
Durante décadas, o debate sobre o Rio Tietê concentrou-se no trecho que atravessa a Região Metropolitana de São Paulo. A expectativa era de que, distante da capital, o rio recuperasse parte de sua qualidade.
Um estudo inédito apresentado pela deputada Marina Helou (PSB), na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), no entanto, derruba essa percepção. Pela primeira vez, uma expedição percorreu toda a extensão do Tietê e concluiu que não existe mais nenhum trecho completamente livre de contaminação.
O levantamento, realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com cinco universidades, encontrou microplásticos em todos os pontos analisados, além de agrotóxicos, metais, fármacos e drogas ilícitas distribuídos ao longo dos mais de 1.100 quilômetros do rio.
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O trabalho também identificou concentrações de cobre acima dos limites legais em todos os pontos monitorados, revelando um panorama muito mais complexo do que a poluição historicamente associada às áreas urbanas.
Em entrevista a esta coluna, Marina Helou explicou que uma das principais motivações para apoiar a pesquisa foi a ausência de um retrato completo sobre o principal rio paulista.
"A gente tinha bastante informação concentrada na região da capital e na nascente, mas não tinha dados sobre o rio como um todo. A partir deste estudo, conseguimos acompanhar coletas em toda a sua extensão e entender que rio é esse. Infelizmente, os resultados são bastante alarmantes."
Segundo a deputada, o diagnóstico também amplia a compreensão sobre as fontes de contaminação. Se antes o problema era frequentemente associado ao lançamento de esgoto nas áreas urbanas, o levantamento evidencia que a degradação acompanha praticamente todo o curso do rio.
"Não só não existe mais nenhum trecho sem contaminação, como encontramos outras fontes importantes, principalmente relacionadas aos agrotóxicos e aos microplásticos. Isso mostra que precisamos olhar para o rio de forma integrada."
Segurança hídrica
Os impactos vão muito além da qualidade da água. A presença de contaminantes compromete a biodiversidade, reduz a fauna aquática, afeta a mata ciliar e amplia riscos para o abastecimento humano, especialmente em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos.
Na avaliação de Marina Helou, a recuperação do Tietê precisa deixar de ser tratada apenas como uma agenda ambiental.
"Quando falamos de segurança hídrica, estamos falando também da vida humana. A água contaminada prejudica a biodiversidade, compromete os ecossistemas e coloca em risco o abastecimento das pessoas."
Após a apresentação do levantamento, a Frente Parlamentar Ambientalista encaminhou o estudo à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e à CETESB, solicitando a construção de um plano de ações a partir das evidências levantadas pelos pesquisadores.
A intenção também é que o monitoramento seja repetido periodicamente, permitindo acompanhar a evolução da qualidade da água e avaliar a efetividade das políticas públicas.