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Emerson Alecrim
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A rotina de motoristas de aplicativos, ultrapassando as 12 horas diárias ao volante, já não é suficiente para acompanhar os reajustes nos preços dos combustíveis. Para complementar a renda, o porta-luvas vira vitrine de balas a itens de beleza. De olho nos potenciais clientes, esses profissionais apostam na criatividade.

O faro para os negócios é o talento de Marcelo Amorim, formado em Publicidade e motorista de aplicativo há seis anos. Há dois, no primeiro aperto devido à alta dos combustíveis, ele começou a vender balas para passageiros que iam para a balada. Depois, expandiu a oferta para produtos de beleza, perfumes e roupas, mas já vê as vendas pressionadas pela alta do custo de vida.

"A inflação fez o preço dos produtos pesar mais para mim, mas como vou repassar isso?", pergunta.

Combustível nas alturas

Desde meados deste ano, os combustíveis têm um impacto significativo na inflação e, no acumulado de 12 meses do Índice de Preços ao Consdumidor Amplo (IPCA) até outubro, o etanol lidera o ranking, com alta de 67,41%, seguido por gasolina (42,72%), diesel (41,34%) e GNV (39,58%).

O freio no faturamento acompanha a queda da procura pelos serviços. Há poucos meses, Amorim conseguia faturar R$ 500 por mês somente com as vendas dentro do carro. Agora, o lucro caiu à metade. Por outro lado, o valor total que paga pelo GNV passou de R$ 500 para mil reais mensais. Para repor as perdas, ele agora passa mais tempo ao volante para turbinar a loja itinerante.

Compensar a alta dos combustíveis rodando por mais tempo e encontrar outras formas de complementar a renda são as alternativas identificadas pelo economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

"São dois empregos ao mesmo tempo, e um deles demanda atenção constante para evitar acidentes. Não é o ideal, mas muitas vezes os motoristas não têm outra alternativa", explica Vale, pontuando que a venda de produtos nos carros por aplicativo pode se tornar tendência, enquanto não houver alívio nos preços.

Outros custos

Para o economista do Instituto Brasileiro de Economia, Andre Braz, o combustível é o principal vilão dos motoristas por aplicativo, que além dos altos gastos para abastecer, arcam com os custos de alimentação e manutenção do carro:

Não há expectativa de que os preços dos combustíveis se reduzam. Isso vai pressionar a margem dos motoristas, e não tem solução para o curto prazo. É um efeito que vai durar, pelo menos, pelos próximos três meses.

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O cenário Apesar do alto preço, abastecer com GNV ainda é a melhor opção financeiramentesó deve melhorar com uma guinada positiva para o emprego e a renda, ainda sem perspectiva no curto e no médio prazos. Guilherme Moreira, economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), aponta que a situação só deve melhorar em 2023, com o reaquecimento do mercado de trabalho.

"Se trabalha com aplicativo, depende da política de repasse (dos aplicativos aos motoristas). E o comprador dele (o passageiro) está com a renda deprimida."

Mesmo com as vendas, falta dinheiro

A alta de quase 40% no GNV também assustou o motorista Luiz Carlos Nascimento, que desde o Dia das Mães investe na venda de comidas caseiras no carro para conseguir bancar os gastos com combustível, em parceria com a namorada. O sucesso veio com a revenda de doces caseiros vindos de Minas Gerais, com entrega grátis:

"Foi legal porque consegui ver no carro, além das corridas de aplicativo, um espaço para criar uma renda extra, e a grande motivação disso foi o aumento do gás."

O negócio deu certo: o casal fatura mil reais por mês, e já estuda expandir o portfólio para queijo minas frescal, cachaças artesanais e linguiças para pronta entrega. No entanto, o sucesso ainda não consegue compensar os custos com o GNV.

A conta chega a R$ 2 mil por mês, mas Nascimento consegue abater R$ 500 com as vendas de produtos caseiros. Em um dia, gasta R$ 100 de gás, o equivalente, segundo ele, a um terço do faturamento diário, sem os descontos do aplicativo.

O que dizem as empresas

Procurada, a 99 afirmou que reajustou de 10% a 15% o repasse aos motoristas em setembro deste ano, devido ao aumento dos preços dos combustíveis e que tambpem chega a repassar integralmente o valor das corridas em localidades e horários específicos.

A Uber, por sua vez, informou que adota o modelo de 20% de cashback no abastecimento do carro e acumula pontos para economizar na manutenção do veículo.

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