Bares e restaurantes do RJ já recuperaram metade das vagas de emprego
Redação 1Bilhão Educação Financeira
Bares e restaurantes do RJ já recuperaram metade das vagas de emprego

A estátua do gaúcho gigante continua firme e forte na porta do número 114 da Rua das Laranjeiras. Mas, no letreiro do estabelecimento, a palavra “churrascaria” foi substituída por “espaço”. Por dentro, muitas mudanças. O bufê não existe mais, assim como o rodízio de carnes. Impactada pela pandemia, a tradicional Churrascaria Gaúcha, fundada em 1939 e por onde passaram nomes da história do poder, como Getúlio Vargas e Leonel Brizola, sem contar a estrela Brigitte Bardot, fechou as portas em janeiro do ano passado, na época sem data para retorno. Mas, passados dez meses, o negócio voltou à vida, só que com um menu diferente: o foco agora são festas e shows, com apresentações de samba, forró e no estilo flashback.

Após o desembarque da Covid-19 no Rio, em março de 2020, a cidade viveu fechamentos em série. Só que, com o avanço da vacinação, os cariocas agora testemunham um novo movimento: a abertura — ou reabertura — de casas, principalmente do setor de bares e restaurantes. O vírus azedou a gastronomia de muitos lugares icônicos, como Mosteiro e O Navegador, no Centro, e Hipódromo, na Gávea, só para citar alguns.

Segundo estimativa do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), chegou a 2.500, ou um quarto do total, os estabelecimentos da cidade fechados no auge da pandemia. No entanto, de março de 2021 para cá, o Rio ganhou de volta a metade disso —na conta, entram 500 novas casas, de acordo com alvarás emitidos pela prefeitura, e algumas outras centenas que enfrentam um recomeço, após meses de incertezas.

O setor, um dos mais abalados diretamente pela crise, também perdeu 30 mil empregos, dos quais 15 mil já foram recuperados, como afirma o presidente do SindRio, Fernando Blower. Mesmo com a alta da inflação incindindo diretamente no preço dos alimentos e, por consequência, atingindo financeiramente esse campo da economia, a acelerada geração de postos de trabalho é uma prova de que há uma retomada.

"Quando a pandemia chegou, nosso buraco foi mais fundo. O que a gente viveu só se compara com o que passou os setores de eventos e entretenimento. Mas o consumo acompanha os movimentos da sociedade, por isso, nossa área retoma com muita força", analisa Blower.

O próprio Blower viveu esses movimentos descritos. Em agosto, ele reabriu o Meza Bar, no Humaitá, que ficou seis meses de portas cerradas. No mesmo mês, inaugurou o Yayá Comidaria, no Leme, no endereço de uma pizzaria que havia fechado.

Há lugares que conseguiram ao menos manter o ponto na fase mais crítica. Na Gaúcha, os planos de voltar a ter o famoso rodízio não foram enterrados.

"Nesse momento, o foco é buscar um ritmo (no negócio). Estamos reabrindo gradativamente agora para eventos e shows, mas o plano é no futuro abrir novamente o rodízio e o almoço, que é a parte que carrega a maior história da casa. Claro, sem deixar de ter a noite com música", revela o dono, Neocir Demarchi.

Novas ideias e negócios

No Trapiche Gamboa, a boemia rasgada e o samba no pé estão de volta. A programação, que já foi de terça a sábado, teve que se adequar: hoje, é esporádica. O que não deixa de ser um alívio para a legião de fãs da casa, que ficaram sem notícias sobre o velho casarão da Sacadura Cabral durante um ano e oito meses. No dia 15 deste mês, haverá feijoada com música.

"O Trapiche está vivo, mas em compasso de espera", brinca Marilene Melo Alves, que toca a casa de samba com a filha, Claudia Luciana.

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Já a badalada chef Kátia Barbosa, inventora do bolinho de feijoada, patrimônio da cidade, fechou no começo da pandemia o nordestino Kalango, na Praça da Bandeira. Em junho do ano passado, no entanto, ele foi reinaugurado em Botafogo em versão maior. Bianca, filha de Kátia, é quem pilota. Ela é um exemplo de rejuvenescimento desse mercado, que passou por uma sacudida.

"O legal é que estão surgindo propostas novas. Há um monte de gente que já estava no mercado entrando com com ideias novas, e a cidade vai ficando movimentada e moderna. A pandemia ajudou na criatividade", analisa Kátia. "Não teve crise pior que essa. Mas aprendemos a ir com calma".

Os números sobre geração de empregos dão esperança. Levantamento da Fecomércio, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostra que o Estado do Rio fechou fevereiro com saldo positivo de postos de trabalho com carteira assinada, totalizando nos dois primeiros meses 21.766. No ano passado, o saldo no mesmo mês foi de 12.829, enquanto no mesmo período de 2020 foi de menos 10.541. Em dezembro de 2020, o acumulado no estado ressaltava o tamanho da crise: menos 152.787 empregos. Já 2021 fechou positivo, com 177.203 postos.

A mesma pesquisa revela que entre dezembro e fevereiro, restaurantes e bares geraram 2.036 novos empregos, obtendo um dos melhores resultados. Os piores vêm do comércio varejista de alimentos e vestuário, que encara dificuldade. A abertura de estabelecimentos no estado continua no vermelho, mas essa curva vem caindo, segundo dados da Receita Federal, acompanhando a redução drástica na propagação da Covid-19.

"No início da pandemia, houve um impacto sério, sem aberturas. Mas, com a consolidação da vacina, a gente vê o começo de um processo de recuperação da confiança. A tendência é que isso se consolide ao longo de 2022", aposta João Gomes, diretor executivo do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFEC RJ).

A Zona Sul, o Recreio, a Zona Oeste e a Barra, nesta ordem, conforme divisão da Secretaria de Fazenda da prefeitura, concentram o maior número de alvarás expedidos desde abril do ano passado. E é nessas regiões que o empresário Paulo Pacheco, presidente do grupo BFW, dono de diferentes marcas de bares e restaurantes, mira seus investimentos. Já foram seis abertos pelo grupo na cidade durante a pandemia, e há três prestes a inaugurar.

"Não abandonamos nosso projeto de crescimento com a Covid. Mesmo antes de a pandemia dar uma trégua, já estávamos abrindo casa nova", afirma Pacheco, dizendo que passará de 500, em 2020, para 1.500 funcionários este ano.

Vida nas calçadas

Outro empresário que não parou foi Alexandre Accioly: à frente de uma rede de academia, ele abriu uma filial no Shopping Leblon, assumiu com outros sócios o antigo Metropolitan, na Barra, transformado na casa de shows Qualistage, e acaba de lançar um restaurante italiano na Barra. Ao lado, ele vai inaugurar em maio um outro italiano numa versão mais informal.

"Ninguém aguentava mais comer delivery, ver lives de artistas e ficar em casa assistindo a filmes. Cansou. Agora temos o mundo voltando ao planeta físico, mas fazem falta enorme para o carioca o Mosteiro, o Cervantes", lamenta Accioly.

O secretário municipal Thiago Dias, de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Simplificação, destaca que o setor de serviços, em que o turismo (que abrange bares e restaurantes) se inclui, corresponde a 85% dos empregos da cidade. Ele confirma: foi também o setor mais beneficiado pela redução dos indicadores da Covid-19.

"Se a retomada está vindo de alguma direção, é do turismo".

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