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'O mercado não resolve tudo', afirma Papa Francisco em crítica ao capitalismo neoliberal

O Papa Francisco fez duras críticas à visão de que o liberalismo econômico é a resposta para os problemas sociais do mundo, ressaltando que as limitações do capitalismo neoliberal foram expostas pela crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.

“O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal”, afirma o Papa na encíclica "Fratelli Tutti" ("Todos Irmãos" em italiano), assinada no sábado, em Assis, na Itália. “Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja”.

De acordo com o pontífice, o neoliberalismo sempre recorre “à mágica teoria do ‘derrame’ ou ‘gotejamento’ como única via para resolver os problemas sociais”. Essa visão, bastante presente nas sociedades modernas, defende que a promoção do crescimento econômico impacta positivamente as camadas sociais mais baixas pela geração de empregos e do aumento da renda e do consumo.

Para Francisco, porém, “a suposta redistribuição não resolve a desigualdade, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social”.

“O fim da história não foi como previsto, tendo as receitas dogmáticas da teoria econômica imperante demonstrado que elas mesmas não são infalíveis”, conclui o Papa. “A fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado e que, além de reabilitar uma política saudável que não esteja sujeita aos ditames das finanças, devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro”.

No documento, o Papa também defende a "função social da propriedade", lembrando que "a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada":

"O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados", afirma. "E isto tem consequências muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade".

Apesar das críticas, Francisco não é contra o crescimento econômico. No texto ele classifica como “indispensável uma política econômica ativa” para o aumento dos postos de trabalho, mas insuficiente para a resolução dos problemas sociais.

Para o Pontífice, é preciso incentivar movimentos populares, que surgem com a iniciativa de “desempregados, trabalhadores precários e informais e tantos outros que não entram facilmente nos canais já estabelecidos”. Dessa forma, afirma Francisco, será possível “superar a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres”.

As encíclicas estão entre os mais importantes documentos da Santa Sé. A “Fratelli Tutti” é a terceira assinada por Francisco. Antes, já havia publicado a "Lumen Fidei" ("Luz da Fé"), iniciada por Bento XVI, e "Laudato Si'" ("Louvado Sejas"), a primeira na história da Igreja Católica dedicada à ecologia.

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