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Vagas.com adota modelo de gestão horizontal e não tem plano de carreira: "Quem cuida da carreira é a pessoa, não a empresa"

Você acorda atrasado já imaginando a cara feia que seu chefe vai fazer quando você chegar. E no final do mês, quando a meta não for atingida, espera a fatídica reunião em que terá que preparar os ouvidos. Por incrível que pareça, existe uma empresa brasileira que não deixa espaço para essas preocupações. Sem chefes, sem cargos e nenhuma meta pré-estabelecida, Vagas.com se consolida com o modelo horizontal de gestão, onde todas as decisões são baseadas no consenso.

A empresa especializada em e-recruitment foi fundada há 16 anos por Mário Kaphan, um dos atuais "funcionários" da empresa. Dono, ele abriu mão da definição de CEO para mostrar que em sua empresa realmente não há cargos. "Ninguém manda!"

Vagas.com está há 16 anos no mercado
Divulgação
Vagas.com está há 16 anos no mercado

A ideia de adotar o modelo não hierárquico não foi consciente, mas uma descoberta. "A gente sempre quis preservar o que a gente chamava de espírito da empresa pequena sem saber direito o que era. Devagarzinho a gente foi entendendo que tinha a ver com o fato das pessoas participarem dos processos decisórios. A gente sacou que era vivência de valores, uma unidade que vivencia valores compartilhados. Vivencia porque é no processo decisório que eles ganham vida."

E é exatamente assim que a empresa funciona, com todo mundo participando de tudo e entrando sempre num consenso. A estrutura tem áreas funcionais (financeiro, RH, tecnologia...) que se dividem em comitês. Cada comitê cuida de um produto da empresa e todos os integrantes são envolvidos no processo em busca do objetivo final. Se no meio do caminho houver discordância sobre qualquer decisão, reuniões acontecem para que o consenso seja alcançado. Enquanto todos os envolvidos não estiverem de acordo, a discussão continua.

Jogo é do convencimento. O prazer de construir ideias cada vez mais fortes, o prazer até de perder uma boa discussão"

Segundo Kaphan, o máximo que durou uma controvérsia (como são chamadas as reuniões para entrar em consenso) foi sete horas. "Não é votação, é consenso. O jogo é o do convencimento mesmo. E aí tem o pressuposto do prazer de construir ideias cada vez mais fortes, do prazer até de perder uma boa discussão. Porque o que importa mesmo é a ideia."

Rotina

Uma empresa sem chefes pode passar a impressão de desorganização ou até mesmo bagunça. Mas se engana quem pensa assim. Neste modelo, todos se envolvem voluntariamente nos projetos e estão cientes da prática aplicada desde o processo de contratação.

Kaphan explica que só entra na empresa quem estiver realmente disposto a participar da estratégia. Os candidatos são testados para determinar se aceitam mesmo vivenciar esse modelo.

"Tem empresa certa para quem gosta do jogo de competição. E não tem nada de errado nisso, mas nós não adotamos esse jogo. Aqui é um lugar onde as pessoas fazem o que querem. Só que todos têm tudo a ver com isso e é o que define os limites para autonomia, para liberdade, para iniciativa."

Ou seja, se o funcionário acordou mal-humorado ou indisposto, pode optar pelo home office contanto que os envolvidos com o seu trabalho concordem. "Ele pode até querer ir ao cinema no horário do expediente, mas todos têm que concordar."

Mário Kaphan, dono da Vagas.com
Divulgação
Mário Kaphan, dono da Vagas.com

Contratação, remuneração e desligamento

Como em todos os processos aplicados na gestão horizontal, a escolha de candidatos para aumentar a equipe e a batida do martelo para demitir um funcionário também são baseadas no consenso. A intenção de contratar ou desligar alguém passa por várias etapas até que o processo seja finalizado. E sempre com o envolvimento de toda a área interessada. Se por acaso alguém de outra área quiser participar, está autorizado.

A ausência de cargos faz com que não exista plano de carreira. "A gente acha que é paternalista. Quem cuida da carreira é a própria pessoa e não a empresa. Consideramos as pessoas como adultos responsáveis que não precisam de cenouras e castigos, que não precisam de planos artificiais de motivação. É automotivação."

Mesmo sem plano de carreira, os melhores funcionários são reconhecidos por meio de um sistema de feedback online. Semestralmente – a ideia é encurtar esse período para quatro meses – os funcionários avaliam seus colegas e fazem autoavaliação. Com base nos resultados, pode haver ou não aumento na remuneração do funcionário.

É a empresa mais feliz do Brasil?

Kaphan sorri e se baseia na última pesquisa de clima que realizou na empresa para responder. O resultado foi de 94% de satisfação entre os funcionários.

"Não é uma empresa com turnover zero e as pessoas não brigando para não serem mandadas embora. Mas claro que é mais prazeroso, qualquer pessoa que entra na empresa sente isso. E cada vez mais. Tem tudo a ver com a nossa visão de um mundo melhor, em que as pessoas podem escolher a melhor empresa para trabalhar e as empresas podem escolher as melhores pessoas para trabalhar com elas. A gente tem conseguido realizar nossos propósitos de uma forma muito melhor que nossas concorrentes.  Até hoje, porque não há garantia nenhuma para o futuro."

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