Instituto Pólis revela impacto do preço do gás de cozinha na renda das famílias; mais pobres pagam, proporcionalmente, até 11 vezes mais
Reprodução Instituto Pólis
Instituto Pólis revela impacto do preço do gás de cozinha na renda das famílias; mais pobres pagam, proporcionalmente, até 11 vezes mais

O preço do gás de cozinha chega a comprometer em até 11% a renda das famílias mais pobres da cidade de São Paulo. A desproporção afeta com mais força as famílias lideradas por mulheres com renda de até um salário mínimo e de regiões onde a percentagem da população negra é superior à média municipal (37%). As informações fazem parte de um novo estudo do Instituto Polis.

A análise territorial do impacto do custo do GLP (gás liquefeito de petróleo) no município evidencia que as regiões mais afetadas correspondem, principalmente, aos bairros mais pobres, de maior concentração da população negra e onde há mais domicílios de baixa renda chefiados por mulheres.

A espacialização dos valores pesquisados mostra que o preço do GLP não é igual em toda a cidade e que ele não varia de acordo com o padrão de renda da população residente. Assim como há bairros de menor poder aquisitivo onde o valor do botijão de cozinha está entre os mais baixos da cidade – em torno de R$ 113 em Cidade Líder, Pq. do Carmo e São Mateus –, também há bairros de menor renda onde o botijão é mais caro que a média – cerca de R$ 130 em Jaraguá, Tremembé, Guaianases e Grajaú.

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"A pesquisa do Pólis mostra que a fonte de energia mais importante para a alimentação de famílias em domicílios urbanos é, desproporcionalmente, mais onerosa para a população em situação de maior vulnerabilidade", comenta Danielle Klintowitz, coordenadora-geral do Instituto Pólis

Variação do preço do botijão de gás nos bairros

A pesquisa do Instituto Pólis foi realizada entre 06 e 18 de abril e levantou o preço do botijão de gás entregue em domicílio, por telefone, em 337 pontos de revenda da cidade. Como forma de assegurar representatividade territorial, foi estabelecido o mínimo de uma consulta de preço para cada área de ponderação do IBGE.

Os dados permitem identificar territorialmente a população mais afetada pelo aumento do GLP na cidade. Os mapas de renda média domiciliar com base no Censo do IBGE (2010) e de renda média familiar, de acordo com a Pesquisa Origem e Destino, do Metrô de São Paulo (2017), mostram a localização das famílias mais pobres, que coincide com índices mais alarmantes de vulnerabilidade social.

As áreas de maior poder aquisitivo coincidem com as áreas onde se concentram os maiores preços do botijão de cozinha. No entanto, as variações da renda e do custo do GLP não são proporcionais na cidade – a média de preço do botijão de gás no quadrante mais rico é de R$132,50, enquanto a média das demais áreas é de R$123,91. Se forem considerados os preços das áreas que compõem os dois quintos mais pobres da cidade, a média é de R$122,56. Ou seja, as diferenças de preço verificadas não acompanham as desigualdades de renda observadas na cidade.

O botijão mais barato foi encontrado em Jd. Vila Formosa (distrito Aricanduva) por R$100 e o mais caro na Vila Carrão (distrito Carrão) por R$145: uma variação de R$ 45 ou de 45% em relação ao preço mais baixo.

É importante notar que, dentro de um mesmo distrito administrativo, os preços podem variar significativamente. Essa variação de preços, contudo, é menor quanto maior for a renda média: na região mais rica da cidade, a variação média de preços internos aos distritos é de até R$ 5,57, enquanto nas demais áreas a variação é de até R$9,45. Os distritos que demonstraram maior variação interna foram Pedreira (zona sul) com R$ 32,50, Carrão (zona leste) e Vila Andrade (zona sul) com variação de R$ 25,00.

Comprometimento da renda mensal das famílias

Segundo o estudo do Pólis, não é possível afirmar que, nas áreas de menor renda, os preços sejam necessariamente - nem proporcionalmente - mais baratos. Em algumas regiões, onde a renda média é mais baixa, os valores encontrados estavam acima da média municipal. O botijão de gás mais caro de São Paulo (R$145) ocuparia 24% da renda de uma família que tem meio salário mínimo de rendimento mensal; o botijão mais barato (R$100) comprometeria até 16% da renda desta mesma família – ainda sim uma porcentagem muito alta.

O custo do GLP no orçamento de uma família que ganha até 3 salários mínimos comprometeria entre 2,7% e 4% de sua renda mensal. Em uma família com rendimentos de 5 salários mínimos, as porcentagens estariam entre 1,6% e 2,4% - até 10 vezes menos do que o peso do botijão sobre o orçamento de uma família com renda de meio salário mínimo.

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