chinatown
Foto: Ibrachina/Divulgação
No projeto, o portal principal seria criado junto à Avenida Mercúrio, com esculturas e ornamentos chineses



Que os chineses são os maiores parceiros comerciais do Brasil já não é novidade e em 2024, os países celebram o 50º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas. Com o intuito de estreitar ainda mais a relação sino-brasileira, o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) quer em até quatro anos iniciar a construção de uma Chinatown em São Paulo.

O projeto foi desenvolvido pelo Ibrachina e por parte da comunidade chinesa e caso seja aprovado pela gestão municipal, deverá ser instalado na região central da cidade de São Paulo. O Chinatown ocuparia trechos das Avenidas Mercúrio e do Estado e as Ruas da Cantareira e São Caetano, nas imediações da Rua 25 de Março e do Mercado Municipal.

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Thomas Law, presidente do Ibrachina, diz que a escolha pela região central se deu porque além de ser um local onde há forte concentração de chineses no comércio, há muitos galpões e áreas abandonadas, sem revitalização. "Atualmente, há pontos muito decadentes que poderiam se tornar uma zona econômica e cultural muito importante. Vários investidores já demonstram interesse", pontua. 

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Foto: Eduarda Esteves
Thomas Law, presidente do Ibrachina

Assim como em outras cidades, o bairro comercial chinês teria pórticos, os tradicionais portões de entrada, com mais de nove metros de altura, lojas comerciais e restaurantes com comidas tradicionais da China. De acordo com Sophia Lin, arquiteta do projeto, também seria construído um teatro milenar, estacionamento, um parque e um shopping na região. 

Thomas Law destaca que o projeto é uma parceria do setor privado com o público, mas o investimento seria apenas de empresários e da comunidade chinesa. A estimativa do custo é de R$ 150 milhões para a obra. 

"Eu vejo que o projeto agrega muito. Hoje a 25 de março compete comercialmente com o Brás e o Bom Retiro. A Chinatown seria uma região que fortaleceria aquele espaço, principalmente porque os turistas que estivessem circulando pelo Mercado Municipal poderiam ir ao bairro chinês, seria uma nova rota no ciclo do comércio no centro", explica o presidente do Ibrachina, que garante o interesse de empresários do setor privador em tocar o negócio. 

Os objetivos apontados no projeto são: "construir monumentos que simbolizem o elo entre Brasil e China junto ao centro de comércio popular mais significativo do País", atrair mais turistas para a região, "proporcionar ao brasileiro comum a oportunidade de conhecer um pouco da história (dos que) adotaram o Brasil com(o) sua segunda casa" e "doar para a cidade de São Paulo espaços de lazer como forma de retribuição pelo acolhimento e oportunidades".

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O Ibrachina diz que a proposta já foi enviada à Prefeitura de São Paulo em 2018 e estava no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). "Estamos aguardando o retorno do poder público", diz Law.

De acordo com Sophia Lin, a equipe já teve inúmeras reuniões com a Secretaria de Urbanismo para aprovar o projeto. Na região, ela descreve que atualmente funcionam lojas, distribuidoras de bebidas e galpões. "Essa parte mais burocrática do que seria feito por lá é algo mais político. Se dependesse só da gente, a proposta já estaria em andamento", esclarece.

CHINATOWN SP de Júlia Esteves




Coronavírus pode atrasar Chinatown?


Em dezembro de 2019, o coronavírus apareceu pela primeira vez na cidade chinesa de Wuhan. O número de mortos por Covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus, ultrapassou os 5 mil em todo o mundo.

Os dados são de um levantamento feito pelo governo chinês, divulgado pela estatal chinesa de notícias, a CGTN. A maior parte delas, 3.180, está concentrada na China.

Em meio ao temor pelo novo vírus, muitos atos de xenofobia com os chineses foram denunciados, principalmente nas redes sociais. O presidente do Ibrachina diz que não acha que isso vá atrapalhar o andamento do projeto frente à Prefeitura de São Paulo. 

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Foto: Eduarda Esteves
Law mostra um painel que é atualizado todos os dias com os dados do coronavírus no mundo

"Eu entendo que o coronavírus é passageiro , é só observar a China, onde os números já começaram a cair. As pessoas precisam entender que o vírus não tem cara, ele chegou no Brasil dá Itália e se tornou um problema de saúde da humanidade", relatou.

Law entende que o projeto pode demorar mais do que o esperado por questões políticas já que 2020 é um ano eleitoral

Ele diz ainda que o aparecimento das Chinatowns ao redor do mundo, além de motivos econômicos, ocorreu também em momentos de segregação racial . "Em muita regiões, os chineses ficavam isolados", lamenta. 

Prefeitura de São Paulo

Procurada pela reportagem para esclarecer como está o andamento da proposta da Chinatown, a gestão municipal informou que o "Ibrachina apresentou à Prefeitura um material impresso contendo estudos para um projeto urbanístico com motivos e inspirações chinesas", diz trecho da nota enviada ao iG. 

Ainda de acordo com a nota, "o conjunto de desenhos e textos não constituem um projeto completo, propriamente dito, carecendo de diversos esclarecimentos e aprofundamentos. Ainda assim, a SP Urbanismo avaliou os estudos propostos à luz do Projeto de Intervenção Urbana do Centro (PIU Centro) e orientou o interessado sobre a priorização das intervenções no entorno em função da necessidade da cidade. A empresa está aberta ao diálogo para iniciativas a para serem empreendidas junto ao Mercadão e próximo da Zona Cerealista". 

Projeto econômico e preconceito com a cultura chinesa


A ideia da criação de um bairro comercial com características chinesas, como já existe em Londres, Nova Iorque, Los Angeles e outros locais não é nova. Thomas Law, presidente do Ibrachina, diz que o seu sogro, Fernando Ou, foi o idealizador há anos, mas nunca conseguiu formalizar a vontade.

"Ele pensava em algo para ser feito no bairro da Liberdade, onde há mais japoneses. Quando eu assumi a missão, achei que o centro de São Paulo teria muito mais a ver com a Chinatown", explica Thomas Law.

A partir da abertura econômica da China em 1979 se discute a dinâmica socioeconômica entre os chineses e o Brasil, por meio de fluxos comerciais e a constante migração de pessoas entre São Paulo, Guangzhou e Yiwu. São mais de 200 mil chineses no Brasil e maioria deles reside na capital paulista. 

Marcos de Araújo Silva, antropólogo e pesquisador da comunidade chinesa, diz que em princípio, a Chinatown pode parecer impactar apenas a esfera econômica.

"Mas sabemos que grandes empreendimentos como este envolve, indubitavelmente, a esfera sócio-cultural . Assim como ocorreu em outras cidades do mundo, o que permite a criação de novos vínculos culturais, sociais e econômicos e fortalecimento dos já existentes entre Brasil e China", pontua.

Marcos pontua que empreendimentos como este costumam atuar como catalisadores e atrair oportunidades tanto para os países anfitriões , quanto para empresários chineses que que dão preferencia de investimentos a cidades que possuem uma Chinatown formalizada. 

Por outro lado, o pesquisador destaca que pode existir preocupação de outros setores do comércio na região da 25 de março. "Isso precisaria ser discutido envolvendo diretamente a população local , e não apenas seus representantes políticos", avalia.

Se é certo que a consolidação deste projeto poderia "prejudicar" os comerciantes brasileiros, também é verdade que esta Chinatown terá que cumprir todos os preceitos constitucionais que um projeto desta magnitude implica, segundo Silva.

Assim, comerciantes brasileiros não serão "expulsos", mas provavelmente venderão, alugarão ou farão parcerias comerciais com chineses. "Essa é a regra do jogo da economia global capitalista num país socialmente desigual como o Brasil", explica. 

O estudioso também acredita que a aprovação do projeto pode diminuir o preconceito com a cultura chinesa.

"Mesmo que projetos deste estilo não alterem as relações de poder e sejam baseados na assimetria de oportunidades e na consolidação do capitalismo ou economia global de livre mercado chinesa, isso representa uma demarcação de território, ou seja, a presença chinesa deixando de ser marginalizada , obscurecida, e passando a fazer parte efetiva da paisagem urbanística desta grande metrópole", complementa.

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