Inflação muda prateleiras dos mercados
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Inflação muda prateleiras dos mercados

A alta nos preços dos alimentos mudou os carrinhos de compras dos brasileiros, levando os supermercados a alterarem portfólios e estratégias para acompanhar os consumidores. As gôndolas passaram a dar destaque para rótulos mais baratos — e muitas vezes desconhecidos —, assim como os itens de marca própria. Produtos mais acessíveis foram para as prateleiras do alto, na altura dos olhos dos compradores, e os mais caros desceram ou até sumiram.

Para caber no bolso dos clientes, a Nestlé, por exemplo, adaptou o tamanho de suas porções. Já P&G criou embalagens maiores para atender seu público. O Carrefour, por sua vez, investiu em marcas próprias e congelou preços. E a rede paranaense Condor ampliou o mix de produtos mais em conta e tirou vinhos e chocolates das gôndolas, pois não tinham muita saída devido aos preços salgados.

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Um estudo feito pela consultoria Kantar, exclusivamente para o EXTRA, identificou as principais alterações nos carrinhos de compras de 2020 para 2021. Entre as mudanças, constatou que em higiene, beleza e limpeza a troca de marcas é mais recorrente. O levantamento revelou que, de um ano para o outro, a preferência pela linha econômica de desodorantes aumentou 39%, e a de alvejantes, 29%, por exemplo.

Para alguns produtos de mercearia doce ou bebidas, a pesquisa verificou que os consumidores costumam manter suas preferências. Já em outros casos, como a carne, o jeito é substituir o alimento por lanches com frios.

"Nos itens básicos, que mais têm sofrido impacto da inflação, como farinha, óleo, café e feijão, o consumidor costuma equilibrar entre diminuir o volume ou migrar para marcas mais baratas, mas não deixa de comprar", observou a diretora de Usage da Divisão Worldpanel da Kantar, Aurélia Vicente. 

Para se encaixar nesta realidade, mais de 80% dos supermercados no Rio substituíram mercadorias de marcas caras por outras que pesam menos no bolso em alimentação, higiene e limpeza. Os dados são da Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), com base num levantamento realizado em janeiro deste ano.

"Existe hoje uma condição de três fatores que estão apertando muito a renda dos trabalhadores brasileiros: a inflação, o desemprego e as dívidas elevadas. Isso tudo tem pressionado o consumidor a escolher itens mais baratos", disse Guilherme Mercês, consultor da entidade: "A preferência mudou e a importância que isso tem na dinâmica do supermercado é muito grande. Isso se reflete diretamente na forma como os produtos são oferecidos e no modo como são dispostos nas gôndolas."

Basta percorrer algumas redes para perceber as mudanças. Na prateleira de uma rede no Méier, na Zona Norte, a reportagem viu as tradicionais marcas de sabão em pó dando lugar à linha própria do estabelecimento comercial, que é mais barata. O mesmo aconteceu com alguns tipos de biscoitos. Em outro grupo, na Piedade, na mesma região da cidade, apenas uma marca de açúcar refinado estava à disposição dos clientes.

"Vim comprar itens de limpeza. Produtos pelos quais eu antes gastava R$ 50, R$ 60, no máximo, hoje paguei R$ 100", reclamou a diarista Socorro Costa, moradora do Engenho Novo, que foi ao supermercado na última sexta-feira.

Alternativas das donas de casa

Na cesta de compras da diarista Marlene Adão, de 58 anos, a marca tradicional de sabão em pó foi substituída por uma inferior, mais barata. O tomate e a cenoura saíram do cardápio em virtude dos altos preços, e as carnes e os legumes só entram no carrinho quando há boas promoções.

"Compra de mês eu parei de fazer no início da pandemia. Sou diarista, e as faxinas pararam. Agora, vou vendo os anúncios na TV e, conforme vou precisando e o preço está bom, venho ao mercado", contou ela, que mora no Morro Dona Marta, em Botafogo, com o marido, a filha e o neto.

A pesquisa da Kantar corrobora a sensação de Marlene de que cada vez se compra menos e se gasta mais, especialmente nas classes C, D e E. O levantamento da Asserj apontou ainda que a população mais vulnerável, que recebeu o auxílio emergencial (e agora o Auxílio Brasil), prioriza os gastos com alimentação (56,5%). Mas, com a renda comprometida, 11,7% deles precisam usar o dinheiro para pagar dívidas.

Outros 10,8% compram remédios, itens considerados de primeira necessidade. Do total de pessoas ouvidas, 88,7% disseram que passaram a comer mais frango e menos carne bovina devido à inflação.

"Estamos levando menos e pagando mais do que o dobro. As compras lá para casa era suficiente para o mês inteiro. Custavam R$ 700, R$ 800. Hoje, pago R$ 1.300, R$ 1.500 por compras bem menores", disse a aposentada Leonor Silva, de 85 anos, que junto com o genro sustenta a casa com oito pessoas, entre filhos e netos.

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A aposentada Maria Ricardina Araújo, de 64 anos, prefere não comprar, quando os preços estão altos:

"Como moro sozinha, preferi não substituir as marcas de que gosto. Mas, se está muito caro, simplesmente não compro. Na semana passada, por exemplo, procurei por coentro. O maço estava saindo a R$ 4. Voltei para casa sem."

Apostas de redes e empresas

No Condor Super Center, o diretor de Operações, Maurício Bendixen, diz que cada gôndola é analisada visando a melhorar o uso do espaço:

"Fazemos um mix e vamos acompanhando a saída dos produtos. Na pandemia, trouxemos mais os de segunda linha e demos mais espaço a eles. Algumas marcas mais cara perderam espaço. Chegamos a tirar das gôndolas alguns itens que eram muito caros."

Segundo ele, no caso dos alimentos, as pessoas trocaram até mesmo produtos de alta fidelidade, como arroz e café. No setor de limpeza, deram prioridade às embalagens maiores. A P&G entendeu este movimento e lançou, em 2020, a versão de três litros do amaciante Downy.

"Outra mudança que observamos foi a busca por tamanhos maiores, tendo descontos na unidade ou no litro. Isso é notório nas fraldas", disse Marcos Bauer, diretor sênior de Inteligência de Mercado e Desenvolvimento de Categorias da P&G.

O Carrefour não somente percebeu a mudança de interesses do consumidor como viu sua marca própria crescer. Os preços altos dos rótulos tradicionais levaram os clientes a experimentar os da linha própria da rede, que têm mais de 4.500 itens. As vendas desses produtos cresceram 50% nos últimos dois anos e, hoje, correspondem a quase 20% da venda total do grupo.

Para Allan Hock, diretor de marca própria do Carrefour, no entanto, o que realmente é significativo é conseguir penetrar em categorias antes inimagináveis, além da recompra:

"Isso significa que o cliente comprou e gostou. As fraldas e as cápsulas de café da nossa marca vendem mais do que as dos líderes de mercado."

Mudança de hábitos:

De 2021 para 2020, a cesta de consumo caiu nestes itens:

  • Commodities (óleo de soja, açúcar, arroz, feijão...) - 8,1%
  • Higiene e beleza - 4,1%
  • Mercearia salgada e limpeza - 3,5%
  • Perecíveis e bebidas, respectivamente. -1,2 e 1,3%

Destaques em que o consumidor opta por categorias econômicas

  • Alvejante sem cloro - 29%
  • Desengordurante de cozinha - 27%
  • Detergente líquido de roupa 17%
  • Desodorante - 39%
  • Maquiagem - 24%
  • Lâminas de barbear - 15%

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