Produção de erva mate é alternativa viável para áreas de reserva ambiental.
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Produção de erva mate é alternativa viável para áreas de reserva ambiental.

Em qualquer lugar em que se encontre alguém sugando a bomba de uma cuia logo se imagina que se trata de um gaúcho tomando seu chimarrão , bebida composta de erva-mate moída e água a aproximadamente 70 graus centígrados.

Para garantir que esta cultura seja perene existe atualmente, só no Rio Grande do Sul, ao redor de 15 mil famílias produzindo erva-mate, em uma área de mais ou menos 30 mil hectares.

O chimarrão é característico do sul da América do Sul, um legado das culturas indígenas. Pedro José Schwengber, diretor-executivo do Instituto Escola do Chimarrão da cidade de Venâncio Aires–RS, conta que o primeiro contato do homem branco com o chimarrão foi há mais de 500 anos , onde está situado o estado do Paraná, que hoje, além de ser o maior produtor brasileiro, é o estado produz a melhor erva-mate do mundo.

Ele explica que a erva-mate é cultivada na região que abrange uma ponta do Paraguai, em um pedaço do Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e na Argentina.

A Argentina é o maior produtor mundial de erva-mate e não tem nenhum pé nativo da erva. Já o maior consumidor per capita é o Uruguai, que não tem nenhum pé de erva-mate plantado.

Quem incentiva o consumo da erva-mate por chimarrão e seus derivados é o Ibramate - Instituto Brasileiro do Mate, instituição que representa toda a cadeia produtiva, desde as pesquisas, produção da muda, da matéria-prima, até a indústria.

Alberto Tomelero, presidente do Ibramate confirma que o Paraná produz mais de 40% do total nacional, o Rio Grande do Sul 30% e o restante entre Santa Catarina e Mato Grosso, que produz pouco, porque utiliza apenas uma região próxima ao Paraguai.

Tomelero explica que o cultivo da erva-mate é mais indicado para a agricultura familiar . “A cultura da erva-mate, como ela ocupa muita mão de obra, é mais indicada para a agricultura familiar. A renda compensa desde que a família do produtor possa fazer todo o processo, da produção da matéria prima, colheita e entrega para a indústria”. Segundo ele a erva-mate é uma cultura permanente.

Depois do plantio das mudas, o primeiro resultado econômico começa a partir do terceiro ano. A colheita se faz de dois em dois anos, mas o auge da produção. “Mas começa a dar seu melhor resultado econômico, em média, a partir do sétimo ano.  Quando a erva é sombreada, protegida pela natureza, ela demora um pouco mais para produzir a folha. Nesse caso a colheita se dá a cada três anos. Mas na lavoura plantada a céu aberto a colheita é de dois em dois anos”, explica.

As reservas naturais são os locais mais apropriados para o cultivo da erva-mate , pois ela fica protegida dos pesticidas. “Ela não pode estar muito perto das lavouras de grãos que usam uma carga pesada de pesticida. A erva-mate está sendo remanejada para as áreas de floresta, e a cultura está sendo consorciada com as áreas de reserva permanente”.

A legislação sobre o meio ambiente permite que sejam consorciadas culturas permanentes que tenham colheita temporária. Tomelero explica que nas reservas ambientais obtém-se um produto mais puro, livre de pesticidas, mais saboroso e mais verde. “Para o chimarrão a erva tem que ser muito verde. Esse é o local mais indicado para isso”.

Propriedades

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A erva-mate tem consumo crescente no Brasil e em todo o mundo devido às suas propriedades terapêuticas . Alberto Tomelero informa que pesquisas já constaram seus benefícios para a saúde humana. “É a árvore mais completa, reconhecida como erva milagrosa, descoberta jesuítas, quando só os caciques podiam consumir. Hoje o setor ervateiro tem o desafio de ensinar as pessoas a consumir a erva, difundindo seus benefícios”.

Ele informa que a Síria é o maior consumidor da erva-mate produzida no Brasil e é o quarto maior consumidor mundial de erva-mate. “Temos um espaço muito grande. Os sírios vieram viver no Brasil em uma região que tinha a erva. Aprenderam a consumir, adquiriram o hábito e levaram para lá”. Ele diz que existem grandes empresas da Síria, que em parceria com os argentinos e brasileiros levam a erva-mate para lá. “A erva-mate tem espaço para crescer muito em todo o mundo”, afirma.

Tradição

Um dos objetivos da Escola do Chimarrão é fazer o resgate da cultura da erva-mate. Pedro José Schwengber, da Escola do Chimarrão diz que antes mesmo de existir a palavra Brasil os índios já tomavam o chá.

“O chimarrão aproxima, harmoniza os ambientes, por isso exploramos bastante o aspecto social este lado social do chimarrão. Também divulgamos as propriedades medicinais da erva-mate, a planta mais completa do planeta em termos nutricionais e medicinais”. Ele informa que em 1964, os franceses, que mais estudam erva-mate a denominaram de “árvore da vida”.

Schwengber diz que a erva-mate tem praticamente todas as vitaminas necessárias ao organismo, como a vitamina A, B1, B2, B6, vitamina C, vitamina E, sais minerais como ferro, fósforo, cálcio, potássio, manganês.

“Também tem os anti-oxidantes encontrados no vinho. Estudos da Universidade Estadual da Califórnia, demonstram que a erva-mate tem flavonóides duas vezes mais potentes que o do vinho”. Diz ainda que a erva-mate controla o colesterol, os triglicérides, o ácido úrico, glicemia, ajuda na recomposição óssea, a prevenir o Parkinson, Alzheimer. “A erva-mate tem muitos benefícios para a saúde”, afirma.

A Escola do Chimarrão também divulga as propriedades medicinais da erva-mate visando ampliar o consumo. “Divulgamos porque o mundo não toma chimarrão, o mundo toma café e aí entra a importância da Escola de Chimarrão que é mostrar esse benefício que o chá traz à saúde”, afirma.

O café , diz, é consumido há menos de 300 anos, mas o mundo toma café que é a segunda commodity mais negociada do planeta, perdendo só para o petróleo. “Mas o café é melhor? Se tirarmos o açúcar ele vai se tornar amargo como é o chimarrão.

Em termos de benefícios o café é bom, mas não se compara com a erva-mate. O chimarrão pode ser tomado todos os dias e o dia todo, porque não tem contra-indicação”. Ele acredita que o café é mais consumido porque o setor produtivo é mais organizado que o ervateiro.

“Se você perguntar para as pessoas no Rio Grande do Sul porque tomam chimarrão elas não saberão lhe responder. Vão dizer que é porque gostam, que aprenderam com os pais, avós, isso é máximo que se chega. Falta conhecimento, tomam por hábito e por tradição”, conclui.

* com produção e texto de Denis Deli e Luiz Voltolini

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