Copom reajusta Selic para 13,25% e inicia freio em altas nos juros
Matheus Barros
Copom reajusta Selic para 13,25% e inicia freio em altas nos juros

Quando o ciclo de aperto dos juros vai terminar? Essa pergunta ficou sem resposta para boa parte do mercado financeiro, diante do comunicado feito na noite desta quarta-feira (15) pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que elevou a Selic para 13,25% ao ano , na 11ª alta seguida.

Ao indicar que a taxa básica de juros poderá ser elevada novamente, ainda que numa dose mais branda do que a elevação promovida na reunião de junho, analistas e especialistas não conseguiram chegar a um consenso sobre até onde o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e seus colegas de diretoria pretende levar a Taxa Selic.

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Entre os analistas, o consenso é de que o cenário internacional é de alta volatilidade, com possibilidade real de que o preço do barril de petróleo continue a subir até 2023.

No cenário doméstico, medidas do governo Bolsonaro, como limitar alíquotas de ICMS sobre combustíveis, devem ter impacto limitado no combate a inflação neste ano e prejudicam ainda mais o cumprimento da meta de inflação em 2023.

Para o superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Santander Brasil, Maurício Oreng, o comunicado não deixa claro qual é o plano do BC para a trajetória de juros, que pode ir além do aumento já previsto para a reunião de agosto.

"O comunicado do Copom não deixa muito clara a totalidade do plano de voo do Banco Central. A decisão do Fed (BC dos EUA) de aumentar a taxa de juros trouxe volatilidade para os mercados. A incerteza passa a ser grande para depois de agosto. O BC (brasileiro) admite a incerteza crescente em relação ao cenário econômico e aumentou de maneira relevante sua projeção para inflação, de 3,4% para 4% em 2022, ainda sem considerar as medidas tributárias do governo", afirma Oreng.

O banco deve rever para cima sua projeção de 13,5% para a Selic neste ano e já considera viés de alta para a Selic para o ano que vem. Quanto à inflação, o Santander estima IPCA em 5,3% em 2022, mas Oreng afirma que o indicador pode chegar a 6% com as medidas tributárias do governo.

"Essas políticas (como limitar alíquota de ICMS sobre combustíveis) podem reduzir a inflação para 2022, mas a aumentam para 2023. Além disso, o processo de desinflação das commodities está demorado, começamos a considerar que o petróleo continue em alta neste ano e no próximo", afirma.

Caminho certo

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o BC age corretamente ao sinalizar que deve seguir com a trajetória da alta de juros para além de 13,25%.

"Dadas as incertezas do cenário externo e interno, com os juros nos Estados Unidos e a nossa taxa de câmbio subindo, é possível que o Banco Central caminhe para um patamar de juros que chegue em 14% no fim do ano", afirma Vale. A projeção atual da MB é de 13,75%. 

"Não importa exatamente qual é a razão da inflação, se é demanda ou oferta. A Argentina está com uma inflação de 60% ao ano porque não conseguiu lidar com ela nos últimos anos. No Brasil, a inflação vai ficar acima de 10% pelo segundo ano consecutivo, algo inédito no plano Real e que precisa ser combatido como o BC tem feito."

Vale critica ainda a política fiscal do governo Jair Bolsonaro que, segundo ele, é irresponsável e tem pressionado o BC a elevar ainda mais a taxa básica de juros.

O projeto de lei que limita alíquotas de ICMS em combustíveis, elaborado pelo governo e que foi aprovado pelo Congresso nesta quarta, segundo ele, cria ainda mais problemas fiscais para 2023.

"O governo vai mitigar o preço dos combustíveis momentaneamente com a redução de tributos, mas à custa de ter um imposto maior no futuro, uma piora na situação fiscal dos estados e um câmbio pior agora. O governo está piorando a situação", afirma.

Analista da consultoria Tendências, Silvio Campos Neto ainda considera que o BC pode encerrar o ciclo de alta da Selic na próxima reunião do Copom, em agosto, mas ressalta que o cenário é de elevada incerteza.

"O comunicado afirma que a alta na próxima reunião deverá ser igual ou inferior à desta quarta-feira, o que demonstra um ritmo mais lento de alta e sinaliza que está próximo do encerramento (de alta da Selic). Não dá para descartar a necessidade de ir um pouco além porque há um cenário pessimista no radar, a inflação global segue alta e os choques de oferta muito presentes, especialmente o do preço do petróleo", afirma. 

Para a Tendências, as iniciativas do governo e do Congresso de limitar o ICMS dos combustíveis “são preocupantes e podem afetar o câmbio, além de contribuir com a deterioração de expectativas para a inflação do ano que vem”. A projeção atual da consultoria é de uma inflação de 4,5% para 2023.
Para o economista da Guide Investimentos Victor Beyruti, o teor do comunicado emitido pelo Copom teve um elemento de surpresa:

"Nossa visão era de que o BC poderia deixar a porta aberta para encerrar o ciclo de alta, a depender da evolução do cenário. Ele acabou não fazendo isso, já contratou um aumento, de menor ou igual magnitude", disse Beyruti, que projeta um aperto monetário na próxima reunião do Copom exatamente como o praticado nesta quarta-feira (15). 

Ele acredita que a partir da próxima sessão o mercado de juros futuros já irá se ajustar de acordo com essa projeção para a taxa básica. E o mercado de câmbio também deve repercutir essa inesperada extensão da trajetória de elevação da Selic, atraindo capital especulativo para o país e contribuindo para a redução da cotação da moeda americana em reais.

Remédio tóxico

Na visão dos representantes do setor produtivo a inflação brasileira atual é resultado de fatores externos, em especial o choque de oferta de matérias-primas e insumos. Por isso, não caberia ao BC usar o remédio do aumento de juros para tentar controlar o avanço dos preços. 

O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) afirmou em nota que o Copom “está prescrevendo um remédio tóxico para a economia e ineficaz contra inflação provocada por baixa oferta”.

O presidente da entidade empresarial, Rafael Cervone, chama a Taxa Selic atual de exagerada e diz em nota que ela “representa uma estratégia monetária irresponsável perante a população brasileira, cuja prioridade é a criação de empregos, o aumento dos investimentos e a retomada do crescimento econômico”. 

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também criticou, em nota, a decisão tomada pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, e seus colegas de diretoria, que decidiram por unanimidade pelo novo aumento da Selic.

“É urgente que se busque por outras medidas que possam levar à queda persistente da inflação e à retomada sustentável do crescimento. É preciso manter a responsabilidade fiscal e preservar o atendimento básico das necessidades da população. A federação reafirma que, diante de um cenário de elevada incerteza, é imprescindível uma política monetária mais moderada e que atenda aos desafios de crescimento econômico do país”, escreveram os representantes da indústria fluminense.

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