Homenagens ao militar iraniano Qasen Soleimani morto em uma operação dos Estados Unidos
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Homenagens ao militar iraniano Qasen Soleimani morto em uma operação dos Estados Unidos

É impressionante constatar como ainda sobrevivem no mundo pessoas que insistem em
analisar os fatos atuais com os olhos do passado — e que, ao agir dessa maneira, sempre
procuram puxar as sardinhas dos acontecimentos do presente para a brasa que aquece
seus pontos de vista anacrônicos.

É o que se assiste agora no Brasil, no rescaldo do ataque americano que matou o general iraniano Qasen Soleimani em Bagdá, capital do Iraque, na sexta-feira da semana passada e da reação iraniana — que atacou sem deixar vítimas duas bases militares americanas no Iraque, na madrugada desta quarta-feira.

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 Com os olhos do presente, o atual conflito é muito menor do que se tentou pintar nos momentos iniciais e suas consequências serão pífias. E que tanto um lado quanto o outro parecem mais interessados em colher benefícios internos de suas ações do que em dar início a um confronto prolongado, de consequências imprevisíveis.

Repressão violenta

Presidente norte-americano Donald Trump  busca recuperar prestígio
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Presidente norte-americano Donald Trump busca recuperar prestígio

De olho nas eleições que acontecerão em seu país no final deste, o presidente Donald Trump parece mais interessado em recuperar seu prestígio , abalado pela abertura de um processo de impeachment contra ele.

O processo já passou pela Câmara e será agora votado pelo Senado. Para tentar desviar a atenção de seus problemas internos , é possível que Trump tenha se valido do mesmo recurso para o qual seus antecessores apelaram no passado recente.

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 E, assim, foi buscar no Oriente Médio um fato capaz de lhe render prestígio dentro de casa. Se já funcionou para George W. Bush, para Bill Clinton e para Barak Obama, pode muito bem funcionar para ele?

Pelo lado do Irã , a motivação, guardadas as devidas proporções, é parecida com aquela que levou o ditador argentino Leopoldo Galtieri a desafiar a Inglaterra e empurrar seu país para a Guerra das Malvinas em 1982.

Assim como a ditadura argentina se sentia naquele momento pressionada pelo fracasso da economia sob seu comando, o Irã vive atualmente uma crise política interna de grandes proporções.

Pela primeira vez desde a revolução islâmica de 1979, o regime dos aiatolás vinha sendo desafiado por manifestações de massa. A repressão violenta que resultou na morte de mais de 1,5 iraquianos conteve as manifestações, mas não aliviou a tensão.

Condenação do terrorismo

Funeral de Soleimani reuniu milhares de pessoas
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Funeral de Soleimani reuniu milhares de pessoas

É pouco provável que a morte de Soleimani tivesse provocado a mesma reação caso
tivesse sido causada por um entre as centenas de inimigos internos que o general
acumulou ao longo de sua ascensão.

Próximo dos aiatolás que governam o Irã desde 1979, ele era tão general quanto o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era capitão.

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 Nunca teve formação militar regular — era um comandante de milícias — e conquistou a patente em razão dos serviços prestados na repressão aos adversários do regime e no apoio aos grupos terroristas que atuavam em outros países em sintonia com os interesses do Irã.

O que houve, em resumo, foi muito simples: a embaixada americana no Iraque foi invadida por manifestantes no dia 31de dezembro e tudo indica que o Irã estava por trás das ações.

Em resposta, os Estados Unidos promoveram o ataque que matou Soleimani e o Irã reagiu com seus mísseis de baixíssima precisão. De 22 disparados, apenas seis acertaram o alvo.

As imagens do funeral de Soleimani foram as mais impressionantes que esse episódio produziu mas, tirando as cenas dramáticas e as mortes de dezenas de pessoas pisoteadas pela multidão, pouco restará desse episódio.

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 Nenhum país — a não ser Israel e Iraque , que são partes interessadas nessa disputa — se posicionou de forma mais eloquente a favor de um lado ou do outro. No geral, as reações oscilaram entre a indiferença, a condenação do terrorismo e o apelo a uma solução negociada.

Navios Iranianos

Ministro Dias Toffolli solucionou impasse sobre navios iranianos
STF/Divulgação
Ministro Dias Toffolli solucionou impasse sobre navios iranianos

No caso específico do Brasil , que já estava dentro do conflito entre os Estados Unidos e o Iraque mesmo antes dos acontecimentos mais recentes, o Itamaraty se limitou a soltar uma nota genérica que, como era esperado, deixou clara a simpatia do governo de Jair Bolsonaro pela posição das autoridades americanas.

O Irã reagiu e convocou a encarregada de negócios do Brasil em Teerã, Maria Cristina Lopes, para conversar sobre o assunto. Foi o suficiente para que os analistas de plantão passassem a antever as consequências funestas da posição brasileira: o Irã é, além de um grande produtor de petróleo, um cliente fiel do agronegócio brasileiro .

O envolvimento do Brasil com o conflito teve início em meados de 2019. Dois navios de bandeira iraquiana, o Termeh e o Bavard, ficaram quase dois meses fundeados no porto de Paranaguá, sem combustível para voltar para casa, porque a Petrobras se recusou a encher seus tanques para a viagem de volta.

A estatal do petróleo alegava que, ao abastecer as embarcações, poderia ser incluída pelos Estados Unidos na lista das empresas que desrespeitam o embargo comercial imposto ao Irã.

No final, depois de uma liminar do ministro Dias Toffoli , os navios foram reabastecidos e seguiram seu caminho com uma carga somada de quase 100.000 toneladas de milho brasileiro.

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Na época da confusão, houve quem dissesse que o Irã poderia suspender a importação de milho brasileiro, o que traria prejuízos ao agronegócio brasileiro. Isso não aconteceu naquela época e não acontecerá agora.

Por uma única razão: além da brasileira, a única lavoura do mundo em condições de produzir milho na quantidade que o Irã necessita para alimentar sua população é a dos Estados Unidos.

Só quem imagina que Donald Trump autorizaria negócios de seus agricultores com o Irã é capaz de imaginar o país dos aiatolás rompendo relações com o agronegócio brasileiro.

Choque de 1973

Quem previu um aumento exorbitante no preço internacional do petróleo se equivocou
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Quem previu um aumento exorbitante no preço internacional do petróleo se equivocou

O que se vê na medida em que o mundo percebe a real dimensão do conflito é a de que nenhuma das profecias catastrofistas feitas a partir de sexta-feira se realizará. Ou, caso
se realize, será motivada por outros fatores, não pela morte de Soleimani.

Assim que foi anunciada a morte do general começaram a surgir previsões que — por se basearem mais no desejo de quem as fez do que na realidade dos fatos — caíram no vazio.

A primeira delas alertava para o risco de uma elevação súbita no preço internacional do petróleo . Isso não aconteceu. A cotação do barril, que era de US$ 66,11 na véspera do
ataque e fechou a US$ 68,37 (uma alta de 3,31%) depois da morte de Soleimani.

Já estava em queda na terça-feira, cotado a US$ 68,05 no fechamento do mercado. Deu um salto na abertura do mercado no dia seguinte para voltar a cair em seguida e passar a ser negociado abaixo de US$ 66 — numa cotação inferior à que vigorava antes do ataque americano.

É difícil para as pessoas que se recusam a aceitar o fim da Guerra Fria aceitar que o cenário de hoje não é o mesmo de 1973, quando os produtores do Oriente Médio passaram a utilizar o petróleo como arma política.

No final daquele ano, os países exportadores , de uma vez só, puxaram o preço do barril de US$ 2,90 para US$ 11,65 — um aumento de pouco mais de 400% de um dia para o outro.

O pretexto para a medida foi o apoio dos Estados Unidos a Israel na guerra do Yom Kippur , que teve início do dia 6 de outubro daquele ano, em pleno feriado religioso judaico do Dia do Perdão.

Fontes alternativas

Sucesso do etanol ajudou o Brasil a se tornar autossuficiente em combustível fóssil
Unica/Divulgação
Sucesso do etanol ajudou o Brasil a se tornar autossuficiente em combustível fóssil

Naquele momento, embora não fosse essa sua decisão, os países árabes deram ao mundo um motivo concreto para buscar fontes alternativas de energia. Os preços elevados viabilizaram a prospecção de óleo em lugares onde antes não havia qualquer possibilidade de uma exploração economicamente viável.

Poucos países no mundo deram um salto tão grande rumo a própria autonomia quanto o Brasil. Quando aquela crise teve início, a produção brasileira não era suficiente para suprir 20% do consumo interno.

Hoje o Brasil ainda importa algum petróleo por razões técnicas . Mas vende no mercado internacional uma quantidade maior do óleo do que importa. Ou seja, tornou-se autossuficiente .

O sucesso na eliminação da dependência brasileira do petróleo do Oriente Médio se deu em duas frentes. A primeira foi a produção de um combustível alternativo, o etanol , que, além de ajudar a reduzir o consumo dos derivados de petróleo, ainda dotou o país de uma alternativa menos poluente para abastecer sua frota de automóveis.

Criado em 1975, o Proálcool claudicou por um bom tempo e só começou a ter chances de dar certo depois que o governo brasileiro conseguiu, em 1990, combater a praga que impedia o desenvolvimento da produção brasileira de etanol.

Hoje, como se sabe, além de ser vendido puro nos postos de combustíveis, o álcool está presente em 25% da gasolina  brasileira — o que, convenhamos, não é pouca coisa.

A outra frente foi o investimento em prospecção e exploração de petróleo na plataforma continental brasileira. Com o tempo, a Petrobras obteve avanços tecnológicos espetaculares nessa área.

A verdade é que, se os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo , Opep, tivessem dosado melhor seu apetite no momento em que decidiram transformar o preço do barril de óleo cru em arma política, talvez não tivessem dado ao mundo motivos para se tornarem menos dependentes de seus estoques de óleo.

Ter petróleo — e a Venezuela está aí para confirmar essa afirmação — não é sinônimo
de poder. De nada adianta ter reservas abundantes do óleo e explorá-las de forma
irresponsável.

Ou de usá-las para estimular a corrupção , como acontece na Venezuela e aconteceu com o Brasil no passado recente. Essa é a principal lição que fica desse episódio todo: ter petróleo é muito bom. Mas utilizá-lo mal traz todo tipo de risco.


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