Nem o pingado e o pão na chapa escapam da inflação do café da manhã
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Nem o pingado e o pão na chapa escapam da inflação do café da manhã

Nem mesmo o pingado e pão na chapa, ou com ovo, escaparam. O clássico café da manhã de balcão de padaria, que um dia foi menos de R$ 5, hoje, oscila entre R$ 8 e R$ 15 das grandes capitais. Nas casas mais sofisticadas, o expresso chega a custar R$ 9 e o combo passa facilmente dos R$ 20.

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A cesta básica de desjejum do brasileiro encareceu no último ano e disparou de março para cá, um reflexo da guerra entre Rússia e Ucrânia. Além de os dois países serem grandes produtores de trigo, o conflito prejudica indiretamente o abastecimento global de outros grãos.

Uma pesquisa realizada com exclusividade para O GLOBO pela Horus Inteligência de Mercado a partir da consulta de 35 milhões de notas fiscais no país mostra que o quilo do pãozinho francês beira R$ 15 (alta de 14% em 12 meses) e o de forma, R$ 23. Já o leite, pelo qual o consumidor pagava uma média de R$ 4,31 o litro há um ano, agora sai por volta de R$ 5,45, alta de 26%.

Para a diarista Maria Celina Pereira da Silva, de 58 anos, que gosta de começar o dia com um café com leite e pão com queijo, estes números são percebidos a cada saída de casa.

"Tudo aumentou, até o ovo que é base. Eu pesquiso e acompanho as promoções para as compras maiores. No dia a dia, vou comprando aqui e ali. O pão, por exemplo, acho mais em conta na padaria".

Nem o pingado e o pão na chapa escapam da inflação do café da manhã
Reprodução/Agência O Globo
Nem o pingado e o pão na chapa escapam da inflação do café da manhã

Não é somente impressão dela. Os ovos brancos que custavam em torno de R$ 7,85, a dúzia, estão na casa dos R$ 9,34. E o café é o item mais caro da primeira refeição do dia: saltou de R$ 22,25 para R$ 43,34, o quilo — quase o dobro, segundo a consultoria, que também acompanhada mensalmente os preços de itens básicos da cesta do brasileiro, parceria com a FGV/Ibre.

Baguete mais cara que carne

Em alguns locais na Zona Sul do Rio, o quilo do pão chega a custar mais que o da carne. Caso de um mercado cujo preço da baguete, de R$ 36,90, supera o da carne moída de Acem (R$ 32,99/kg) e o de filé de peito de frango (25,99/kg). E em uma delicatessen, com o francesinho a R$ 23 o quilo, cada unidade fica torno de R$ 1,30.

Se considerar percentualmente, em 12 meses, o pão subiu 13%, o leite quase 24%, o café uns 68% e o ovo, 17,7%, segundo a inflação oficial do país, o IPCA, calculado pelo IBGE.

Destaque para o pão, que em abril de 2022 registou variação de preço mensal de IPCA de 4,52% — a maior em 16 anos. No acumulado do ano, não se via aumento como o de agora (de 9,72%) desde dezembro de 2015, quando fora de 12,05%.

Ainda que o Brasil importe a maior parte de sua farinha de trigo da América, principalmente da Argentina, não tem como fugir do impacto global.

Luiza Zacharias, diretora de Novos Negócios da Horus, acrescenta que a quebra na safra de grãos como café, soja e milho agravam o cenário já limitado pelo conflito no Leste Europeu.

"O preço do pão vem subindo fortemente nos últimos meses, principalmente por causa do aumento do trigo, por causa da guerra. Assim que eclodiu, o trigo subiu 30% e vai na escalada de inflação. No caso do café, a redução da oferta no mercado internacional e valorização do dólar tornam a exportação mais atrativa e o preço sobe internamente", resume a estatística.

Paulo Menegueli, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), considera que a guerra agravou fatores que já pressionavam o setor.

"Na pandemia, tivemos um aumento muito grande de embalagens e os insumos começaram a subir desde aquela época. A energia também subiu e o combustível dobrou de valor".

Ele continua:

"Temos orientado as entidades a repassar só o que for necessário, mas o que estamos vendo é um desespero geral. O valor de US$ 500 (R$ 2.397) numa tonelada de trigo é histórico".

Padarias e fábricas

O aumento destes produtos reverbera por toda a cadeia e empresários tentam equilibrar as contas. A dona da rede de padarias que leva o seu sobrenome Patricia Cardin, por exemplo, aplicou reajuste nos pães recheados e segurou os da minibaguete, que é seu produto mais básico, para ganhar no volume de vendas.

O consumo nas lojas está mais contido, sem compras por impulso, explica:

"Está difícil até de repassar para o consumidor. Fiz um reajuste em novembro e outro em maio de 5% em cada. Não tinha mais como segurar".

A Bimbo, detentora das marcas Pullman, Plusvita, AnaMaria e outras, diz que está buscando melhorar processos para reduzir custo e lançar produtos direcionados para minimizar os impactos.

"Toda nossa cadeia de suprimentos sofre impactos causados pela inflação, e estamos de olho no perfil de consumo que pode ser afetado. A redução no poder de compra de algumas categorias acaba pressionando ainda mais o posicionamento da indústria", explica Afonso Argudín, diretor geral da Bimbo Brasil.

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