Não é só a Casas Bahia: Marabraz entra em recuperação judicial

Rede de móveis acumula R$ 140 milhões em dívidas e enfrenta crise agravada por juros altos e uma disputa familiar que afetou o acesso a crédito

Marabraz entra em recuperação judicial
Foto: Reprodução
Marabraz entra em recuperação judicial

Pouco depois de a Casas Bahia  anunciar um  pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas, a Marabraz também recorreu à Justiça para reorganizar suas finanças. A tradicional rede de móveis protocolou o pedido em São Paulo com uma dívida de aproximadamente R$ 140 milhões . As informações são do jornal Valor Econômico.

O caso da Marabraz tem uma particularidade, já que além do cenário de juros elevados, crédito restrito e dificuldades no consumo, a empresa enfrenta uma disputa dentro da família controladora. Isso acabou afetando a estrutura de garantias utilizada para conseguir financiamentos.

A companhia afirma que pretende manter suas atividades durante o processo, com as lojas funcionando e foco na preservação dos empregos e das relações com clientes, fornecedores e parceiros.

Marabraz acumula R$ 140 milhões em dívidas

O pedido de recuperação judicial foi apresentado no último sábado (15), na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo . O processo reúne cinco sociedades relacionadas à operação da rede e aponta um passivo de aproximadamente R$ 140,2 milhões .

A empresa busca utilizar a recuperação judicial para reorganizar seus compromissos financeiros e criar condições para continuar operando enquanto negocia com os credores.

O processo ocorre em um momento de forte pressão sobre o varejo brasileiro. A combinação entre juros elevados, crédito mais caro e menor disposição dos consumidores para assumir novas dívidas tem afetado especialmente os segmentos de móveis e eletrodomésticos, que dependem de financiamento e parcelamento.

Disputa familiar afetou acesso ao crédito

Segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico, a crise da Marabraz também está relacionada a uma disputa entre integrantes das famílias Fares e Nasser, que controlam o negócio.

A estrutura financeira construída ao longo dos anos tinha nos imóveis da família uma importante fonte de garantias para operações de crédito. Na prática, esses ativos ajudavam a empresa a obter recursos para financiar estoques, fornecedores e capital de giro.

No entanto, com o agravamento do conflito societário e familiar parte desses ativos deixou de estar disponível da mesma maneira para garantir novos empréstimos. Isso dificultou a renovação de linhas de crédito e tornou mais complicada a obtenção de novos financiamentos.

O problema criou uma espécie de efeito cascata, uma vez que com menos garantias, o crédito ficou mais difícil; com menos crédito, a capacidade de financiar a operação diminuiu; e a menor liquidez aumentou a pressão sobre as finanças da companhia.

Como começou a briga na família Fares

A disputa tem origem em uma reorganização patrimonial realizada anos atrás.

Segundo informações do processo, os irmãos Nasser, Jamel e Adiel Fares transferiram participações da holding familiar para os filhos. A medida fazia parte de uma estratégia de proteção do patrimônio diante de questões fiscais.

Anos depois, entretanto, surgiram conflitos entre diferentes gerações da família. A disputa passou a envolver o controle das participações societárias e dos ativos que estavam ligados à estrutura patrimonial.

Em meio à batalha judicial, os familiares apresentaram versões diferentes sobre a transferência das cotas e sobre quem deveria exercer o controle dos negócios. A questão ainda envolve processos judiciais e não deve ser tratada como uma conclusão definitiva sobre as alegações de nenhuma das partes.

O ponto central para a empresa foi o impacto dessa disputa sobre os ativos utilizados como garantia para operações financeiras.

Juros altos também pressionaram a empresa

A Marabraz também foi atingida por um cenário econômico adverso, com taxas de juros elevadas, encarecimento do crédito e dificuldades para o consumo de bens duráveis.

Para uma varejista de móveis, esses fatores têm impacto duplo. De um lado, o consumidor tende a adiar compras de maior valor quando as parcelas ficam mais caras. De outro, a própria empresa precisa pagar mais para financiar estoques, operações e capital de giro.

A Marabraz chegou a esse cenário já enfrentando dificuldades para ampliar ou renovar suas linhas de financiamento. A combinação dos problemas aumentou a pressão sobre o caixa da companhia.


O que a recuperação judicial significa

A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam dificuldades financeiras, mas buscam continuar funcionando.

Com a abertura do processo, a companhia pode negociar suas dívidas de forma organizada com os credores, seguindo um plano que precisa ser submetido às regras e à fiscalização da Justiça .

O objetivo não é decretar o fim da empresa. É o contrário, já que a ferramenta busca permitir que o negócio continue funcionando, enquanto reorganiza suas obrigações financeiras.

No caso da Marabraz, a companhia afirma que pretende manter as lojas abertas e preservar os empregos, enquanto busca reestruturar as dívidas.

Uma marca com décadas de história

A Marabraz construiu sua trajetória como uma das marcas tradicionais do varejo de móveis no Brasil. O negócio nasceu a partir da atuação da família Fares e cresceu ao longo de décadas até se tornar uma rede conhecida principalmente no mercado paulista.

A empresa chegou à crise atual depois de uma combinação de fatores internos e externos.

De um lado, a disputa familiar atingiu a estrutura patrimonial que ajudava a sustentar o acesso ao crédito. De outro, o cenário de juros altos e consumo mais fraco aumentou o custo para manter a operação.

Agora, a recuperação judicial será utilizada como tentativa de interromper esse ciclo e reorganizar as finanças da companhia.