A blockchain, assim como a bitcoin, é um fenômeno no mundo moderno. Não por acaso: a blockchain é, provavelmente, uma das criações mais revolucionárias do nosso tempo. Ela é capaz de não apenas criar, mas melhorar muitos serviços que temos acesso hoje.

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Para entender essa ideia melhor, imagine a seguinte situação:

Você está vivendo em Honduras, país da América Central. Você vive uma vida modesta, e os bens que você tem foram todos conquistados com muito esforço. De todos eles, você dá um valor especial à sua casa, da qual você construiu do zero e que hoje está toda mobiliada. A sua casa é o símbolo do seu esforço, e a prova de que tudo valeu a pena.

Eis que, em uma série de acontecimentos, Honduras passa a viver sob um regime de ditadura. Você acha que não há nada “demais” nisso, até que o novo ditador olha para a sua casa e simplesmente decide que a sua casa, a partir de agora, é a casa dos camaradas dele, e não mais a sua.

Agora você precisa escolher entre a sua vida, ou a sua casa. O que você faz?

Essa história pode até parecer um absurdo, ou uma história que dificilmente aconteceria na realidade. Mas aconteceu - e muito - na América Central.

Temos diversos exemplos ao redor do mundo em que ditadores assumiram o poder em seus países e, por pura vontade própria, decidiram que muitas casas, das quais pertenciam a outras pessoas, eram de outras pessoas aliadas a ele.

Numa situação como essa, não havia muito o que fazer. Como os cartórios eram - e ainda são - controlados pelo governo, uma vez com um ditador no poder, a garantia que um cartório dava de nada servia às pessoas detentoras dos imóveis. Basicamente, não havia nenhuma alternativa à elas de encontrar uma solução, pois quem estava contra elas era justamente quem lhes prometia segurança.

Mas uma alternativa surgiu, e surgiu justamente com a blockchain.

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E como quem está começando a entrar nessa onda de bitcoin pouco conhece sobre a chamada blockchain, estarei, primeiramente, explicando a vocês o que ela é.

O que é a blockchain?

A blockchain é como se fosse a tecnologia “por trás” do bitcoin. Ela é um livro razão das operações feitas em bitcoin, onde todas as transações feitas com a moeda são validadas e registradas. Basicamente, se eu faço uma transação em bitcoin, essa transação é registrada, justamente, na blockchain.

Os bancos também fazem estes registros em seus próprios livros razões, mas, no caso da bitcoin e de outras criptomoedas que usam blockchains, esses registros são feitos pelos chamados “mineradores”. E como todo mundo pode ser um minerador, temos que os registros na blockchain são feitos de formas descentralizadas.

Só que a blockchain tem outra característica que a difere de todos os livros razões dos bancos nos dias de hoje, e isso se dá no processo de registro e validação.

Enquanto no banco os registros e as validações que são feitos não dependem um do outro e passam por processos internos do banco, na blockchain toda transação é inserida em um “bloco”, e essa transação entra na blockchain com uma referência ao bloco registrado anteriormente a ela. Por isso ela é chamada de blockchain (corrente de blocos), todos os blocos que entram tem referências aos blocos anteriores registrados na blockchain, formando uma corrente de blocos.

Essa ideia traz segurança ao modelo da blockchain, pois essa referência faz com que, caso alguém tente fraudar uma operação feita na bitcoin, ele tem que fraudar não somente o bloco onde a operação está inserida, mas também todos os blocos subsequentes a ela. Algo computacionalmente impossível.

Beleza, mas por que raios isso ia proteger a minha casa?

Bom ,mesmo sendo na bitcoin um grande “livro” onde são registradas as operações feitas em bitcoin, isso não significa que ela só é capaz de registrar operações financeiras. Na realidade, ela pode ir além, e servir como uma espécie de cartório. Ou seja, servir como um lugar onde você pode registrar bens seus em seu nome.

É aí que entramos num ponto bacana. Como eu disse anteriormente, o funcionamento da blockchain impossibilita, na massiva maioria dos casos, em que haja alteração nas transações feitas em bitcoin, por conta da forma como os registros são feitos: cada “bloco” na blockchain é ligado com o bloco anterior, e uma alteração em 1 bloco necessita que haja a alteração em todos os blocos subsequentes - em resumo, é computacionalmente inviável que seja feita uma coisa dessas.

E, se aplicarmos essa mesma ideia para uma blockchain pautada apenas em registro de bens, ela impossibilita também que haja uma violação nos dados referentes a estes bens

Para você ter uma ideia no poder disso, vamos imaginar isso acontecendo no mesmo exemplo que eu dei no começo do artigo, ok?

Você tem uma casa e um ditador vai lá e toma essa casa de você.

Se você tivesse a casa registrada em um cartório, feito da forma tradicional, ela seria uma segurança válida?

Não exatamente. Porque veja, quem está tomando o imóvel de você tem o poder de influenciar também o cartório de registro.

O ditador poderia simplesmente dar um fim no seu registro e pronto, acabou a história. Você não conseguiria comprovar depois que o imóvel é seu.

Agora, com o blockchain, a história é diferente. Mesmo se o cara tivesse o melhor e mais rápido computador do mundo, ele dificilmente conseguiria tal feito. Para ele, seria impossível alterar o registro apenas por querer.

Isso, claro, depende também da quantidade de “registros” que há na blockchain, já que uma maior quantidade de registros torna cada vez mais difícil a fraude. Mas veja que, se isso fosse aplicado e fizesse sucesso, já impossibilitaria muitas ações que teriam o fim de roubar um objeto seu.

E claro, é importante dizer também que, mesmo que o cartório e a blockchain hoje sejam separados, isso pode mudar no futuro.

Muitos governos no mundo - inclusive o governo brasileiro - estão estudando formas e usos da blockchain. Quem sabe num futuro próximo o próprio governo brasileiro não esteja incrementando essa ideia nos cartórios brasileiros?

Iria, com toda certeza, evitar muita burocracia e um monte de papelada, além de ser, indiscutivelmente, muito mais seguro à população.

É até engraçado, pois muitos de nós acaba, naturalmente, separando essas ideias e transformando a bitcoin e a blockchain, em si, em inimigas do governo. Mas, mais do que nunca, os governos têm demonstrado um interesse enorme nessa ideia.

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No final das contas, o que hoje tem a cara de ser um combate mortal, muito provavelmente no futuro dará uma amizade. Que pode não ser interessante para muita gente que odeia o governo, mas que, querendo ou não, trará um pouco mais de facilidade aos sistemas e controles internos governamentais.

E sinceramente, não acredito que isso deva ser encarado como algo terrivelmente ruim. Blockchain e o governo devem estar juntos se a proposta benefícia a população.


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