Guerra na Ucrânia ameaça economia global, dizem ex-líderes mundiais
Reprodução/Twitter - 03.04.2022
Guerra na Ucrânia ameaça economia global, dizem ex-líderes mundiais

A realidade global que emergiu no pós-Guerra Fria está entrando em nova e incerta era. A afirmação foi feita nesta quinta-feira (7) por Hank Paulson, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

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Ele falou em evento promovido pelo Paulson Institute sobre o futuro do comércio global, do qual também participaram o ex-presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, e o ex-diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascal Lamy.

Ele disse nesta quinta-feira que a guerra entre Rússia e Ucrânia desafia a segurança europeia e ameaça o crescimento global.

"A guerra da Rússia contra a Ucrânia também desafia a arquitetura de segurança europeia e a geopolítica ampla", disse. "E é uma ameaça ao crescimento econômico global, à insegurança alimentar e à energética, que está exacerbando a inflação crescente".

Paulson: 'A economia global pós-Guerra Fria está entrando em uma nova e incerta era'

Segundo o ex-secretário do Tesouro dos EUA, o mundo está entrando em uma nova fase: "A guerra na Ucrânia está nos forçando a lidar com a realidade de que a economia global pós-Guerra Fria está entrando em uma nova e incerta era".

Ele argumentou que, por décadas, o mundo viveu sob forças de abertura e fechamento da economia, mas infelizmente as forças mais protecionistas estão prevalecendo.

"Essas forças estão sendo puxadas pela crescente pressão do desacoplamento das cadeias globais", afirmou, observando que, até agora, a OMC tem sido incapaz de lidar com esses desafios. 

Paulson considera as sanções do Ocidente contra a Rússia sem precedentes e totalmente necessárias, mas fez uma provocação: "A questão é: o que acontece em seguida?".

Zoellick: 'Para sanções funcionarem é preciso de parceiros e aliados internacionais'

No mesmo evento, o ex-representante de Comércio dos Estados Unidos e ex-presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, concordou com Paulson na avaliação de que cresce o estímulo a economias fortes, estruturadas como fortalezas, e autossuficientes.

Ele afirmou que as condições do comércio global após a pandemia e agora com a guerra na Ucrânia mostram a necessidade de os países se organizarem de forma independente.

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Ao mesmo tempo, reconheceu a ironia que é o fato de as sanções dos Estados Unidos contra a Rússia só terem funcionado porque o país é o centro de uma coalização internacional:

"A coisa mais importante para o futuro é que vemos crescentes demandas para economias fortes (como fortalezas). A ideia, seja na China, nos Estados Unidos, na União Europeia, é autossuficiência, controles nacionais sobre as cadeias de produção. E para os EUA isso é irônico. As sanções foram efetivas porque os EUA são a pedra angular de um sistema mais amplo de coalização internacional. Para sanções funcionarem é preciso de parceiros e aliados internacionais".

O ex-representante de Comércio dos Estados Unidos destacou que os países devem desenvolver resiliência e colchões de proteção dentro do sistema internacional para sobreviver neste novo cenário. E reconheceu que este tipo de estrutura, com menos interconectividade entre os países, tende a levar a menos produtividade, mercados menores e menos competição.

Lamy: 'A autossuficiência da China é mais perigosa do que a China globalizada'

O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) e ex-comissário europeu para o Comércio, Pascal Lamy, também participou do evento do Paulson Institute. Ele defendeu que o mundo precisa manter a China o mais globalizada possível para que países ricos continuem tendo capacidade de influência. 

Lamy vê com preocupação o processo de desacoplamento das cadeias produtivas, que ganhou força nos últimos anos, mas se aprofundou com a crise da Covid-19: 

"Para ser franco, não sou um grande fã do processo de desacoplamento. E a razão para isso é precisamente porque, se quisermos manter influência em outros países ou grupos de países, nós, as economias mais sofisticadas e complexas, estamos em posição melhor para fazer isso em uma economia globalizada do que em uma na qual países caminham para um processo de desacoplamento, como o caso da China".

O ex-líder da OMC frisou ver riscos no isolamento da China: "A autossuficiência da China é mais perigosa do que a China globalizada. A China ainda precisa do resto do mundo para fazer sua economia crescer, e acho que provavelmente teremos um jogo melhor se tentarmos manter a China globalizada o máximo que pudermos, e influenciar as forças certas na China".

Lamy afirmou que a batalha comercial da última década está mudando sob influência de mudanças geopolíticas e geoeconômicas (como mostram as sanções), tecnológicas (com o impulso digital que o comércio internacional recebeu), e com o que chamou de “preferências coletivas”, guiadas por “precaução ou melhor cuidado do meio ambiente, de saúde e, em certa medida, da segurança nacional, o que nos leva de volta à geopolítica”.

Para Lamy, as sanções unilaterais e multilaterais têm pesos distintos, assim como os países-alvo. Observou que, apesar de a União Europeia (UE) ter se juntado aos EUA para sancionar a Rússia no âmbito da guerra na Ucrânia, sanções comerciais e coerção econômica e comercial não são parte do "DNA da UE". 

"E a simples razão para isso é que a UE nasceu como um mercado comum. Então tem essa preferência ideológica por abertura comercial em vez de que comércio obstruído", afirmou, ao acrescentar que os próprios EUA perceberam que podem ser vítimas de suas sanções comerciais.

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