
O pedido de falência do Grupo Dolly, protocolado pela União e pelo governo de São Paulo com base em uma dívida ativa de R$ 15,7 bilhõ es, vai muito além da situação financeira da fabricante de refrigerantes. O caso também levanta um debate sobre o uso da recuperação judicial em um momento em que o Brasil registra aumento no número de empresas em dificuldades.
Segundo Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia e especialista em recuperação de crédito, o principal ponto do caso é diferenciar empresas que realmente recorrem à recuperação judicial para reorganizar as finanças daquelas que utilizam o mecanismo apenas para adiar o pagamento de dívidas.
"O pedido de falência do Grupo Dolly expõe a distinção que deve orientar a análise sobre a crise de insolvência no Brasil: a diferença entre a insolvência genuína, quando a empresa efetivamente não dispõe de patrimônio para honrar suas obrigações e apresenta plano para soerguimento, e o uso estratégico dos instrumentos de reestruturação", afirma. Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia e especialista em recuperação de crédito
De acordo com ela, as procuradorias sustentam que a recuperação judicial do grupo teria sido utilizada por quase oito anos sem a regularização do passivo fiscal. Ela ressalta, que cabe ao Judiciário analisar as situações e decidir se houve irregularidades.
Caso chama atenção no cenário nacional
Apesar da repercussão envolvendo a Dolly , Mariana afirma que a situação não é um caso isolado!
"O caso não é um ponto fora da curva, mas o sintoma mais visível de uma crise estrutural." Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia e especialista em recuperação de crédito

Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia e especialista em recuperação de crédito
Conforme ela explica, o Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, número 24,3% maior que o registrado em 2024, que já havia sido o pior ano da série histórica desde a entrada em vigor da Lei de Recuperação Judicial e Falências.
De acordo com a especialista, esse crescimento está diretamente ligado ao cenário econômico enfrentado pelas empresas.
Juros altos e crédito caro pressionam empresas
Mariana explica que o alto custo do crédito tem dificultado a recuperação financeira de empresas que já enfrentavam problemas para manter as contas em dia.
"O custo elevado do crédito inviabilizou planos de reestruturação desenhados com outro custo de capital e, nesse ambiente, o sistema precisa separar com rigor quem usa a recuperação para se reerguer de quem a utiliza apenas para ganhar tempo." Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia e especialista em recuperação de crédito
Muitas empresas elaboraram planos de recuperação em um contexto econômico diferente, mas passaram a enfrentar dificuldades para colocar em prática com o aumento dos juros e o encarecimento do crédito, segundo as explicações da especialista.
Esse cenário tornou mais difícil reorganizar as finanças, principalmente para empresas já que já haviam dívidas antes, o que ajuda a explicar o crescimento dos pedidos de recuperação judicial registrados nos últimos anos.
Na visão de Mariana, o aumento das recuperações judiciais também reforça a importância de preservar a finalidade do instrumento. A recuperação judicial foi criada para permitir que empresas viáveis reorganizem suas dívidas e mantenham as atividades.
Por isso, é importante que o mecanismo seja utilizado por quem realmente busca superar uma crise financeira, e não apenas prolongar o pagamento de débitos.
O caso do Grupo Dolly ainda será analisado pela Justiça, que decidirá se aceita ou não o pedido de falência apresentado pela União e pelo G overno de São Paulo.
*Estagiária sob supervisão