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Quase 60 milhões de brasileiros estão devendo no mercado e a solução para esse problema pode parecer um "bicho de sete cabeças"; mas, há algumas ações bastante tangíveis que podem ser feitas para você quitar suas dívidas

Há consumidores que esperam o contato do banco para pagar menos pela dívida, mas a estratégia vale a pena?
Pixabay/Creative Commons
Há consumidores que esperam o contato do banco para pagar menos pela dívida, mas a estratégia vale a pena?

Abono salarial, 13º salário e PIS-Pasep são alguns dos benefícios que vão garantir uma renda extra para os consumidores neste fim de ano, isso sem falar dos chamados ‘bicos’ e serviços temporários, não é mesmo? Já pensou em aproveitar essa receita a mais para quitar aquela dívida atrasada que, aliás,  atinge ao menos 59,9 milhões de brasileiros?

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A planejadora financeira e autora do blog Finanças na Prática , Eliane Metzner, avalia que muitas pessoas são afetadas por um vício de comportamento chamado "viés do presente", em que “as pessoas querem tudo para agora e não têm paciência de fazer reservas financeiras. Com isso, ficam endividadas e pagam mais caro”, explica. Mas, depois que a dívida já foi feita, o que fazer? A especialista contou ao Brasil Econômico  alguns caminhos possíveis para a solução do problema.

1 - Antes da negociação

Para que o inadimplente faça uma negociação vantajosa, é muito importante ter em mãos a data em que foi realizado o crédito, o valor, a taxa de juros contratada, além das datas de vencimentos.

Certificou todas essas informações? Agora é hora de procurar um simulador online para que você saiba qual o valor que a dívida estaria sem os juros de atraso. “Este é o valor que precisa ser o alvo das negociações, ou seja, quando procurar o credor para negociar, deve-se buscar o abatimento dos juros e multa de atraso”, aponta a especialista.

2 - Esperar para negociar

Há casos de consumidores inadimplentes que esperam o contato do banco ou loja para pagar menos pelo devido, mas a estratégia vale a pena? Eliane Metzner revela que isso depende, uma vez que a restrição ao CPF, sem possibilidade de realizar novos empréstimos ou crediários, é uma das consequências de estar inadimplente. 

Além disso, ela conta que cada CPF tem uma pontuação chamada Score , em que todo o histórico de pontualidade em bancos, carnês de lojas e contas de consumo como luz e telefone, por exemplo, conta para a avaliação desse consumidor . E se houver atraso em qualquer conta, o Score considera esses registros por até 12 meses após resolver o problema.

Ok, ‘e daí’? Na hora em que o consumidor pedir um empréstimo, muitos credores avaliam o Score do CPF requerente e, quanto mais baixa a pontuação, mais caro fica o crédito. "Respondendo à pergunta, se tais limitações não fizerem diferença - ou seja, não ter crédito para novas compras ou operações - o consumidor pode esperar pelo contato feito por algumas lojas, entidades públicas e bancos, que costumam fazer mutirões para quitação de dívidas com descontos nos juros de atraso, e então a estratégia funciona", avalia.

Mas, a planejadora financeira ressalta que, ao fazer essas negociações, o consumidor não terá abatimentos no valor que falta pagar, apenas nos juros cobrados, e considera que a melhor estratégia de todas é não atrasar as contas e pagar juros exorbitantes.

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3 - É sempre melhor pagar à vista?

Nem sempre o pagamento à vista é o melhor. Em alguns casos, Eliane Metzner explica que o parcelamento acaba sendo mais 'negócio'. Como assim? Vamos imaginar um empréstimo com uma taxa de 1,8% ao mês que seja usada para o investimento em um negócio que irá ter retorno de 10% ao mês: notadamente, este seria uma boa escolha de parcelamento, já que o ganho é superior ao custo. Mas, vale sempre lembrar, que a negociação à vista é sempre o caminho mais seguro. 

“Recebi uma consulta de uma mulher que emprestou seu nome para a irmã, que não a pagou. Com isso, seu nome foi para o Serasa, e ela perdeu seu cartão de crédito, cheque especial e outras formas de financiamento. Para resolver a situação, procurou o banco para negociar o saldo devedor de R$ 5,3 mil, e a proposta do banco foi reduzir para R$ 3,8 mil e parcelar em 36 vezes com juros de 3% mensais, o que daria R$ 174,05 por mês ou R$ 6.265,96 no total", lembra a especialista.

"A princípio, minha cliente achou que seria um bom negócio, pois a parcela cabia em seu orçamento. Porém, orientei-a a juntar o 13º salário e a bonificação de férias para negociar um desconto adicional. A dívida foi quitada por R$ 2 mil, ou seja, um terço do valor do que se fosse financiada”, relata.

Em casos de pagamento à vista, a especialista diz que, após o saque, deve-se restituir mês a mês o valor retirado para que não se crie "um buraco na reserva".

4 - Fazer uma dívida mais barata para pagar outra

Essa situação envolve duas questões: economia racional e comportamental. No primeiro caso, embora seja racionalmente mais vantajoso trocar uma dívida por outra de juro barato, na realidade não é bem essa análise que deve ser feita pelo consumidor.

“Você tem um parcelamento no cartão de crédito a 8% ao mês, e faz outro a 3% ao mês. A escolha é racionalmente correta. No entanto, o valor do limite do cartão é liberado para novas compras, e se não houver disciplina, troca-se uma dívida cara por uma mais barata e uma futura, ou seja, o endividamento tende a aumentar porque liberou o limite para novos gastos”, pontua.

Já considerando a economia comportamental, é sim vantajoso trocar a despesa cara por uma mais barata, mas junto disso, é legal bloquear a causa do endividamento, que no exemplo dado pela especialista é o cartão de crédito.

Além das taxas dos empréstimos, o consumidor também deve avaliar os custos agregados, como a taxa de atualização cadastral da nova instituição – banco, taxa de liberação de crédito, o Imposto de Operações Financeiras (IOF) e também o IOF adicional de 3% ao ano, que estarão presente no novo empréstimo. Assim, ao ter todas essas informações de cada crédito em mãos, calcule o custo efetivo total, veja quanto vai custar no final cada operação e opte pela mais vantajosa.

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5 - Como se planejar para dívidas fixas como IPTU e IPVA?

“Se é possível usar até 30% da renda para pagar um empréstimo, por que este mesmo percentual não pode ser guardado?”, questiona a planejadora financeira. Segundo ela, isso ocorre exatamente por causa daquele vício comportamental de viés do present e, citado no começo da matéria.

Diante disso, Eliane sugere uma solução – que pode ser simples para uns e mais complicada para outros – que é conter essa impulsividade e “pagar” uma aplicação programada da mesma forma que pagaria uma prestação. A operação pode ser feita por meio do débito automático e fará com que você junte um dinheiro para as despesas sazonais.

Se agora é tarde demais para a prática, Eliane Metzner orienta o consumidor a avaliar o valor dos impostos se forem pagos à vista ou parcelado, e caso não haja dinheiro para o pagamento à vista, a planejadora recomenda a procura por empréstimos em bancos ou cooperativas de crédito, sempre comparando o custo total das taxas e dos impostos de financiamento. 

Gostou das dicas? Então, já faça o planejamento mensal para que nenhuma dívida fique atrasada em 2018 e, lembre-se, priorize os pagamentos à vista.

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