de 2008 na quebra do tradicional banco Lehman Brothers.

Aliás, o que se passou na quebra do Barings e Lehman e suas semelhanças, será tema de uma futura coluna, pois a história se repete continuamente e vivemos estas situações. Mas o mercado não aprende. O mercado imobiliário é também fonte de muitas crises e quebras, especialmente no Brasil. Cuidado.

Dessa forma, transcrevemos nossa carta de outubro de 2008, direcionada a investidores estrangeiros como apoio à nossa viagem de duas semanas na Europa, quando buscávamos captar investimentos em uma época que se abriu uma extraordinária janela de oportunidade.

Havíamos visitado em Nova Iorque, aquele que seria nosso maior investidor, o maior fundo soberano do mundo, Norges Bank, em julho, antes mesmo da eclosão da crise, após a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro, data em que pediu falência.

De fato, ao contrário dos demais investidores europeus, o fundo soberano nos escolheu como primeira gestora na América Latina em dezembro de 2008 e surfou uma das maiores ondas de oportunidades para investir em bolsas de valores no Brasil, notadamente na estratégia small caps. Embora o momento seja diferente, a causa de a crise ter origem na covid , de natureza sanitária, nos parece está aberta mais uma janela de oportunidade para investidores de longo prazo.

O Brasil está passando por período de reformas econômicas , embora mais lentas e aquém do necessário ou prometidas. Mas há a possibilidade de o capital estrangeiro voltar, com grande força, como já ensaiou no ano passado e no início deste ano, abortado pelo desconforto de troca do presidente da Petrobras.

A volta deverá ocorrer à medida que as reformas saírem do papel e os resultados das medidas econômicas aparecerem, além das privatizações, ainda tímidas. A reforma da Previdência em 2019 gerou algum otimismo, mas a covid e questões políticas minaram o progresso das mesmas, mas digno de nota o novo marco regulatório do gás que tramitava, pasmem prezados leitores, desde 2013, foi finalmente sancionada há poucos dias.

O crescimento do PIB é um importante catalisador para a volta do capital estrangeiro, mas as reformas e o imbróglio político estão na mira dos investidores.

Por trás do pânico, surge uma oportunidade – Outubro de 2008

Crise, palavra mais ouvida ultimamente e que afeta todos que possuem investimentos no mercado financeiro . A palavra crise origina-se do grego krisis (decisão) / krinein (decidir). De acordo com o Dicionário Aurélio, o significado da palavra seria: "estado de dúvida e incerteza; momento perigoso ou decisivo; ponto de transição entre uma época de prosperidade e outra de depressão, ou vice-versa; fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos fatos, das ideias." Creio que todas estas definições para a palavra crise se aplicam ao atual momento do mercado financeiro. É hora de tomarmos decisões importantes sobre nossos investimentos.

Comentário atual: estávamos num momento de crise em 2008 e, atualmente, também desde o início da pandemia há um ano, além das questões econômicas, com inflação ascendente, orçamento, ruídos políticos, troca de ministros e presidentes das três maiores estatais do país.

Fazendo uso da palavra crise neste texto, voltamos um pouco na história para verificar os efeitos das crises na economia do Brasil e nas bolsas de valores. Provocamos os leitores a refletirem sobre o que se passou na economia do país nos últimos 28 anos e pensarem a respeito de seus investimentos visando o longo prazo. É este um momento de proteção ou de oportunidade de multiplicação? Esta é a nossa pergunta.

Comentário atual: 28 anos citado acima, na ótica de 2008 quando redigimos a Carta. Mas a pergunta permanece, mas devemos olhar o que se passou desde 2008 para hoje. Em dólares, o índice Bovespa atingiu o pico em dólares 30 de maio de 2008, quando alcançou 44.551 pontos, 75.592 nominal; em 27/abril/21, a bolsa alcançou 119.388 pontos, 21.896 convertida em dólar pontos. Ou seja, precisa subir 103,5% para voltar ao topo histórico em dólares, sob a ótica do estrangeiro.

Na década de 70, época que engloba o período conhecido como Milagre Econômico (1968-1973), o Brasil apresentou taxas de crescimento comparáveis àquelas da China atual. Crescimento de 8,78% médio anual do PIB entre 1971 e 1980. Em 1980, a lista das dez maiores empresas negociadas na Bovespa tinha, em conjunto, valor de mercado de US$ 9,7 bilhões, com o Banco do Brasil à frente com US$ 2,3 bilhões. Desta lista, faziam parte também as estatais Petrobras (2ª maior, com valor de US$ 2,2 bilhões), Eletrobras (3ª), CESP (4ª), CVRD (7ª) e Light (9ª), acompanhadas de dois bancos privados, Bradesco (5ª) e Itaú (6ª), e duas multinacionais ligadas ao setor de consumo, Souza Cruz (8ª) e Pirelli (10ª). A Brahma, atual AMBEV, era a 15ª maior, com valor de mercado de US$ 170 milhões (US$ 73 bilhões atualmente), multiplicando seu valor em 429 vezes, acredite quem quiser, mas é verdade.

Comentário atual: a lista das dez maiores possuem valor de R$1,7 trilhões, ou US$ 310 bilhões. A empresa de maior valor atualmente é a Vale, alcançando US$ 103 bilhões. Entre as dez maiores por valor de mercado, três são bancos (Itaú Unibanco, Bradesco e Santander), três são empresas ligadas a commodities (Petrobras, Suzano e Vale), além de consumo (Ambev), holding financeira (Itausa), segmento financeiro (B3), varejo (Magazine Luiza), industrial (WEG). Ou seja, metade (5), ligadas ao setor financeiro.

Se considerarmos uma carteira hipotética, abrigando Banco do Brasil, Petrobras , CVRD, Eletrobras , Bradesco, Itaú e Souza Cruz, com 20% de alocação individual para as três primeiras e 10% para as demais e um investimento de US$ 10 milhões no último pregão de 1980, esta carteira teria um valor atual de mercado de US$ 560 milhões (presumindo que as ações encerrem o ano de 2008 ao preço de 30 de setembro de 2008), com ganho anual composto de 15,5% ao final de 28 anos. Se estimarmos dividendos anuais de 3% não reinvestidos na carteira, o ganho anual atinge 18,5% sobre a moeda norte-americana. Devemos ainda considerar que partimos de um ponto que pode ser considerado como pico, pois foi o último ano em que o PIB cresceu mais do que 8%.

Nada mal para uma poupança de longo prazo com vistas a uma aposentadoria. Se ajustarmos o valor do dólar pela inflação norte-americana (CPI) de 154% no período, ou 3,4% ao ano, ainda assim teríamos um ganho bastante razoável, já ajustado pelo poder de compra daquela moeda. Individualmente, as ações tiveram a seguinte valorização anual em dólar, excluindo os dividendos: CVRD 20,8%, Itaú 17,9%, Petrobras 16,9%, Bradesco 16,0%, Souza Cruz 10,4% Banco do Brasil 9,7% e Eletrobras 9,1%. Citamos ainda a AMBEV/Brahma, com ganho anual de 20,7%. Podemos considerar ser esse um bom retorno para um país que passou por tantas crises, sendo que metade deste período antecedeu o Plano Real e a outra metade corresponde ao período após a estabilização da economia.

Observando Wall Street em 1980, entre as dez maiores empresas listadas na NYSE, sete eram ligadas à indústria de petróleo, acompanhadas pela IBM (com valor de US$ 40 bilhões na época e US$ 160 bilhões atualmente), ATT (3ª) e G&E (10ª). Da décima primeira à vigésima posição, encontramos mais sete empresas ligadas ao petróleo, além da GM, Eastman Kodak e Union Pacific. A Exxon era a 2ª maior empresa em valor de mercado, com US$ 37 bilhões (US$ 413 bilhões atualmente), com as 50 maiores empresas totalizando um valor de mercado de US$ 498 bilhões. O maior banco, pelo critério de valor de mercado, era o BankAmerica (único da lista das 50 maiores empresas), ocupando a modesta 42ª posição, com valor de US$ 4,7 bilhões (US$ 161 bilhões atual). A gigante IBM representava 17% do PIB do Brasil da época (US$ 235 bilhões).

Na NYSE, o setor petrolífero era destacado como principal, com o petróleo negociado a US$ 32/barril. No Brasil, os bancos, o setor elétrico, o de consumo, além de Petrobras e a CVRD, dominavam o mercado de acordo com o critério de valor de mercado; nada muito diferente de hoje.

Comentário atual: das dez maiores empresas por valor de mercado nas bolsas de valores norte americanas, cinco estão ligadas à tecnologia (Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet/Google, Facebook), complementadas por Berkshire, JP Morgan Chase, J&J, Tesla e Visa. Ou seja, três ligadas ao setor financeiro, uma de consumo e uma mista de indústria e tecnologia como a Tesla pode ser classificada. A maior é a Apple, com valor de mercado de US$ 2,2 trilhões, e a menor é a J&J, com US$ 425 bilhões. A Apple sozinha representa 1,3x a soma das dez maiores empresas brasileiras em valor de mercado, e a J&J, décima da lista, 1,5 vezes mais que a soma das nossas dez maiores empresas.

Você viu?

Em 1980, o Brasil exportava US$ 20 bilhões e importava US$ 23 bilhões, dos quais US$ 9,4 bilhões relativos a petróleo. A venda de veículos beirava 1,2 milhões de unidades (100 mil caminhões) e a Petrobras produzia 180 mil barris de petróleo por dia. Pano de fundo: Prime Rate de 21,5% nos EUA (inflação de 12% no varejo) e Libor de 16,4%. Em 2008, o Brasil exportará mais de US$ 200 bilhões, a venda de veículos deverá superar 3 milhões de unidades e a produção de petróleo está próxima de 2 milhões de barris/dia, com o país se aproximando da autossuficiência. Ainda em 1980, a desvalorização do Cruzeiro, moeda da época, atingiu 96%, ante 110% da inflação medida pelo IGP-DI. Os investimentos em ORTNs (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional) auferiram retorno de 50%, trazendo pesadas perdas aqueles que investiram em renda fixa .

Mergulhamos na década de 80, também conhecida como Década Perdida. De 1981 a 1983, o PIB caiu cumulativamente 4,2%. A inflação anual média de 43% da década de 70 (23% de média nos cinco primeiros anos e 63% nos últimos cinco, com 110% em 1980) passou para 211% em 1983, ou seja, inflação elevada com contração do PIB, mal de cunho econômico conhecido como estagflação, que assolou o mundo no início da década. Este cenário embutia ainda elevada taxa de desemprego, determinante para o fortalecimento dos movimentos sindicais na região do ABC, onde se concentrava a indústria automobilística. Este foi o berço do partido político PT e do presidente Lula no movimento sindical (comentado no preâmbulo).

Após três anos de recessão na economia brasileira, em 1983 havia 506 companhias negociadas na Bovespa, com valor de mercado de US$ 26 bilhões. Curiosamente, o índice Bovespa teve um ganho acumulado de 2.908% entre 1981 e 1983, comparado a 1.045% do IGP-DI e 993% de desvalorização cambial, com o índice Bovespa proporcionando um ganho em dólar de 175% neste período de recessão e crise.

As ORTNs proporcionaram um retorno acumulado de apenas 673%. A produção automobilística caiu para 900 mil unidades, com destaque negativo para a produção de 35 mil caminhões, ante 102 mil em 1980, sendo este um importante termômetro do nível de atividade econômica. A produção de tratores caiu de 70 mil para 36 mil unidades.

Em 1985, houve a eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência da república em disputa com Paulo Maluf. Com a morte de Tancredo Neves antes de sua posse, o vice-presidente José Sarney assumiu o governo e implantou o Plano Cruzado, em fevereiro de 1986, que naufragou nove meses depois, quando a inflação atingiu 7,7% no mês de dezembro, ante 6,3% acumulada de março a novembro.

Mais uma vez, esse plano nos ensinou os efeitos da tentativa de se debelar a inflação através do controle de preços e não de suas causas, sendo a principal delas as contas públicas desajustadas, além da indexação geral da economia. Podemos dizer que esta foi a segunda crise da década com efeito devastador em várias empresas que sucumbiram nos anos seguintes.

Apesar disso, entre 1983 e 1986, o número de empresas negociadas na Bovespa passou de 506 para 592, com um valor de mercado que atingiu US$ 42 bilhões. O índice Bovespa subiu 3.739% em três anos, comparado a 2.794% do IGP-DI, 2.137% das ORTNs e 2.431% da desvalorização cambial.

Após outras tentativas infrutíferas de se controlar a inflação e estabilizar a economia através de planos econômicos, como os Planos Bresser e Verão, tivemos a primeira eleição direta para presidente da república após o golpe militar de 1964, elegendo-se Fernando Collor de Mello em 1989, candidato filiado a um obscuro partido político (PRN).

O novo governo implementou novas medidas econômicas conhecidas como Plano Collor I (houve depois nova tentativa, no início de 1999, com o Plano Collor II), cuja maior lembrança talvez tenha sido o confisco da poupança. No entanto, esse plano econômico teve, como mérito, a abertura da economia para produtos importados e o início das privatizações através do Programa Nacional de Desestatização. Houve novo fracasso da política econômica e, em 2 de outubro de 1992, o impeachment do presidente, após ele ter sido acusado de corrupção.

Assume então o poder o vice-presidente Itamar Franco, que, em 1993, se defronta com nova crise, desta vez vinda do México. Ainda sob seu governo, o então ministro da Fazenda, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, implementou um novo plano econômico, o Real, desta vez bem-sucedido. O Real se tornou o principal cabo eleitoral que o levou à presidência da República na eleição de 1994.

Reeleito em 1998, FHC manteve-se no poder até 2002. Entre 1994 e 2001, duas novas crises vieram também de fora, a asiática, em 1997, e a russa, em 1998, a que se somou os ataques terroristas de 11 de setembro, em 2001. Em janeiro de 1999, nova crise, com forte ataque contra a moeda brasileira culminando com a desvalorização cambial de 30% e a adoção do câmbio flutuante pelo Banco Central.

Já estamos em 2002, e agora uma nova crise, com intensa fuga de capitais, forte desvalorização da moeda brasileira e economistas estrangeiros que prognosticavam a quebra do país. A razão? O temor de que o candidato Lula se elegesse como sucessor do presidente FHC .

Os Cavaleiros do Apocalipse quebraram a cara e, desde então, o país vem apresentando processo gradativo de recuperação econômica e social, com o presidente Lula alcançando índices de popularidade invejáveis que o levaram à reeleição em 2006, culminando com duas agências classificadoras de risco elevando o Brasil ao tão cobiçado Grau de Investimento em 2008. Ponto final nesta retrospectiva de 28 anos. Passaram-se 14 anos desde o Plano Real e seus efeitos ainda repercutem na economia, com o Governo Lula mantendo os fundamentos do Plano Real, adotando, porém, novas ações no sentido de melhorar a distribuição de renda no país.

Mas o que queremos abordar neste texto são os efeitos das crises e planos econômicos fracassados sobre as empresas e as oportunidades de investimento que surgem. Pois bem, das 101 empresas que compunham o índice Bovespa em 1983, após 25 anos, apenas 46 continuam listadas, sendo que algumas delas transformaram-se em conglomerados poderosos como a Gerdau (ex-Cosígua), Ambev (ex-Brahma) e Braskem (ex-Copene).

Algumas empresas importantes da época faliram, como Engesa, Mesbla, Banco Nacional, Sharp e Varig. Outras, consideradas como de "segunda linha nobre", foram adquiridas e tiveram seu capital fechado, como Acesita e Belgo Mineira (Arcelor); Caemi e Samitri (CVRD); Ceval, Manah e Moinho Santista (Bunge). Outras empresas importantes também tiveram seu capital fechado, como Cimento Itaú, Ericsson, Pirelli, Vidraria Santa Marina e White Martins.

Mais interessante ainda é observar que, das 20 ações mais negociadas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1985, ano que antecedeu o Plano Cruzado, restaram menos da metade: Vale (1.), Petrobras (2.), Paranapanema (3.), Banco do Brasil (4.), Braskem (6.), Banco Itaú (15.), Aracruz (16.), Unipar (19.) e Aços Villares (20.). Entre as dez mais negociadas, merecem destaque as falidas Sharp (5.), Varig (7.) e Trorion (10a). Se ampliarmos a relação das empresas mais negociadas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em 1985, para 50, restou exatamente metade, 25 empresas.

Comentário atual: entre 2008 e 2020, a Aracruz tornou-se parte da Suzano, a Villares foi adquirida pela Gerdau e a Paranapanema tornou-se uma small caps e em péssima situação financeira, enquanto Braskem (antiga Copene e fusão de várias empresas petroquímicas) encontra-se à venda e campeã das práticas contrárias aos princípios de ESG.

Após sucessivos planos econômicos objetivando a estabilização da economia e de crises de caráter local e internacional, o que se observou foi um processo natural de depuração. Empresas mal geridas e protegidas por uma economia fechada ou subsídios simplesmente desapareceram.

Destacamos aqui o setor de informática, que teve seu momento de glória nos anos 80, citando alguns nomes como ABC XTAL, Edisa, Elebra, Flexdisk, Matec, Modata, Microlab, Microtec, Itautec, Polymax, Racimec e Sid Informática, entre outros, restando apenas a Itautec, que contou com o suporte financeiro e comercial do Grupo Itaúsa. Alguns bancos brasileiros de grande porte, como Bamerindus, Comind, Econômico e Nacional, e outros de menor porte, como Auxiliar, Maisonnave e Sul-Brasileiro, também sucumbiram.

A história e a análise das empresas nos ensinam que, nas crises, empresas bem geridas e com sólida estrutura de capital foram vencedoras e aproveitaram a oportunidade para ampliar ainda mais sua presença no mercado.

Empresas mal geridas, que dependiam de subsídios ou que eram protegidas pela economia fechada, situação que se manteve até o final dos anos 80, desapareceram. Outro exemplo é o setor de transportes aéreos, então representado pela Transbrasil, TAM, Vasp e Varig, restando apenas a TAM, que cresceu, inicialmente, ao ocupar o nicho específico de mercado de voos regionais, além de contar com a competência do saudoso Comandante Rolim. A incompetência, a competição nas linhas internacionais e a ingestão do governo no setor foram fatais.

Comentário atual: TAM, ou agora LATAM também sucumbiu e recorreu a concordata no exterior, cometendo os mesmos erros das quatro empresas mencionadas que faliram, deixando um rastro de prejuízo aos funcionários, fundo de pensão AERUS, bancos e credores em geral. Setor aéreo no Brasil é apenas uma questão de quando irá sucumbir. Extremamente vulnerável ao câmbio, crédito e competição. Não é só no Brasil. As europeias ainda contaram e contam com suporte dos governos.

Remetendo ao início deste texto, assim como em nossa vida pessoal, é na crise que temos que tomar as decisões mais importantes em relação aos nossos investimentos . A história e os dados aqui relatados nos ensinam que, mesmo após sucessivas crises e com o Brasil tendo sua economia estabilizada apenas na metade dos últimos 28 anos, investimentos em empresas sólidas trouxeram ganhos substanciais no longo prazo. Investimentos em momento de euforia, como aqueles feitos em empresas que recentemente abriram seu capital, em 2006 e 2007, podem ser desastrosos para o investidor incauto.

Essas empresas, de forma geral, foram negociadas com múltiplos de mercado muito acima de empresas tradicionais que se provaram vencedoras nas diversas crises, enquanto algumas das novatas simplesmente venderam planos de negócios.

Comentário atual: a euforia do mercado de IPOs nos remete ao passado. IPOs com valores, ou melhor, preços muito acima de empresas listadas e conhecidas, sem qualquer relação ao valor intrínseco e sobrevalorizando setores glamorosos, como supostas tecnológicas, maior parte provedores de e-commerce. Investidores incentivados por recomendações generosas das corretoras ligadas a bancos de investimentos com relações corporativas nas empresas levam incautos e neófitos a seguirem cegamente tais recomendações. Este ambiente se repete sempre que o mercado perde a racionalidade, como na recente “onda” de IPOs. Nossa lição, em IPO não existe “free lunch”.

Sumarizando:

  • O crescimento dos anos 70, produzido de forma artificial, deixou-nos, como legado, a maior dívida externa do mundo, duas moratórias, o maior déficit em conta corrente, um dos maiores déficits públicos em relação ao PIB e uma das maiores inflações do mundo no decorrer de quase quinze anos seguintes;
  • O Brasil provou no longo prazo que é maior que a crise;
  • Em cada crise surgem oportunidades de comprar ativos a preços atraentes;
  • Ao abraçar as oportunidades surgidas nas crises, empresas sólidas transformaram-se em grandes conglomerados, enquanto empresas mal geridas desapareceram;
  • Uma carteira de ações com empresas sólidas traz retorno consistente no longo prazo;
  • Movimentos de manada – venda na crise e compra na euforia –, trazem resultados inversos ao esperado;
  • Investimentos de renda fixa em emissores privados (bancos e empresas não financeiras) e em títulos públicos estão sujeitos a risco de contraparte (quebra do emissor) e rendimentos abaixo da inflação, conforme nos ensina a história econômica do Brasil e a atual crise financeira nos Estados Unidos, repercutindo-se em quase todos os mercados financeiros;
  • O Brasil possui estabilidade política e condições econômicas favoráveis jamais vistas na história recente, apesar de uma das maiores taxas de juros reais do mundo. O país caminha ainda num processo gradativo de melhora na distribuição de renda, possui autossuficiência energética e é um dos poucos países com possibilidade de aumentar a oferta de alimentos e biocombustíveis, sem falar do potencial da indústria petrolífera. Ainda temos, no entanto, inúmeros problemas e deficiências. O momento é de crise financeira mundial, mas acreditamos que surge mais uma janela de oportunidades de se ganhar com a crise e cabe a cada um de nós tomar as decisões.

Comentário atual: a racionalidade econômica que acompanhou o Brasil até cerca de 2011 foi substituída pela “Nova Matriz Econômica”, plantada quando Dilma Rousseff e Guido Mantega tornaram-se ministros durante o governo Lula, mas que frutificou após a eleição de Dilma à presidência, em 2011, e que deixou um legado de grandes problemas macroeconômicos e de desequilíbrio nas contas públicas. Na década que começou em 2010, o crescimento médio do PIB foi de apenas 1,39%, o pior desde 1990. O atual governo, principalmente através do ministro Guedes, busca corrigir o desconcerto causado pela falta de reformas econômicas de vulto desde 2011, mas o progresso é moroso, e de certa forma amarrado por interesses políticos contrários como observado quando Rodrigo Maia estava a frente da Câmara dos Deputados, e obviamente a oposição. O momento atual é de crise, mas a janela de oportunidade está. Esperamos que os frutos de reformas, e que estas se acelerem, reestabeleçam o potencial de crescimento do Brasil. As reformas, no entanto, não estão apenas sob o comando do ministro Guedes, mas devem passar pelo crivo Legislativo e pelo Judiciário, exemplificando que, no estado de direito, o Executivo não pode tudo, devendo apreender a navegar pela política brasileira. Ao lado das reformas, como tributária e administrativa, as privatizações como em infraestrutura e talvez Eletrobras, além de um novo marco regulatório no setor elétrico, como observado no gás natural, removam gargalos que embutem o Custo Brasil, caso contrário, o país jamais atingirá o crescimento desejado e o potencial existente.

SPQR (Senātus Populusque Rōmānus)

Se me permitem uma analogia, um dos melhores livros que li nos últimos anos tem o título SPQR – da historiadora Mary Beard, professora em Cambridge (mesma universidade de Keynes) –, que muito agradavelmente nos conta a história de Roma. SPQR (Senātus Populusque Rōmānus) significa “O Senado e o Povo de Roma”, frase que Beard representa o poder do povo para o povo, ideia que inspirou quase todas as nações do mundo. No Brasil, os três poderes possuem a chave para a transformação. No campo econômico, o poder Executivo decifrou a fechadura e desenhou a chave. O Legislativo deverá autorizar a introdução da chave na fechadura e, o Judiciário, fiscalizar o correto uso. Podemos chamar, por analogia, este momento como TPPB – Três Poderes e o Povo Brasileiro.

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