Selic voltou para os dois dígitos ontem
Felipe Moreno
Selic voltou para os dois dígitos ontem

A volta da Selic para a casa dos dois dígitos após a elevação em 1,5 ponto percentual pelo Comitê de Política Monetária (Copom) reforça a tendência de valorização que os ativos de renda fixa já vêm experimentando desde o ano passado.

Segundo analistas consultados pelo GLOBO, os títulos de renda fixa pós-fixados, que acompanham as altas nas taxas de juros, os prefixados e os indexados à inflação continuam sendo boas opções.

Quando se olha para os fundos de renda fixa DI, a estimativa é que a maior parte deles tenha rendimento superior ao da poupança, principalmente aqueles com taxas de administração de até 2% ao ano.

Pelo lado da renda variável, a recomendação são empresas mais consolidadas e com histórico de resultados, como o caso de companhias ligados a commodities. Para quem quer fugir da volatilidade, setores defensivos como o elétrico e o de papel e celulose também oferecem boas opções.

Onde investir?

A analista de investimentos da Rico, Paula Zogbi, destaca que os principais beneficiados pelo movimento de altas da Selic são os títulos pós-fixados.

"Estamos vendo prêmios no IPCA+ muito atraentes e em prefixados, porque vemos a inflação convergindo para a meta nos próximos dois anos enquanto os títulos estão pagando prêmios para uma inflação que não converge para a meta tão rapidamente", disse Paula.

Os títulos prefixados, que pagam taxas de juros combinadas no momento da aplicação, e os indexados à inflação também são boas opções, ainda que demandem maior cautela. Isso porque, ainda estamos em um ciclo de alta nos juros, então, o investidor pode ficar preso a uma taxa menor enquanto a Selic continua a subir.

Há o risco de sair antes de aproveitar o melhor potencial do investimento, como de ficar preso até o final na taxa fixa.

Compare a rentabilidade dos investimentos

A analista de fixa do TC, Jaqueline Benevides, recomenda aplicações com horizontes mais curtos, pois a expectativa do mercado é que a Selic comece a cair em 2023.

"Se você pegar ativos com prazos muito extensos, pode ser que você pegue uma Selic não tão atrativa e fique preso nesse papel. Agora, se você pegar esse curto prazo, quando esse ciclo de alta terminar, você consegue se alocar de maneira mais estratégica", afirmou Jaqueline.

Paula, da Rico, também prefere papéis que tenham vencimentos daqui a dois ou três anos, porque os cenários fiscal e inflacionário ainda são incertos após esse período.

Fundos DI x Poupança

Com a elevação da Selic para 10,75%, os fundos de renda fixa DI passam a se destacar ante a caderneta de poupança. Segundo estimativas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), as aplicações nesses fundos, em alguns casos, chegam a ter desempenho melhor que a poupança até com taxa de 2,5% ao ano.

Vale lembrar que desde dezembro foi alterado o cálculo do rendimento da poupança. No atual cenário, o rendimento é de 0,5% ao mês mais a TR. Em 12 meses com a taxa nesse patamar, o rendimento gira em torno de 6,17% ao ano mais a TR.

"Temos muitos fundos DI que investem em Tesouro Selic e não vemos uma inflação tão alta este ano como em 2021. Esses fundos devem rentabilizar acima da inflação e da poupança", afirma o assessor de investimentos de Ável, Paulo Dutra.

Títulos de crédito privado

Para quem quiser correr mais riscos, é possível conseguir retornos maiores do que os dos títulos públicos investindo em papéis emitidos por bancos de menor porte, os certificados de depósitos bancários (CDBs).

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Eles são mais arriscados, pois existe o risco do banco enfrentar problemas financeiros. Nesse caso, vale destacar que esses investimentos são cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uma espécie de seguro até o valor de R$ 250 mil por CPF, o dinheiro fica protegido mesmo em caso de calote. O ideal é alinhar o seu objetivo com o prazo de vencimento do papel.

"Se você conhecer o emissor e o risco dele fazer sentido para a sua carteira, é uma opção. Eles estão pagando taxas mais atrativas. Tem muito CDBs de bancos pequenos e médios pagando taxas de 120% e 130% do CDI", disse Paula, destacando que a proteção do FGC demora um tempo para ser compensada.

LCAs, CRIs, CRAs

Ainda dentro do contexto de renda fixa, são opções os ativos isentos de imposto de renda, que ficaram um pouco esquecidos na época de Selic baixa.

São os casos das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Imobiliários (LCIs). Estas também são cobertas pelo FGC e são isentas de IR. Há também os CRIs e CRAs, mas estes não são cobertos pelo FGC.

A dica nesses casos é ver a qualidade do emissor do crédito.

Fundos Imobiliários

O sócio-fundador da Brio Investimentos, Rodolfo Senra, destaca que o investidor de FIIs precisa ter em perspectiva que esses ativos são voltados para o longo prazo. Ele destaca que alguns dos fundos possuem ativos de renda fixa em seu portfólio que, por tabela, se beneficiam das altas da Selic.

"Tem uma classe de ativos que funcionam como uma renda fixa, como os CRIs. Quando os juros sobem, naturalmente, a taxa de qualquer tipo de investimento deve acompanhar e isso ocorre também nos CRIs."

Senra também ressalta os fundos comandados por gestores que fazem gestão alocação em diferentes classes de ativos.

"Primeiro ponto é validar o histórico do gestor, quem são os clientes, quanto tempo ele tem de mercado, o conhecimento que ele tem do setor imobiliário", disse Senra, destacando que o produto é isento de IR e pode funcionar como uma proteção em cenários de inflação alta.

E a Bolsa?

Em um cenário de aumento das taxas de juros, a tendência é que os investidores desfaçam parte de suas posições em Bolsa, como vem acontecendo desde o segundo semestre do ano passado.

Segundo os analistas, não é necessário fugir da renda variável. Para quem aceita correr mais riscos, há empresas com bom desempenho e que estão precificadas abaixo dos seus fundamentos devido à deterioração do cenário macroeconômico.

"Estamos em patamares de múltiplos baratos. Com uma Selic de 10,75% é um bom momento de realizar uma reformular posição e ter alocação em Bolsa com boas empresas e com fundamentos, porque elas estão precificadas abaixo de um valor de mercado", disse Dutra.

Entre as medidas usadas para medir se o ativo está ou não com um bom preço estão os múltiplos que relacionam o preço das ações com indicadores contábeis. Um exemplo são as relações entre o valor de mercado mais a dívida líquida da empresa com a geração potencial de caixa.

Paula, da Rico, destaca que os investidores podem olhar para empresas líderes em seus setores e que conseguem crescer apesar do cenário macroeconômico mais desafiador.

Entre as recomendações, estão as companhias ligadas a commodities, que tendem a enfrentar cenários de inflação alto com menores dificuldades, e setores já conhecidos por terem ativos mais defensivos, como o de energia elétrica e papel e celulose.

"Mas sempre diversificando também internacionalmente, que é uma forma de se proteger dos ricos locais", ressalta a especialista da Rico.

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