Werner Roger, sócio-diretor da Trígono Capital
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Werner Roger, sócio-diretor da Trígono Capital

Muito provavelmente, você, leitor, já tenha identificado o verso que serviu de inspiração para o tema deste artigo, a célebre frase: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, do grande, genial nome da poesia em língua portuguesa Fernando Pessoa (1888-1935). Existem inúmeras interpretações para a frase. A minha favorita é a que mostra o jogo de sentido com o termo “preciso”. Viver é, sim, necessário, mas não é preciso, pois a vida é, por natureza, uma caixinha de surpresas, repleta de incertezas. Com este verso, o poeta português joga luz à condição humana, evidenciando que a necessidade de viver também passa pelo uso da racionalidade para avançar. Afinal, como para navegar são necessários mapas, planejamento e bússolas no oceano dos investimentos é preciso se balizar em informações para investir com precisão.

Navegar, segundo uma interpretação, seria algo que atende uma necessidade primal, profunda, de todos nós. Seria algo pelo que todos ansiamos: sair de onde estamos, mesmo que seja para voltarmos ao mesmo ponto – mas entre um momento e outro, iríamos ver o que mais há por aí. Seria, então, apenas normal que tal verso tocasse fundo a alma lusitana de Pessoa; afinal, os portugueses têm uma longa tradição de navegações, de explorar os mares e encontrar o que ninguém havia visto – o Brasil é um dos resultados disso. Numa leitura direta, o poema diz, nesse sentido, que “É preciso navegar”, não podemos passar pela vida sem navegar, sem descobrir, sem conhecer. Sentimento muito apropriado para um povo que vive numa península, de frente para o oceano Atlântico.

Aproveito para fazer mais uma recomendação literária, “A Jangada de Pedra” [1986], de José Saramago, é uma parábola surrealista em que a Península Ibérica se desprende do continente europeu e sai a derivar pelo Atlântico. Diversão mais que garantida – e também sugestão para um debate mais que atual: o do isolamento, sobre como nos afastamos e acabamos por recriar – ou por ter de recriar – nossa identidade. O que, claro, não se faz sem muitos revezes. Num mundo em pandemia, com lockdowns e distanciamentos, a discussão é não só oportuna, como necessária.

Mas navegar, agora num outro sentido, seria uma ciência (ou uma arte?) que requer precisão, exatidão. Hoje temos instrumentos, softwares específicos, veículos extremamente especializados para fazer isso; à época dos navegadores lusos (e, mais ainda, na de Pompeu), ainda que já se pudesse contar com alguma matemática e até mesmo formas rudimentares de meteorologia, a verdade é que pouco mais se podia fazer além de olhar para o céu e tentar se orientar segundo as posições de constelações e astros vistos a olho nu. E ainda havia que se contornar medos e superstições, que falavam de monstros marinhos ou da fúria de Netuno.

Não são poucas as figuras de proa na tradição náutica portuguesa: Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães e Pedro Alvares Cabral, para ficar numa lista curta. Aliás, a tese que Cabral tenha “descoberto” o Brasil é imprecisa: uma teoria é a de que por aqui já teriam passado os chineses muito antes de 1500. Isso se vê em um mapa de Liu Gang, de 1418, em que muito claramente está representada a América do Sul – confira em “1421 – O ano em que a China descobriu o mundo”, de Rowan Gavin Paton Menzies, ex-oficial submarinista da Marinha Britânica. À frente do submarino HMS Rorqual, Menzies percorreu rotas abertas por Magalhães e James Cook. Outros navegadores, como Américo Vespúcio e Vicente Pinzón, teriam chegado às costas brasileiras antes de Cabral.

Para muitos portugueses, inclusive, o descobridor do Brasil foi Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), que teria chegado aqui em 1498. Pereira foi um “cosmógrafo” – a cosmografia era uma mistura de geografia, matemática e navegação – que provou sua coragem em batalhas e foi inclusive imortalizado como o Aquiles Lusitano em “Os Lusíadas” (1572), do já citado Camões. Ele recebeu do rei, Dom João 2º (1481-1496), a incumbência de verificar se as terras descobertas por Colombo eram realmente parte da Ásia (o rei português manteve essa tarefa em segredo para evitar concorrência com os reis católicos Fernando e Isabel, da Espanha). Pereira teve ainda outra missão: como um dos negociadores do Tratado de Tordesilhas (1494), deveria identificar terras que pertenceriam a Portugal ou Castela (Espanha) nos limites da linha traçada pelo tratado.

A conveniência política fez com que apenas o rei D. Manoel (sucessor de D. João 2º) tivesse mandado de forma oficial um navegador – o fidalgo Cabral – ao Brasil, como parte da rota para Calicute (Índia). Couberam a D. João 2º, no entanto, os méritos dos grandes descobrimentos patrocinando as expedições marítimas através do Cabo da Boa Esperança em direção ao Oriente. Entre nós, brasileiros, Pereira é, no entanto, um ilustre desconhecido. Cabral, por sua vez, apesar de ser um próspero comerciante, jamais comandara uma expedição naval até receber a frota de 13 embarcações com destino à Índia. Como se vê, até o registro histórico é impreciso, moldado por interesses diversos.

Pois bem: feita essa longa digressão pela história, estendamos à esfera pessoal esse sentido de precisão como exatidão, trazida por cada vez mais conhecimento adquirido. Nossa vida passa por mudanças e desafios a cada dia, e eventos inesperados. Vão desde tempos traumáticos, como a pandemia, catástrofes naturais, guerras e crises econômicas, até os corriqueiros (mas bastante complicados) como relações familiares, criação dos filhos, escolha da formação acadêmica, busca ou troca de emprego e as tantas incertezas que nos acompanham do choro ao nascer até o último suspiro. Para nada disso há instrumentos que garantam precisão.

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Contrariando um pouco o poeta: viver é, sim, preciso – mas no sentido de que é necessário: queremos viver. O filósofo do século 16 Bento Spinoza (1632-1677) formulou o conceito do conatus, que explica nosso ímpeto para permanecermos vivos. Mas embora não haja instrumentos nem algoritmo que tornem a vida um caminho mapeado com precisão, buscamos muitas formas de contornar essa incerteza toda e tomar decisões informadas. Escolher uma carreira, por exemplo, é algo que se fará de maneira muito mais tranquila se você pesquisar a carreira, considerar alternativas, conversar com quem já é da área. Ter filhos, se acontecer depois de uma certa preparação, também se torna um evento ainda cheio de surpresas, mas ao menos sob uma base mais firme.

E aqui entra nossa área de interesse mais específica: investir também é uma decisão cheia de incertezas. Mas, em meio a todas elas, é algo que se faz de modo preciso. Finanças, de modo geral, são uma área na qual as pessoas têm, de forma geral, bem pouco conhecimento e orientação. Pense na farmacêutica: confesso aqui que sou daqueles que adora suplementos. Sei, claro, que talvez não passem de placebo. Mas placebos têm sua força (às vezes, maior até que a do próprio medicamento). Com investimentos não é assim: suplementos podem significar perda de algum dinheiro, mas investimentos desastrosos podem causar grandes prejuízos. Aposentadorias, reservas para comprar a casa própria, cursar uma faculdade ou doutorado, deixar uma base para os netos – tudo isso vai por água abaixo num piscar de olhos se aquele investimento aparentemente seguro e à prova de crashes fizer água. Precisão em nossa seara é fundamental.

2021 foi um ano fantástico para a minha gestora, a Trígono Capital – e, claro, para os milhares de investidores que confiaram a nós seus investimentos. Os resultados alcançados em todos os nossos fundos desde seus inícios são fruto desse processo de investimento. Refletem a perfeita integração de toda a equipe – o almirante (no caso, o CIO ou gestor chefe) não navega sozinho – e o apoio de nossos parceiros (que distribuem nossos fundos) e dos investidores, que confiam em nós. As empresas investidas são como bons portos seguros, nos quais encontramos excelentes oportunidades mercantis e em que conseguimos que o valor de nossos investimentos se multiplique ou gere uma renda vitalícia.

A precisão no investir também remete à já aludida necessidade de se construir uma poupança de longo prazo. Buscar investimentos com horizonte de prazo longo é fazer como navegadores que buscavam terras distantes: consideravam as tempestades, revoltas da tripulação e até os monstros marinhos – mas iam desbravar mesmo assim. Quem busca a riqueza no curto prazo provavelmente baterá seu casco numa laje submersa. Ele acha que, de alguma forma, só ele viu aquela riqueza ali, fácil de pegar. Na “Odisseia”, de Homero, Ulisses orienta os marinheiros a se amarrarem aos mastros do navio para não se sentirem tentados a se lançar ao mar ao ouvir o canto das sereias. Com nosso processo de investimento, não precisamos nos amarrar a nada – as sereias podem cantar à vontade. E é claro, investimentos reúnem também um pouco de arte, e até sorte. Sorte, aliás, é a conjunção da oportunidade e capacidade, capacidade esta de identificar a oportunidade e a execução. Como ganhador do primeiro prêmio da loteria federal com apenas 20 anos de idade, sou uma prova viva disto. Muitas vezes a suposta sorte, na realidade a oportunidade, passa em nossas frentes, mas olhamos para o lado e não reconhecemos. A queda na bolsa de valores, para alguns é desgraça ou azar, para outros, oportunidade e sorte. A vida é assim.

Não foram poucas as vezes em que ouvi investidores/oráculos dizerem que assumiram essa ou aquela posição porque “acharam” isso ou aquilo, ou porque “gostam” desse ou daquele setor. Quem “acha”, no entanto, não diz que acha: prefere dar uma pátina de ciência ao próprio achômetro chamando-o de market timing. E para aqueles que confiam no gostômetro, talvez gastronomia ou enologia fossem áreas mais apropriadas que a dos investimentos.

Investimentos são um processo complexo, que exigem uma série de requisitos dos gestores. Conhecimento e experiência, perfil emocional adequado à tomada de decisões em momentos de crises e estresse no mercado, trabalho em equipe, disciplina, transparência, dever fiduciário de tratar todos os cotistas da mesma – e melhor – forma, e assim conseguir o apoio de todos os que, de certa forma, estão envolvidos com o processo – e principalmente cada um dos investidores.

Para encerrar: a vida é o bem mais valioso a nós concedido por Deus. Mas ele não nos deu um projeto pronto, acabado, conhecido de ponta a ponta. O percurso é repleto de imprecisões. Mas o que seria da nossa vida, não fossem elas? Um filme que se conhece o começo, meio e fim, teriam qual emoção? Qual seria a graça? No fim, acharíamos que toda aquela jornada foi apenas desperdício de tempo e dinheiro.

Com a imprecisão e a incerteza, agora nas palavras de outro poeta: “A poderosa peça continua, e você pode contribuir com um verso. ”, Walt Whitman. Desejamos a todos, neste ano que se inicia, uma navegação segura, mesmo com as tempestades e calmarias inerentes a navegação e às nossas vidas. Que cheguemos ao final de 2022 e digamos: “Meu bilhete nesta viagem valeu a pena. Não vou desembarcar”.  

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