Brasil Econômico

mulher faz tatuagem em braço
Acervo pessoal
A tatuadora e bodypiercer Scarlet Rosa, 23, precisou continuar trabalhando em seu estúdio com portas fechadas e horário marcado: "Eu preciso do dinheiro"


Claudineia Barbosa da Rocha é manicure e depiladora e atende no bairro Cidade Ademar, localizado na Zona Sul de São Paulo. Sempre atendeu as clientes no espaço que tem em sua casa. Quando o isolamento social entrou em vigor na capital paulista, ela ficou um mês sem trabalhar. “Mas as contas não param de vir”, afirma.

Claudineia faz parte de profissionais da área da beleza e presta serviços que, durante a pandemia do novo coronavírus , não são considerados essenciais. Por isso, apesar de publicação de Jair Bolsonaro (sem partido) que permitia que esses profissionais voltassem a reabrir seus estabelecimentos, estão paralisados.

Assim como cabeleireiros, designers de sobrancelhas e tatuadores, por exemplo, as manicures fazem parte do grupo de trabalhadores informais . Por isso, não possuem renda fixa, ajuda de custo ou benefícios financeiros como, por exemplo, empregados no regime CLT.

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Enquanto as tesouras e os alicates estão parados, esses profissionais passam por um momento de incerteza, já que não sabem quando devem voltar a trabalhar normalmente. Outros, mesmo com medo, não veem outra opção, como é o caso de Claudineia.

No entanto, Claudineia encontrou um obstáculo. Além de optar por não receber ninguém, não conseguiria ir às casas de muitas clientes: a maioria delas são idosas e, por isso, fazem parte do grupo de risco. “Eu tenho 30 clientes fixas que atendia todos os meses. Agora, tenho 13”, diz.

O critério durante a pandemia é atender clientes que estejam isoladas e morem com poucas pessoas, sempre com máscara e álcool em gel a postos. Para chegar até elas, Claudineia pega carona no carro do marido, nada de transporte público. “Eu sinto um pouco de pânico, mas temos que enfrentar nossos medos”.

A falta de clientes impactou nos ganhos. A média da renda mensal de Claudineia é de R$ 800. Durante a pandemia, esse número caiu 70%. “Ganhar R$ 240 está um pouco difícil”, desabafa.

“Aqui em casa não tinha como parar. Meu marido é músico, o primeiro a ser afetado e o último a voltar”, explica Grazi Rosa. A manicure, que atende na região do Tatuapé, chegou a ficar os primeiros 15 dias em casa, mas em abril voltou a trabalhar.

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“Vou em uma casa por dia, assim não fica indo em uma e depois em outra e não corro o ‘risco maior’ de contágio”, explica, mas depois questiona. “Do mesmo jeito corre risco, né?”

A rotina agora é essa: Grazi só vai ao trabalho com o próprio carro, evitando até mesmo os motoristas de aplicativo. Só pega ônibus quando vai para lugares muito afastados. Na casa da cliente, lava as mãos com sabão e ainda aplica álcool em gel. As luvas e a máscara são indispensáveis.

Mesmo obedecendo a todas as orientações de saúde, Grazi acredita que está assumindo um risco. “Ah, tenho medo sim. Mas eu preciso ir, né?”, diz. “Não tenho outra opção.”

Auxílio emergencial

Grazi ficou dois meses tentando se cadastrar no programa de auxílio emergencial de R$ 600. Claudineia também recorreu ao auxílio financeiro, mas está “em análise” até hoje.

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O sistema de distribuição tem recebido queixas pela demora da disponibilização Segundo levantamento oficial, um em cada três requerimentos é negado pelo governo. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) chegou a questionar o Ministério da Cidadania sobre pedidos negados. Sem auxílio, muitos trabalhadores acabam sem ocupação e sem renda .

De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, 15% dos trabalhadores informais não possuem internet em casa . Ou seja, o cadastro não é acessível a todos e pode deixar muitos sem o auxílio.

“Imagino que só não estou entrando em desespero porque eu já tinha uma grande reserva de emergência”, explica Scarlet Rosa, que é tatuadora e bodypiercer. Ela também se cadastrou, mas foi uma das 30 milhões de pessoas impactadas pelo apagão no sistema de aprovação do Governo Federal, em abril.

Portas fechadas

Scarlet continua trabalhando em seu estúdio em uma galeria na região do Jabaquara — onde, segundo ela, “parece que a quarentena não está acontecendo”. “As lojas estão abertas. Para a maior parte é o único sustento, eles não têm como parar. É uma aglomeração sem fim”, explica. Segundo ela, a Polícia Federal realiza rondas na região, mas o trabalho continua mesmo assim.

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O estúdio de Scarlet é um desses que continua trabalhando às portas fechadas e com agendamento prévio. “Eu preciso do dinheiro”, justifica. A procura não é alta, mas vez ou outra alguém aparece, principalmente, para colocar piercings. Por conta dos equipamentos necessários, ela não conseguiria atender a domicílio.

Scarlet tinha tatuagens para fazer, mas foram desmarcadas depois que o isolamento social começou, muito mais por medo do dinheiro faltar do que do vírus em si. “Mesmo quem anima, é sempre com ‘depois da pandemia’ no fim da frase”, desabafa.

A falta de dinheiro, ocasionada pela falta de procura, fez com que a profissional entregasse o estúdio ao proprietário. Ela está fechando seu espaço de trabalho, pelo menos até o fim do isolamento social, destino comum a diversos estabelecimentos locais que não estão conseguindo sobreviver durante a crise econômica do novo coronavírus.

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Mesmo sem uma média fixa de clientes, Scarlet diz que a queda é incomparável. Segundo ela, por pouco não conseguiu pagar o aluguel do último mês.

“Aqui na região as pessoas perderam o emprego assim que a quarentena começou, tanto formais quanto informais. Começaram a reter a maior quantidade possível de dinheiro”, diz. “Então, esse é o fluxo de clientes que tenho hoje: zero.”

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