Tamanho do texto

Companhia é investigada por esquema envolvendo o Ministério da Saúde em 2010; entenda o caso e confira detalhes da denúncia do ex-funcionário aqui

Philips arrow-options
Wikimedia Commons
Philips demitiu funcionário que denunciou corrupção na empresa

A Philips, gigante holandesa da área de saúde que é investigada no Brasil e nos Estados Unidos, foi informada sobre vendas suspeitas de seus equipamentos médicos ao governo brasileiro e não as impediu, quase uma década antes de um suposto esquema de corrupção nas operações da empresa exposto no ano passado. As informações são da Reuters .

José Israel Masiero Filho, ex-executivo da cadeia de suprimentos da Dixtal Biomédica Indústria e Comércio Ltda., que denunciou o escandâ-lo, foi demitido pela empresa e falou com exclusividade à Reuters . O ex-funcionário teria avisado seus superiores do esquema suspeito antes da demissão.

Leia também: Governo anuncia hoje a privatização dos Correios e de outras 16 empresas

As alegações de condutas ilegais dentro da Philips alcançaram os mais altos níveis do grupo em 2010, de acordo com registros judiciais que foram apresentados por promotores federais e ainda os documentos internos da empresa.

De acordo com o ex-funcionário, em janeiro de 2010 foram detectadas irregularidades em três acordos de vendas de equipamentos da Philips e da Dixtal a um intermediário brasileiro que conseguiu grandes contratos com o Ministério da Saúde .

Segundo Masiero, teriam sido feitos pagamentos de suborno para garantir o negócio com o governo. Essas alegações feitas pelo ex-funcionário são o centro de uma investigação sobre subornos no Brasil que envolvem o governo e a Philips.

Em 2010, Masiero enviou um e-mail a uma linha direta da empresa para relatar suas suspeitas, alertando ao menos três outros executivos seniores; entre eles, estava Steve Rusckowski, ex-presidente-executivo da Philips Healthcare, maior divisão da empresa. Os avisos do ex-funcionário foram detalhados em e-mails, memorandos internos da empresa e também em registros judiciais vistos aos quais a Reuters teve acesso.

"A Philips deve considerar que, ao aprovar e aceitar essas vendas, estará envolvida em atividades ilegais, se isso for descoberto", escreveu Masiero a Rusckowski em um e-mail em 14 de outubro de 2010.

Mesmo após o aviso, segundo as faturas, a empresa, conhecida formalmente como Koninklijke Philips, continuou a vender para o intermediário brasileiro para cumprir os contratos do Ministério da Saúde.

Leia também: "Não será a nova Previdência que vai gerar emprego e renda", admite secretário

As denúncias de Masiero, ex-funcionário da Philips

Contratado em 2006 como gerente de exportação da Dixtal, comprada pela Philips em 2008, Masiero tinha a responsabilidade de ser o principal executivo de logística e cadeia de fornecimento da companhia de dispositivos médicos.

No início de 2010, notou possíveis irregularidades em três contratos com o Ministério da Saúde. Segundo os registros do governo, os acordos, que envolviam 750 desfibriladores e um total de 3.972 monitores de sinais vitais, tinham o valor total de R$ 68,9 milhões. O ex-gerente estranhou o fato de a Philips não brigar diretamente por um negócio tão rentável. À época, os contratos foram conquistados pela pouco pequena empresa  Rizzi Comércio e Representações Ltda .

Encarregado de levar o equipamento para a Rizzi Comércio, Masiero ficou surpreso ao notar que o endereço de cobrança para uma compra tão grande era uma pequena loja com tinta roxa descascada em São Paulo. "Foi uma bandeira vermelha imediata para mim", relatou à Reuters .

Segundo ele, o Ministério da Saúde estava pagando bem acima dos preços de mercado pelos equipamentos. Em 12 de fevereiro de 2010, por exemplo, Masiero supostamente recebeu um e-mail de um executivo de vendas da Philips, Frederik Knudsen, que o orientava a entregar o primeiro carregamento de 60 desfibriladores à Rizzi Comércio. Segundo correspondência incluída nos registros, a empresa remarcou os preços desses dispositivos em mais 67%.

“O valor que deve estar na ordem é o que foi acordado com o Ministério da Saúde [US$ 16.700 por unidade] e não o valor pelo qual vendemos à Rizzi [US$ 9.991]”, diz o e-mail atribuído a Knudsen visto pela Reuters .

Após novas trocas de e-mails e questionamentos às práticas da empresa, Masiero foi transferido de Dixtal para um posto logístico da Philips em São Paulo, um movimento considerado por ele como um rebaixamento e um esforço para silenciá-lo. Segundo as faturas, as remessas de equipamentos supostamente superfaturados continuaram. Atualmente desempregado, ele diz ter sido "colocado na lista negra no Brasil".

Leia também: Minirreforma trabalhista: Senado vota MP da liberdade econômica nesta quarta

A Philips informa à Reuters que coopera com as autoridades brasileiras que investigam a indústria de equipamentos médicos no País, e diz ainda ter iniciado, em 2010, uma investigação interna a uma "denúncia anônima". A empresa não discutiu as causas para a demissão de Masiero. O Ministério da Saúde não se pronunciou sobre as denúncias.