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China se prepara para ser maior potência do mundo em dez anos

iG percorreu 4.000 quilômetros do país para mostrar como os chineses lidam com o desafio de erguer a maior economia do mundo

Olívia Alonso, enviada especial à China |

Depois de ultrapassar o Japão e se tornar a segunda maior economia do mundo, a China agora se prepara para superar os Estados Unidos. Ao invés de pisar no acelerador, no entanto, o país tem procurado diminuir o ritmo da economia, entre outros motivos, para evitar pressões sociais, como disse ao iG o mais renomado economista da China, David Li.

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Distrito de Wangjing, em Pequim: governo central chinês quer mudar motor da economia
Durante 15 dias, a reportagem do iG viajou quase 4.000 quilômetros, de norte a sul do país, para mostrar como a China tem lidado com o desafio de crescer, ao mesmo tempo em que desacelera. O resultado refletido nas reportagens é que há muita vontade de crescer e quase nenhuma de pisar no freio. Entre as dez cidades visitadas pelo iG, por exemplo, estão Yiwu e Guangzhou, onde funcionam o maior mercado de bugigangas e a maior feira de exportações do mundo. Nelas, há uma China que se move a pleno vapor, que continua dependendo fortemente das exportações, sem qualquer vontade de parar.

O iG também visitou oito grandes empresas chinesas e conversou com seus principais executivos, entre eles, Zong Qinghou, o homem mais rico da China, dono da fabricante de bebidas não alcoólicas Wahaha. O que ele quer? Crescer ainda mais e ficar mais rico. Nesse processo, o Brasil é um dos alvos de expansão.

Olívia Alonso
Rua Nanjing, em Xangai, concentra shoppings de luxo e empresas estrangeiras
No plano econômico para os próximos cinco anos, anunciado pelo governo chinês, o objetivo é reduzir o ritmo de crescimento do país para uma taxa de 7% a 8% ao ano. Nos últimos 30 anos, a alta média do PIB (Produto Interno Bruto) foi de 11% ao ano. Li acredita num avanço de 9% ao ano. “Já são dois pontos percentuais a menos do que o ritmo atual. Menos do que isso, acho pouco provável”, afirma o professor, que recebeu o iG no departamento de finanças da Universidade de Tsinghua, em Pequim, apelidada de “Harvard da China”.

Boa parte dos economistas concorda com as perspectivas de Li. O Fundo Monetário Internacional, que tem a projeção mais ousada, prevê que em 2016 os chineses terão um PIB de US$ 19 trilhões, contra US$ 18,8 trilhões dos norte-americanos. Banco Mundial e Citibank projetam a ultrapassagem para 2020, enquanto o banco de investimentos Goldman Sachs acredita que a China será maior que os EUA em 2027.

Olívia Alonso
Fila para pegar táxi em Wuxi; com 1,3 bilhão de pessoas, China quer aumentar consumo interno
Sinal de que a ultrapassagem está perto são as exportações. Em abril, mês mais recente cujos números estão disponíveis, o superávit comercial chinês foi de US$ 11,4 bilhões. A previsão inicial era quase quatro vezes menor: US$ 3 bilhões. Perto do porto de Xangai, na cidade de Yiwu, onde fica a mãe da 25 de março (a maior rua de comércio do Brasil), pelo menos 20 mil compradores estrangeiros chegam por dia atrás de bijuterias, brinquedos, ferramentas, roupas e utensílios domésticos, entre mais de 300 mil itens que levam para vender em seus países.

Prédios brotam da terra

Outro importante fator de impulsão do país, os investimentos, também não dá sinais de retração. Todos os dias brotam milhares de novos prédios – e novas cidades inteiras –, enquanto os aportes previstos para infraestrutura nos próximos cinco anos superam R$ 3 trilhões. Para melhorar estradas, ferrovias, aeroportos e ter mais casas e energia, os chineses vão investir, porporcionalmente ao PIB, mais de três vezes mais que o Brasil. Em valores absolutos, eles gastarão dez vezes mais, R$ 3,2 trilhões.

Hoje, há pelo menos duas mil cidades em estágio inicial de desenvolvimento no país, cujos administradores nem pensam em crescer menos que dois dígitos ao ano. Wendeng, no nordeste do país, é uma delas. Com 600 mil habitantes, o município está construindo um bairro inteiro para receber estrangeiros.

A cidade não tem grandes redes de supermercado ou hotéis, os moradores não estão acostumados a ver estrangeiros – não é raro pararem ocidentais para tirar fotos – e as placas dos estabelecimentos comerciais não têm versões em inglês. Mas nada disso impede a chegada de investimentos. “Crescemos 15% ao ano e pretendemos avançar ainda mais”, diz o prefeito Andy Cong.

As metas de empresas, tanto privadas como estatais, são igualmente ambiciosas. Enquanto algumas são favorecidas por incentivos do governo, como é o caso da empresa de baterias e automóveis BYD e da exportadora de painéis solares Suntech, outras se animam com o aumento da renda da população – que apesar de ainda não ser visível, vem sendo muito defendido na China – e a intenção do governo de estimular o consumo interno. É o caso da companhia de internet Alibaba e a gigante de bebidas Wahaha.

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Chineses trabalham em construção em Pequim
Dentro das empresas, os funcionários mostram ainda mais a gana de uma China que não quer parar. “Somos 6 milhões de jovens no mercado de trabalho por ano,” diz Cui Yinjing, de 25 anos, analista em uma empresa de consultoria econômica. “Se eu não for melhor que os outros, não terei um bom emprego.”

Yinjing trabalha na Nanjing Road, que concentra os shoppings de luxo e grandes empresas em Xangai. Apesar de não ser de família rica, ela paga 1400 yuan (cerca de R$ 350), cerca de 30% de seu salário, por um cômodo em um apartamento na região para poder trabalhar mais. “Muitas vezes, fico no escritório das 9 da manhã às 2 da manhã”, diz. “Não posso perder mais duas horas de deslocamento até a casa dos meus pais.”

Olívia Alonso
Trabalhadora rural na China; país quer incentivar urbanização para aumentar consumo interno
Numa viagem pela China, ao mesmo tempo em que se vê os maiores consumidores do mundo em produtos de luxo, famílias de áreas rurais vivem com US$ 30 no ano. “O que realmente importa não é quando teremos o maior PIB total, mas sim quando teremos o maior PIB per capita e também a maior produtividade do mundo,” diz Wang Qingyuan, ministro conselheiro da Embaixada chinesa no Brasil.

A missão é difícil. A economia chinesa avança movida a exportações e a investimentos estrangeiros, o que torna o país vulnerável ao cenário externo e aumenta seu endividamento. Além disso, a China depende de recursos naturais importados, o que também faz dela, mais uma vez, refém de condições externas. A mudança, no entanto, não acontece de uma hora para outra. Para Craig Bond, presidente do banco Standard Bank na China, é muito difícil mudar o motor de crescimento do país depois de ter se tornado “a fábrica do mundo”.

Além dos altos seus volumes de exportações, os salários crescem num ritmo lento, graças à abundância de mão-de-obra. Sem dinheiro extra para gastar, o consumo não decola a ponto de aquecer substancialmente o mercado doméstico.

Nova matriz energética

Outra meta do governo é a redução da participação de combustíveis fósseis em sua matriz energética. Depois de ter crescido por mais de 30 anos utilizando o carvão como 70% de sua fonte de energia, agora a China quer se livrar do rótulo de maior poluidor do mundo.

Apesar de o governo já ter anunciado pesados investimentos em tecnologias limpas – e desbancando os Estados Unidos como maior investidor do mundo em energias renováveis no ano passado – a missão poderá esbarrar em resistências, principalmente de companhias que relutam em diminuir o uso de combustíveis fósseis, em geral, mais baratos.

Por enquanto, as transformações pretendidas pelo país não são visíveis. Mas economistas afirmam que as intenções indicam que a China está atenta e sabe priorizar suas metas. Cabe ao novo governo, que assumirá o país em 2012, controlar as rédeas desse gigante para chegar ao topo do mundo e se sustentar por lá.

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Elevados em Xangai; China se prepara para ser maior potência do mundo

 

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