
A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, foi alvo de um ataque hacker que resultou no roubo de aproximadamente US$ 6,3 bilhões (R$ 34,21 bilhões) em ativos digitais. Esse caso é considerado um dos maiores ataques cibernéticos já registrados e levantou suspeitas sobre a participação de um grupo de hackers ligado a Coreia do Norte.
O ataque também provocou uma reação no mercado de criptomoedas. Após a divulgação do caso, moedas digitais como o Bitcoin e Ether registraram quedas, refletindo a preocupação dos investidores com a segurança de seus investimentos.
Com a situação, a Binance suspendeu temporariamente os saques e informou que vai assumir prejuízos devido ao ataque. A empresa também iniciou uma operação, junto a parceiros, para tentar recuperar parte do que foi perdido.
Conforme as empresas de análise de blockchain TRM Labs e Chainalysis, o ataque apresenta características semelhantes a outras invasões atribuidas a grupos norte-coreanos. A maior parte do roubo teria acontecido em aproximadamente 20 minutos, no fim de ontem (29).
As investigações apontam que os criminosos conseguiram transferir os ativos que estavam em carteiras digitais utilizadas pela Binance para outras carteiras controladas por eles. A estratégia é semelhante à utilizada em um ataque contra a corretora Bybit, em 2025, que foi atribuído pelo FBI (Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos) a Coreia do Norte.
Em uma análise publicada em seu site, a TRM Labs afirmou que tem fortes indícios de participação de uma unidade especializada em ataques cibernéticos do país. A Chainalysis também demonstrou alto nível de confiança nessa hipótese.
Coreia do Norte é suspeita de envolvimento
A suspeita de participação norte-coreana não surgiu por do nada. Nesses últimos anos, autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul apontaram que grupos ligados ao Governo da Coreia do Norte utilizam ataques virtuais para realizar espionagem, roubar dinheiro e conseguir recursos financeiros.
O país, porém costuma negar esse tipo de acusação. Procuradas pelo Jornal Reuters, a missão norte-coreana em Genebra e a embaixada do país na China não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
Enquanto as investigações continuam, a Binance tenta conter os prejuízos e recuperar os valores envolvidos. A empresa informou que cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16.322.400.000,00) foram localizados e que trabalha com outras companhias para impedir que os criminosos movimentem o dinheiro.
Uma parte importante dessa operação contou com a participação de empresas responsáveis por stablecoins, criptomoedas que buscam manter seu valor estável em relação a moedas tradicionais, como o dólar.
A Tether informou ter congelado aproximadamente US$ 1,57 bilhão em ativos relacionados ao ataque. Já a Circle afirmou ter bloqueado mais de US$ 800 milhões. A World Liberty Financial, empresa apoiada pelo presidente Donald Trump, também participou da operação de congelamento dos valores.
Além disso, a Binance informou que espera retomar os saques em até 48 horas. O co-CEO da empresa, Richard Teng, afirmou que os recursos dos clientes estão seguros e que a companhia vai cobrir todas as perdas.
Seu dinheiro está seguro e estamos cobrindo todas as perdas ", declarou Teng em uma publicação na rede social X. Segundo ele, a investigação ainda não identificou oficialmente os responsáveis pelo ataqe.
Ataque provoca queda no mercado de criptomoedas
O impacto do roubo foi sentido também fora da Binance. Com a notícia, investidores demonstraram preocupação, o que contribuiu para a queda de diferentes criptomoedas.
O Bitcoin chegou a ser negociado a US$ 76.368 (R$ 415.480,10), seu menor valor em seis semanas. Já o Ether recuou mais de 3%, atingindo US$ 2.178 (R$ 11.848,53), menor cotação em dois meses. Depois das quedas, os preços começaram a se estabilizar.
Outra moeda afetada foi o BNB, ativo digital lançado originalmente pela Binance e utilizado, entre outras funções, para pagar taxas dentro da plataforma. Nas últimas 24 horas, o token registrou queda de 5%, chegando a US$ 709,70 (R$ 3.822,52), de acordo com dados do CoinGecko.
O movimento negativo também atingiu empresas ligadas ao setor. As ações da Coinbase Global, uma das maiores corretoras de criptomoedas dos Estados Unidos, caíram 4,8%, mesmo após a empresa informar que não foi afetada pelo ataque. Já Strategy, conhecida por seus investimentos em Bitcoin, registrou queda de quase 6% nas negociações após o fechamento do mercado.
Para alguns especialistas, o episódio pode aumentar a desconfiança dos investidores em relação às corretoras centralizadas, que são plataformas responsáveis por armazenar e administrar criptomoedas de seus clientes.
Tim Sun, pesquisador sênior do HashKey Group, empresa com sede em Hong Kong, afirmou que o ataque pode fazer com que os investidores fiquem mais cautelosos antes de manter seus ativos nessas plataformas.
Como o ataque pode ter começado?
Apesar da dimensão do roubo, uma investigação inicial da Binance aponta que a invasão pode ter começado por meio do computador de um dos engenheiros da empresa.
De acordo com a corretora, o laptop teria sido comprometido por hackers, o que foi permitindo que os criminosos acessassem um dos sistemas internos e realizassem transferências sem autorização.
A equipe de segurança da Binance informou que está analisando o caminho utilizado pelos invasores para entender como conseguiram entrar no sistema.
O ex-diretor da extinta corretora Mt. Gox, Mark Karpeles, também comentou o caso. Segundo ele, os criminosos provavelmente conseguiram acessar as chaves privadas de pelo menos duas carteiras digitais da Binance.
As chaves privadas funcionam como senhas de segurança q ue permitem controlar e movimentar criptomoedas. Por isso, quando esses dados são acessados por pessoas não autorizadas, os valores armazenados nas carteiras podem ficar em risco.
Karpeles destacou ainda que a Binance mantém seus ativos divididos em diferentes sistemas, uma estratégia que ajuda a evitar que um único ataque comprometa todo o patrimônio da empresa. Mesmo assim, o caso mostra que essa proteção não impede completamente grandes prejuízos.
Binance tem milhões de usuários e bilhões em ativos
A dimensão do ataque também chama atenção pelo tamanho da Binance. Segundo relatório anual de 2025, a corretora possui aproximadamente 335 milhões de usuários registrados em todo o mundo e mantinha cerca de US$ 162,8 bilhões (R$ 885,47 bilhões) em ativos sob custódia.
Para reforçar a segurança de seus clientes, a empresa mantém um fundo chamado SAFU (Fundo de Ativos Seguros para Usuários), formado por uma reserva de US$ 1 bilhão (R$ 5.439.500.000,00) em Bitcoin. O objetivo é utilizar esse dinheiro para proteger os usuários em situações de emergência, como ataques cibernéticos.
Porém, a empresa ainda não detalhou como o fundo será utilizado especificamente neste caso. O co-CEO Richard Teng afirmou apenas que os recursos da própria companhia serão responsáveis por cobrir essas perdas.
O episódio acontece em um momento em que o mercado de criptomoedas já enfrenta dificuldades, principalmente por causa das taxas de juros mais altas nos Estados Unido s e da redução da procura por fundos de investimento ligados a esses ativos.
Além disso, o ataque à Binance ele não é um caso isolado. Segundo pesquisadores da TRM Labs, criminosos roubaram aproximadamente US$ 2,9 bilhões (R$ 15,77 bilhões) em criptomoedas ao longo do ano passado em 2025, em quase 1 50 ataques.
Em setembro daquele mesmo ano, a corretora Bitget informou também ter sofrido um ataque que resultou no roubo de cerca de US$ 350 milhões(R$ 1.980.429.605) em ativos digitais.
Com isso, o caso da Binance reforça garantir a segurança dos investimentos em um mercado que movimenta bilhões de dólares, mas que ainda enfrenta dificuldades para impedir ataques cada vez mais sofisticados.