BBom vende mais rastreadores do que consegue entregar, diz procuradora

Por Vitor Sorano - iG São Paulo | - Atualizada às

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Situação é indício de que empresa é pirâmide financeira, segundo Mariane Guimarães

Divulgação
Luxo: Mercedes, um dos prêmios aos maiores revendedores da BBom; empresa é insustentável, entende MPF

A BBom  tem vendido mais rastreadores do que pode entregar – um indício de que a empresa é uma pirâmide financeira, entende a procuradora da República em Goiás, Mariane Guimarães.

"Encontramos muita gente reclamando que não recebeu os rastreadores", afirma a procuradora. "No Reclame Aqui [site de queixas de consumidores] há 1.200 reclamações." 

A empresa nega irregularidades.

A BBom foi criada em fevereiro passado para ser o braço de marketing multinível da Embrasystem, que atua no mercado de monitoramento de veículos. Desde então, atraiu cerca de 300 mil revendedores, chamados de associados, que pagam taxas de R$ 600 a R$ 3 mil.

A promessa é de lucros expressivos. Em maio, um casal de associados foi premiado com um Lamborghini.

A remuneração é feita de acordo com as vendas de assinaturas do serviço de monitoramento, e o rastreador é cedido em regime de comodato. Além disso, há bônus para quem traz mais revendedores para a rede. Em entrevista ao iG no dia 10 de julho, o dono da Embrasystem, João Francisco de Paulo, afirmou que a empresa habilitava de 5 mil a 10 mil aparelhos por dia. 

Para o Ministério Público Federal em Goiás e o Ministério Público do Estado (MP-GO), entretanto, a BBom tem se sustentado com as taxas de adesão paga pelos associados, e não com a receita dos rastreadores.

Com esse argumento, os procuradores e promotores conseguiram que a 4ª Vara Federal de Goiânia bloqueasse as contas da empresa em 10 de julho, num total de R$ 300 milhões, e a entrada de novos associados no dia 16. A cobrança de mensalidades também foi suspensa.

'A maioria não tem interesse no rastreador'

"Muita gente compra o pacote de olho no lucro fácil. A maioria não tem interesse no rastreador", diz Mariane, do MPF-GO. "O produto mesmo nem era repassado [ao consumidor final]."

A procuradora da República argumenta ainda que o serviço de rastreamento da BBom não é competitivo, por ter mensalidades muito superiores às praticadas no mercado. "As seguradoras de veículos já oferecem esse serviço gratuitamente", diz ela.

Mariane disse também ter dúvidas sobre a capacidade de os fornecedores da BBom atenderem à demanda de rastreadores feita pela empresa.

"[Representantes da BBom] disseram-nos que o fornecedor fabrica 50 mil rastreadores por dia, mas ela faz 50 mil por mês. Oficiamos a fornecedora e acreditamos que ela não tem capacidade."

Procurada pela reportagem, a BBom informou que tem já vendeu 1,25 milhão de rastreadores, dos quais 30 mil foram entregues, 70 mil estão em estoque e 145 mil estão "em trânsito".

"O restante será entregue seguindo a previsão de entrega dos fornecedores. Todos esses dados estão seguindo uma programação de entrega de acordo com a data de solicitação do rastreador pelo associado", informou em nota.

Febre das pirâmides

A BBom é a segunda empresa a ter as atividades bloqueadas pela Justiça neste ano por suspeita de ser uma pirâmide financeira. A primeira foi a Telexfree, que se apresenta como fornecedora de pacotes de telefonia por internet (VoIP) vendidos também via marketing multinível. 

Uma força-tarefa composta de promotores e procuradores da República investiga outras 16 empresas com atuação semelhante em todo o País. Entre elas estão Multiclick, Cidiz, Nnex, Priples. Segundo José Augusto Peres, do MInistério Público do Rio Grande do Norte (MP-RN) uma listagem de 33 negócios serão avaliados.

A Nnex não retornou os contatos feitos pela reportagem. Os responsáveis pela Priples e pela Multiclick não foram localizados. A Cidiz nega irregularidades.

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