Embora o cenário econômico dos Estados Unidos esteja apresentando apenas uma desaceleração, e não uma recessão, ele ainda lança sombras sobre o Brasil
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Embora o cenário econômico dos Estados Unidos esteja apresentando apenas uma desaceleração, e não uma recessão, ele ainda lança sombras sobre o Brasil



A partir de  22 de julho, o Brasil passará a ter a maior tarifa de importação aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul. Mas por que justamente o Brasil entrou na mira do novo tarifaço anunciado por Donald Trump?

A medida foi tomada após uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que apontou supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais às relações comerciais entre os dois países.

Entre os temas citados estão o Pix, o comércio de etanol, o combate ao desmatamento e a propriedade intelectual. Apesar disso,  produtos estratégicos para a economia americana, como petróleo, café, carne bovina, aviões e celulose, ficaram de fora das novas tarifas.

O governo brasileiro, por sua vez, rebate as críticas.  Dados divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), afirma que a relação comercial entre os dois países é historicamente favorável aos Estados Unidos e defende que medidas como o Pix, a política ambiental e as regras adotadas pelo Brasil estão em conformidade com as normas internacionais.

Segundo levantamento do Global Trade Alert (GTA), iniciativa do St. Gallen Endowment, centro de estudos independente da Suíça que monitora o comércio internacional, o Brasil divide atualmente a posição com o Uruguai, ambos com tarifa efetiva média de 11,66%, atrás apenas do Paraguai, com 12,92%. Com a entrada em vigor das novas medidas, no entanto, o país passará a liderar esse ranking na América do Sul.

De acordo com o GTA, a tarifa média aplicada aos produtos brasileiros será de 18,17%. O percentual é inferior aos 25% anunciados por Trump porque considera o peso de cada item exportado e as exceções previstas nas novas regras. Irá começar a valer entre os dias 22 e 26 de julho. Depois desse período, a estimativa é que a tarifa fique em 14,42%.

Mas o que explica essa decisão? Para alguns especialistas, a resposta vai muito além do comércio e reúne fatores políticos, econômicos, estratégicos e diplomáticos.

Questão ideológica

Para Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Ministério da Economia e professor da Universidade de Brasília (UnB), a tarifa aplicada ao Brasil reflete uma mudança na política comercial de Donald Trump. Segundo ele, além da proteção da indústria americana, a medida também fortalece as alianças políticas.

"É uma ação política, mas não quer dizer que não seja uma ação que tenha propósito comercial."

Na avaliação de Pio, o Brasil entrou na mira dos Estados Unidos por reunir dois fatores: u ma economia considerada mais fechada e o desalinhamento ideológico entre os governos. Para o professor, a relação próxima entre Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro também influencia esse cenário.

"Não é nem com a Casa Branca nem com o governo americano. É com o Trump."

Ele ainda compara o Brasil com a Argentina e afirma que Javier Milei vive uma relação política diferente da do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o governo norte americano.

Relação Brasil e China 

Para Jan Marcel, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Brasil ocupa uma posição estratégica por ser a maior economia da América Latina e manter relações comerciais importantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

Brasil e China
Divulgação/Mapa
Brasil e China

Segundo o especialista, essa posição coloca o país no meio desta disputa entre as duas potências, fazendo com que as tarifas sejam utilizadas como instrumento de pressão em temas que vão além do comércio.

Tarifas vão além da economia

O advogado especializado em comércio internacional e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Celso Figueiredo, as tarifas deixaram de ser apenas uma ferramenta econômica e passaram a ser usadas também como instrumento de pressão política.

"Quando a gente observa a nota publicada pelo USTR e a decisão anunciada nesta semana, o fundamento técnico acaba sendo raso, o que leva a crer que essa decisão tenha um aspecto mais político."

De acordo com Celso, os Estados Unidos também investigam cerca de 60 países, incluindo o Brasil, o que mostra que os EUA  acompanha temas considerados estratégicos, como o avanço da influência chinesa e as discussões do Brics sobre alternativas ao dólar.

Pode haver uma nova disputa comercial?

Após o anúncio das tarifas, o governo brasileiro classificou a medida como um "marco lastimável" nas relações entre Brasil e Estados Unidos e afirmou que não há justificativa para medidas unilaterais.

Já uma fonte da Casa Branca citada pelo jornal O Globo sinalizou que: 

qualquer retaliação brasileira forçaria os Estados Unidos a "potencialmente modificar" sua ação para "garantir a eliminação dessas práticas". "Se eles optarem, provavelmente haverá mais ações do nosso lado”.

Apesar disso, Figueiredo acredita que uma escalada comercial ainda não é o cenário mais provável. Segundo ele, a nova lista de exceções deve preservar boa parte das exportações brasileiras, reduzindo a pressão por uma resposta mais dura. Com isso, a negociação diplomática continua sendo a principal aposta para resolver o impasse.

Com informações da DW - Larissa Maia

*Estagiária sob supervisão


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