Casas Bahia pede recuperação judicial com R$ 17,3 bi em dívida

Medida protocolada na Justiça de SP inclui subsidiárias do grupo; alta de juros e frustração em captação de recursos agravaram a crise da varejista

Casas Bahia chega à recuperação judicial após prejuízo bilionário
Foto: Divulgação
Casas Bahia chega à recuperação judicial após prejuízo bilionário

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo . A medida foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador da companhia e protocolada na data de ontem (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

O processo também envolve outras empresas do grupo, entre elas a Cnova Comércio Eletrônico, Casas Bahia Tecnologia, Bartira e companhias das áreas de logística, tecnologia e serviços digitais.

Em documento enviado para a CVM (Comissão de Valores Imobiliários), a companhia afirmou que foi impactada por um cenário de juros elevados, restrição ao crédito, aumento dos custos financeiros, pressão sobre o consumo e o capital de giro. A empresa também informou que não conseguiu concluir alternativas de captação de recursos que estavam sendo negociadas nos últimos meses. Uma delas envolvia investidores internacionais, mas o principal interessado acabou desistindo da operação.

Dívida chega a R$ 17,3 bilhões

Na ação apresentada à Justiça, a Casas Bahia informou ter R$ 17,3 bilhões em dívidas.

Desse total:

  • R$ 16,4 bilhões são devidos a credores quirografários, que não possuem uma garantia específica para receber o pagamento;
  • R$ 754 milhões correspondem a dívidas trabalhistas;
  • R$ 154 milhões são devidos a microempresas (ME) e empresas de pequeno porte (EPP).

Medidas de urgência

Na petição apresentada à Justiça, a Casas Bahia também pediu medidas de urgência para evitar que as dificuldades financeiras afetem imediatamente o funcionamento da empresa.

Uma das principais preocupações é risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. Segundo a companhia, caso bancos retenham garantias relacionadas a pagamentos com cartão de crédito  e Pix , até 60% da entrada mensal de caixa poderia ser afetada.

Para evitar esse cenário, a empresa pediu a suspensão de execuções por 180 dias, além de impedir o vencimento antecipado de contratos comerciais e garantir a manutenção do fluxo regular de recebíveis.

A Casas Bahia também solicitou que fornecedores entreguem mercadorias que já foram compradas e estão em trânsito. Outro pedido é a liberação de mais de R$ 750 milhões em depósitos de recursos trabalhistas realizados em ações anteriores, para reforçar o caixa da companhia.

A empresa tenta garantir que o dinheiro continue entrando e que as operações não sejam interrompidas enquanto a recuperação judicial é analisada pela Justiça.

O que significa recuperação judicial?

recuperação judicial é um mecanismo que permite a empresas em dificuldades financeiras negociar suas dívidas sob acompanhamento da Justiça, enquanto tentam manter as atividades funcionando.

Casas Bahia / Americanas, lojas fechadas
Foto: Reprodução Redes Sociais
Casas Bahia / Americanas, lojas fechadas

Neste caso, a Casas Bahia busca reorganizar os débitos, evitar que as cobranças comprometam o caixa e encontrar uma forma de continuar operando.

E as lojas? 

A empresa afirmou que pretende manter normalmente tanto as lojas físicas, quanto as eletrônicas e os demais canais de venda, sem interrupções para os consumidores.

Entre as medidas previstas estão a renegociação e o alongamento das dívidas, além da concentração das operações em negócios considerados mais rentáveis e com maiores margens.

Prejuízo de bilhões

Entre abril e junho deste ano, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, resultado muito acima dos R$ 555 milhões negativos registrados no mesmo período em comparação a 2025.

Apesar do valor alto, a Casas Bahia informou que R$ 9,1 bilhões foram provocados por efeitos contábeis não recorrentes, que segundo a empresa, não houve impacto no caixa do trimestre.

Sem esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões, uma alta de 76% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Um dos principais impactos foi uma baixa de R$ 5,7 bilhões em impostos diferidos, relacionada a créditos tributários que precisaram ser ajustados.

Este resultado também foi afetado por medidas, como reorganização de pessoal, fechamento de lojas, revisões de contratos e atualização das projeções de resultados futuros.

Mesmo com o prejuízo, a receita líquida da companhia cresceu 1,6%, chegando a R$ 6,97 bilhões no trimestre . Já as despesas com vendas aumentaram 17%, para R$ 1,8 bilhão.

Lojas fechadas

A empresa também vem reduzindo o tamanho de sua operação.  Até o fim de junho, 298 lojas haviam sido fechadas.

Segundo a Casas Bahia, a decisão levou em conta fatores como o desempenho de cada unidade, a necessidade de capital e o retorno financeiro das lojas.

O número de funcionários também vem caindo. A companhia terminou junho com 30.117 colaboradores, 1.622 a menos do que no início de 2025.

Segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico, cerca de 1,9 mil funcionários foram demitidos nesses últimos dias.

Além do fechamento de lojas e da redução do quadro de funcionários, a empresa informou que está revendo estoques, compras, contratos, despesas administrativas e investimentos.

A estratégia busca diminuir a necessidade de capital e melhorar a geração de caixa.

A Casas Bahia já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial no ano de 2024, quando renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com credores.

O plano foi homologado pela Justiça em junho daquele ano. A medida ajudou a mudar o perfil da dívida da empresa, mas não foi suficiente para impedir a continuidade dos prejuízos.

Com o pedido de recuperação judicial, a companhia tenta reorganizar novamente sua estrutura financeira.

Como a decisão foi tomada em caráter de urgência, o Conselho de Administração também aprovou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária . Os acionistas deverão analisar e ratificar a decisão.

A Casas Bahia afirmou que continuará informando sobre os próximos passos do processo.

*Estagiária sob supervisão