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Escritora e empreendedora mostra porque o conceito atual de trabalho acaba gerando frustrações, e como mudaria esse ideal desde a infância; veja

A ideia de trabalho muda constantemente: profissões resistem, mas como e onde profissionais estão é cada vez mais variado
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A ideia de trabalho muda constantemente: profissões resistem, mas como e onde profissionais estão é cada vez mais variado

Desde que somos crianças, respondemos à pergunta “o que queremos ser quando crescermos?”. Assim, um primeiro conceito de trabalho é criado em nossas mentes, já que buscamos responder a questão com aquilo que nos é conhecido e próximo: se gostamos de cachorros, queremos ser veterinários. Se achamos legal o estetoscópio do pediatra, queremos ser médicos... E assim por diante.

Já quando somos adolescentes e jovens, por volta dos 20 anos, nós precisamos pensar sobre o trabalho que desejamos realizar depois de passar no vestibular e terminarmos o curso escolhido na universidade. Nessa fase, iniciamos o processo de buscar uma profissão em que nos identificamos ou, pelo menos, que parece atender alguns de nossos interesses.  Queremos, portanto, encontrar algo por que seremos apaixonados – e que possa nos dar dinheiro. Ainda jovenzinhos. 

Esse conceito de trabalho é interessante - e nos parece o mais lógico, mas, para a escritora e empreendedora Courtney E. Martin, ele deveria ser atualizado, uma vez que, segundo ela, tal ideal está nos “travando”, deixando cada vez mais profissionais frustrados.

Martin, então, escreveu um artigo interessante ao site Motto, explicando por que deveríamos modificar nossa ideia de trabalho dos sonhos. Leia:

(...) O conceito antigo de que devemos encontrar alguém que nos pague para fazermos o que amamos é bem intencionado, mas, em uma análise recente, não tem nos ajudado, pois vivemos em um tempo quando ‘o quê’ de quase tudo está se dissolvendo, se misturando, e sendo reconstituído. Ou seja, o velho enquadramento profissional é cada vez mais inútil. 

Claro, ainda existem contadores, advogados e professores, mas onde e como essas pessoas trabalham está mudando o tempo todo. Empregos estão morrendo e nascendo constantemente. Só para ilustrar: de acordo com o Bureau of Labor Statistics, as pessoas tem permanecido em uma mesma empresa por um período médio de 4,6 anos. E parece que isso vai diminuindo cada dia que passa. 

Minha própria carreira é um case a ser observado aqui. Eu me formei em 2002, depois de o "www" ter estourado. Enquanto alguns amigos mais velhos ainda estavam produzindo da maneira antiga, eu já me tornei uma idealista do “.com”, ou seja, esperava que os empregadores vissem meu currículo via e-mail. A relação profissional já mudara a partir desse início do processo, desde a contratação. 

Antes de me formar, no fundo do meu coração, eu sabia que queria ser escritora. Porém, eu era muito pragmática, sem mencionar minha formação em uma família de classe média onde ninguém, jamais, tinha sido tão indulgente ao se proclamar “um artista”, com expectativas reais de fazer a vida com algo assim. Mas, eu também estava encantada demais com as palavras e o poder de uma história para abandonar, completamente, meu sonho. Então, o que eu fiz?

Bem, eu investia nos meus escritos sempre que podia, desenvolvia meus projetos pessoais, encaminhava para possíveis interessados, pedia aos meus “ídolos” para almoçarmos juntos, encontrava colegas que poderiam me ajudar com contatos interessantes, investia em iniciativas criativas com amigos maravilhosos. Tudo isso enquanto trabalhava em um cargo administrativo.

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E sabe de uma coisa? Depois de 15 anos, ainda me surpreendo por fazer o que realmente amo. Algumas vezes, percebo isso quando escrevo um livro ou minha coluna no site. Outras vezes, enxergo isso realizando projetos que eu jamais poderia imaginar em 2002. Eu sou pesquisadora e estrategista para o TED Prize. Abri um empreendimento com meu parceiro e melhor amigo. Eu sou cofundadora de uma organização sem fins lucrativos, que foca em planejar novas soluções para o jornalismo.

O que tudo isso tem em comum? Não é um curso. Nem um título profissional, nem a mesma área trabalhista. Nada disso. A verdade é que têm em comum minha vontade. São trabalhos que falam sobre mim, são parte do que sou. Revelam a minha sensibilidade profissional. Revelam meus engajamentos. E, claro, pagam minhas contas.

O que quero levantar aqui é: se você não pode contar com um emprego ou um campo específico, com o que poderá contar? É muito mais seguro cultivar o desapego a detalhes de onde e o que poderá fazer profissionalmente, buscando, em vez disso, realizar coisas que te excitam, e aprender novas habilidades, gerando outros interesses durante toda a vida. Quando você se torna familiar ao que vê, resolve, organiza, capacita, comunica, constrói, destrói, avalia e cria, sabe como será eficaz independentemente de qual cargo exerce ou de qual empresa trabalha.

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Claro que seria muito mais simples se houvesse um computador para responder o que deve fazer da sua vida, o que será melhor. Mas, essa decisão só depende de você. E está dentro de você – e aparecerá naquele momento de sentir o máximo de alegria possível neste mundo. Como um dos meus autores e mentores favoritos, Parker Palmer, escreveu: “descobrir a vocação não significa lutar em direção a algum prêmio fora do meu alcance, mas aceitar o tesouro do 'verdadeiro eu' que já possui”.

Por isso, defendo que, ao invés de perguntar para as pequenas crianças, ou para si próprio: “o que você quer ser quando crescer?”, deveríamos perguntar, “como você deseja ser quando crescer”. Essa resposta, sim, levaria à formação de um conceito mais justo e menos frustrante de trabalho dos sonhos.