
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou nesta terça-feira (19), durante uma audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, uma percepção que já vinha sendo defendida aqui na coluna: a de que o Pix não está acabando com o mercado de cartões no Brasil; muito pelo contrário.
"O Pix incluiu pessoas que estavam à margem do sistema [financeiro], que passaram a ter cartão de crédito. Pessoas imaginam que tem rivalidade entre o Pix e o cartão de crédito, mas a gente observa que não, que o cartão de crédito cresceu com a bancarização”, afirmou Galípolo.
A suposta rivalidade ganhou ganhou dimensão internacional no ano passado, após o governo dos Estados Unidos criticar o Pix em relatórios comerciais recentes. Documentos ligados ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) afirmam que o Banco Central brasileiro poderia estar favorecendo um sistema estatal de pagamentos em detrimento de empresas americanas do setor, como Visa e Mastercard.
A investigação reacendeu temores de possíveis retaliações comerciais contra o Brasil e transformou o Pix em um tema que ultrapassa o setor financeiro, envolvendo também soberania digital e disputa por infraestrutura de pagamentos.
Os dados do próprio Banco Central ajudam a sustentar essa leitura.
Desde o lançamento do Pix, no quarto trimestre de 2020, o volume financeiro movimentado por cartões de crédito no Brasil saltou de R$ 332,9 bilhões para R$ 824,7 bilhões no fim de 2025.
No mesmo período, o Pix saiu de R$ 149,8 bilhões para mais de R$ 10,2 trilhões movimentados, consolidando-se como a principal infraestrutura de pagamentos instantâneos do país.
Enquanto o cartão de crédito seguiu em expansão, o cartão de débito permaneceu praticamente estável ao longo dos últimos anos, indicando que o Pix passou a disputar com mais força justamente os pagamentos imediatos e à vista.
As modalidades que mais foram impactadas, e praticamente desapareceram, foram o TED e o DOC.
Por outro lado, o cheque continou após a chegada do Pix. No fim de 2020, ele ainda movimentava R$ 278,3 bilhões por trimestre. Em 2025, mesmo após a explosão dos pagamentos instantâneos, o volume seguia acima de R$ 163 bilhões.
Por que o cartão de crédito ainda continua relevante
Apesar da expansão do Pix, algumas das principais vantagens competitivas dos cartões de crédito continuam difíceis de substituir.
O parcelamento sem juros, por exemplo, segue sendo uma ferramenta amplamente utilizada pelos brasileiros, especialmente em compras de maior valor.
Em muitos casos, consumidores preferem dividir pagamentos enquanto mantêm o dinheiro aplicado em produtos conservadores, como CDBs, aproveitando o rendimento ao longo dos meses, como já ensinamos aqui na coluna.
Além disso, o ecossistema de benefícios dos cartões permanece relevante em um mercado cada vez mais competitivo.
Programas de pontos, milhas, cashback, acesso a salas VIP e seguros agregados continuam funcionando como incentivo para concentrar gastos no crédito, principalmente entre consumidores mais familiarizados com estratégias de acúmulo e fidelidade.
Nesse cenário, o Pix acabou assumindo um papel complementar dentro da rotina financeira, enquanto os cartões preservaram funções ligadas a crédito, conveniência e recompensa.