
O avanço do Pix já entrou no debate público, inclusive com contornos políticos, ao colocar frente a frente um sistema doméstico e as grandes bandeiras internacionais de cartão. Dados do Banco Central ajudam a dimensionar esse movimento.
No fim de 2025, o Pix movimentou mais de R$ 10 trilhões em um único trimestre. O cartão de crédito ficou na casa dos R$ 800 bilhões. O débito, perto de R$ 250 bilhões — praticamente no mesmo nível de anos atrás.
O domínio do Pix ocorreu nos últimos anos sobretudo em relação ao cartão de débito devido às similaridades; principalmente, o fato de o pagamento ser à vista e a liquidação ser imediata. Ambos também não têm custo para o consumidor.
O crédito segue relevante por outro motivo: ele carrega prazo, parcelamento sem juros e organização de fluxo.
Os números do BC mostram que ele também continua crescendo. O volume movimentado pelos cartões de crédito saiu de cerca de R$ 330 bilhões por trimestre no fim de 2020 para mais de R$ 800 bilhões no fim de 2025. É um avanço relevante, ainda que em uma escala muito inferior à do Pix.
No uso cotidiano, isso fica mais claro do que parece nos números. O Pix funciona bem, mas ainda traz pequenas fricções, especialmente em pagamentos presenciais simples.
QR code, confirmação, espera… A experiência evoluiu, mas não é homogênea.
Há tentativas de reduzir isso. A recente integração do Pix à Samsung Wallet aponta nessa direção, aproximando a dinâmica do que hoje o cartão resolve com um toque. Ainda assim, é um movimento em construção.
Com o básico resolvido pelo Pix, o cartão de crédito começa a se apoiar em outro território.
Emissores e bandeiras miram alta renda

O cartão deixa de ser apenas meio de pagamento e passa a ser desenhado como um produto de lifestyle financeiro.
Pontos, milhas, benefícios, seguros, salas VIP em aeroportos, concierge…
Esse deslocamento vem acompanhado de outra mudança: a disputa por quem continua usando o cartão como instrumento principal. O público de alta renda, mais fiel ao crédito, passa a ser cada vez mais relevante e também mais disputado por emissores e bandeiras.
No ano passado, Visa e Mastercard lançaram novos segmentos (Infinite Privilege e World Legend, respectivamente), voltados a um público cuja fatura passa dos R$ 100 mil por mês.
O Bradesco acaba de lançar cartões co-branded em parceria com a United Airlines e a rede hoteleira Marriott, em um claro aceno aos clientes ricos que gostam de viagens.
O que se desenha é uma reorganização do sistema: o Pix se consolida no cotidiano, o débito perde função e o crédito se desloca para um território de experiências, benefícios e acesso cada vez mais associado a um recorte específico de clientes.