Werner Roger
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Werner Roger

Observando o comportamento do mercado desde o segundo trimestre de 2021, e em especial no período entre outubro e janeiro deste ano, onde investidores estrangeiros colocam a bolsa brasileira como uma das mais baratas do mundo e se fartam nas compras das ações brasileiras e investidores locais jogam para baixo os nossos preços, não pude evitar a lembrança da famosa marchinha de Carnaval que adaptei para: Ei, você aí! Me dá uma ação aí?

A canção “Me Dá Um Dinheiro” composta em 1959 pelos irmãos Homero, Glauco e Ivan Ferreira, foi gravada pelo humorista e cantor Moacyr Franco, pelo selo Copacabana, no mesmo ano, e teve sua origem no programa de TV “Rio, Te Adoro”. Num quadro humorístico escrito por Glauco Ferreira, o ator Iran Lima comentava com a esposa o fato de muitos mendigos estarem pedindo esmolas na rua. A esposa comenta que isso era um exagero. Mas, ao abrir a porta de um armário, o marido encontra Moacyr Franco, que interpretava o Mendigo, um dos personagens que o fizeram famoso – e então dispara o bordão: “Ei, voce aí, me dá um dinheiro aí?”. O público vinha abaixo em gargalhadas. A marchinha inspirada nesse quadro tornou-se a mais tocada no carnaval de 1960 e até hoje embala nossos salões e festas de Carnaval.

Mas, o que a marchinha tem a ver com o mercado financeiro? Deixe-me explicar, atualmente os investidores estrangeiros, instigados pelas principais corretoras de valores norte-americanas – têm sim colocado a bolsa brasileira como uma das mais baratas do mundo (talvez a mais descontada), e se fartado de comprar nossas ações. Enquanto isso, investidores locais (principalmente institucionais e pessoas físicas) alimentam os “mendigos” com “esmolas” – ações com preços que mais parecem aquele trocado que não nos faz falta – enquanto correm para a segurança da renda fixa. Mas fica aqui o alerta: o tiro pode sair pela culatra.

Em algum momento, as taxas de juros deverão reverter a alta, e já se vê que o cenário aponta para uma inclinação mínima. Para os estrangeiros, nossa taxa de juros pouco importa: só ficam de olho em que, quando vierem a cair, o PIB deverá sentir reflexo positivo e crescer – e eis aí um dos principais motivadores para investimentos e alocação nos diversos mercados. O Brasil, segmentado em mercados emergentes e América Latina, é visto como país com economia e muitas empresas ligadas a commodities, além de ter um pujante agronegócio (também ligado a elas). É ainda um mercado com boa liquidez nas “blue chips”, facilitando a alocação do smart money – aquele dinheiro que se move rapidamente, ágil e arisco como um gato selvagem e que, logo que pressente o perigo, corre até achar paragens mais seguras.

A queda nos juros e o aumento dos preços das commodities são fatores positivos nos lucros das empresas. Também fortalecem a balança comercial e as reservas cambiais. Assim, petróleo, minério, produtos siderúrgicos, grãos, açúcar, café e algodão mais caros, entre muitos outros exemplos, representam certo hedge contra a inflação mundial. Normalmente, quando commodities sobem de preço e as exportações aumentam, as moedas dos países emergentes dependentes desses itens em suas pautas de exportação tendem a se valorizar frente ao dólar. O investidor estrangeiro se beneficia então com um duplo alfa: ganha com a alta das ações e com o fortalecimento das moedas.

Quanto maiores os preços dos produtos citados e da energia, o Brasil se beneficia indiretamente: afinal, as taxas de juros não têm o poder de impactar os preços globais da energia (exceto em caso de forte elevação, cujo resultado seria retração geral da economia e recessão). Os bancos centrais, com as economias dos países ainda cambaleantes e ainda em ambiente pandêmico, têm o desafio de ou elevar os juros e desaquecer a economia, ou deixar a inflação se acomodar. Eis aí uma decisão nada confortável a ser tomada. Estão entre a cruz e a espada.

Na Trígono Capital, gestora que sou sócio e cofundador, nosso posicionamento é muito semelhante ao dos estrangeiros. Mas estes, enquanto buscam ações mais líquidas – como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), que em janeiro subiram 13,7% e 3,7% respectivamente, ante 7% do IBOV –, temos em nossas carteiras empresas afins (relacionadas a energia e mineração) que tiveram comportamento muito aquém e até negativo – caso de São Martinho (SMTO3), com ganho de 6,7%; e Ferbasa (FESA4), com queda de 4,7%.

O que queremos explicar com isso é o seguinte:

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  • No momento, investidores estrangeiros buscam se posicionar rapidamente em países como o Brasil, independente dos fundamentos das empresas – o que faz com que aquelas de menor liquidez ou pouco acompanhadas pelo mercado fiquem esquecidas.
  • Uma vez investidos no país, e acreditando nas perspectivas econômicas, eles refinam suas carteiras e realizam lucros nos papéis mais líquidos, e aí procuram as “barganhas” – neste caso, as small caps. Esse passo poderá coincidir com a divulgação dos resultados do 4T21, ou de 2021 como um todo, e o 1T22 e 2T22 – que deverão apontar qual a dinâmica setorial e das empresas para os trimestres seguintes. O período será entre a segunda quinzena de fevereiro e passando pela primeira quinzena de maio e de agosto, quando se reportam os resultados do primeiro trimestre e semestre.

Chamo também a atenção para a estratégia de investidores locais, tanto pessoas físicas e Family offices como institucionais, de diversificarem suas carteiras, relegando nosso mercado de renda variável em favor de bolsas estrangeiras e dólar. Em janeiro, essa tática foi desastrosa.

Enquanto o IBOV se valorizou 7%, o S&P500 perdeu 5,3% e a NASDAQ afundou 9%. Além disso, o Real se valorizou 4,9% no mês, somando-se à perda cambial com investimentos no exterior. Já o investidor estrangeiro ganhou com a nossa bolsa e o câmbio. Tais perdas, dependendo da alocação no exterior, poderão corroer grande parte dos ganhos em renda fixa, além da perda de oportunidade pela subalocação no mercado de renda variável no Brasil. Temos só janeiro, por enquanto, como base concreta, mas o que levaria a achar que tal movimento será muito diferente daqui para frente? As expectativas da alta de juros pelo Fed são amplamente conhecidas e precificadas, já espelhadas pela queda dos principais índices na terra do Tio Sam.

Chamamos a atenção também para a crença (ou mito?) em que, nos EUA, aumento de juros derruba bolsas. Sentença que não é verdadeira. Num primeiro momento, pode haver alguma correção, como se viu em janeiro antes mesmo da taxa subir – o que já era de pleno conhecimento do mercado (as dúvidas sendo apenas a velocidade e intensidade). A imagem a seguir ilustra que juros e bolsa norte-americana (no índice S&P 500) caminham relativamente na mesma direção. Além disso, as taxas de juros vêm apresentando uma trajetória declinante no longo prazo – mas precisamente desde o início da década de 80, passando por ajustes pontuais:

Desta forma, investidores institucionais e indivíduos que buscam constituir um patrimônio para aposentadoria, buscam a renda variável – que proporcionou (mais uma vez, no índice S&P 500) um retorno de 5,4% ao ano em relação à inflação nos EUA, num período de 50 anos (para quem começou uma poupança bem jovem), ou 7,3% num período de 30 anos. A razão disso está no próprio crescimento da economia, associado ao crescimento dos lucros: as empresas repassam os custos inflacionários, os dividendos retornam aos investidores, que são então reinvestidos, gerando o efeito de capitalização com a compra de mais ações, que geram mais dividendos e assim por diante. Também as empresas recompram suas próprias ações, aumentando o lucro por ação e, como consequência, os dividendos por ação, fortalecendo ainda mais o retorno proporcionado pelos dividendos e a renda que estes proporcionam.

A queda dos juros decorre da necessidade de estimular a economia por diversos motivos – por exemplo, a crise de 2008, quando se viu a última forte queda dos juros. Por outro lado, os juros sobem devido à inflação – associada ao repasse de custos pelas empresas. Líquido e certo é que os juros terão pouco impacto nas principais causas da inflação, como as altas de energia e commodities e a quebra das cadeias de produção.

Na outra ponta, as limitações para financiar as produções de petróleo e de alguns bens minerais considerados poluentes acabam por provocar problemas na oferta deste produtos. Além disso, os custos de insumos utilizados na agricultura – combustíveis, fertilizantes, defensivos e logística, por exemplo – pressionam os preços dos alimentos (sem contar as intempéries climáticas, que têm o mesmo efeito). Desta forma, acreditamos que os juros de EUA e Europa ficarão abaixo da inflação por um longo período e que um choque de juros seria problemático: as economias ainda se recuperam da pandemia, e o impacto nas principais fontes da inflação (energia e materiais) seria pequeno. Para lembrar: o que há não é uma inflação de demanda, mas sim um choque de oferta, relacionado à quebra de cadeias produção. Também há o “fator ESG” – questões ambientais principalmente, que pressionam custos e limitam a oferta das commodities.

A perseguição, por parte de quase todas as nações e empresas, da ideia de descarbonização também deverá ter efeitos na inflação. Como substituir a energia fóssil? Quais os custos envolvidos? De onde virão matérias-primas e equipamentos? A “nova normalidade” (com a licença para usar uma expressão um tanto desgastada em um mundo pós-covid-19) do ESG, apenas reforçando, será um complicador, com a pressão que vai exercer sobre suprimento e investimentos em energias e combustíveis que não encontram ainda substitutos na mesma velocidade do descomissionamento da produção. Além de demandas já presentes, como o crescimento demográfico e de renda, especialmente em países asiáticos, que intensificam a demanda mundial por energia, turbinado pelo crescimento do PIB per capita, associado ao maior consumo por habitante. Um fato é certo: trilhões de dólares serão investidos e alguém terá que pagar esse custo. A população de menor renda certamente sentirá o maior peso desse encargo. Então, fica o alerta: Ei, você aí...

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