Ser vegano é caro? Discussão existe, mas é esvaziada e cheia de falácias
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Ser vegano é caro? Discussão existe, mas é esvaziada e cheia de falácias

O veganismo, ideologia de vida que busca excluir a exploração animal, seja da alimentação, do vestuário ou de quaisquer outros meios, celebra mundialmente nesta sexta-feira (1º) o Dia do Veganismo.

Com diferentes ‘níveis’, o movimento como um todo é cercado por uma série de questionamentos e falácias. Além da famosa dúvida sobre as ausências nutricionais sem a ingestão de carne, muitos dizem que o veganismo é um movimento caro e elitista. Afinal, é caro ser vegano?

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Depende. Tornar-se e manter-se vegano pode, sim, elevar os gastos com alimentação e vestuário, por exemplo. Alguns produtos, sobretudo os que são voltados com foco exclusivo (ou quase) para o público vegano, têm preços mais altos do que os de origem animal, mas isso não significa que ser vegano obrigatoriamente seja algo caro.

Lucas Couto, 20, estudante de jornalismo, diz que já tentou mais de uma vez seguir a dieta vegana, sem sucesso. Segundo ele, o máximo que conseguiu foi dois meses.

Para Couto, que procurou tentar seguir a dieta especialmente após assistir a vídeos do canal Central Panelaço , de João Gordo – que já conta com mais de 266 mil inscritos no YouTube –, os principais empecilhos foram a falta de praticidade e o aumento de gastos. Ele tentou seguir o veganismo por entender que a alimentação seria mais saudável, leve e sustentável com o planeta.

"Eu desisti [nas oportunidades em tentou] do veganismo por causa do custo e da falta de praticidade. Existem produtos veganos, inclusive o meu bairro tem uma loja especializada, mas é cara. Para cozinhar não tenho tempo, e a preparação exige tempo. Eu pensaria em tentar [virar vegano mais uma vez] se minha situação financeira fosse melhor, com toda certeza, porque eu me alimentava muito bem e me sentia melhor também", conta.

Produtos veganos industrializados, em especial os feitos por grandes empresas e que “imitam” algo de origem animal, costumam ser mais caros do que os “imitados”, pela questão do marketing envolvido e, acima de tudo, a demanda menor.

Além dos alimentos, o veganismo também trata de outras questões entre os diferentes 'níveis', até o que busca eliminar por completo o consumo de qualquer tipo de produto de origem animal . Na moda, a questão da demanda também pode influir sobre os preços dos produtos, tornando os voltados para o público vegano mais caros do que os "normais".

A Vegano Shoes , loja virtual de calçados veganos de Luísa Mell, ativista pelo direito dos animais e escritora, vende tênis, botas e sandálias para todos os gastos sem nenhum produto de origem animal. Há opções mais caras, mas também produtos que podem até ser mais baratos do que os não veganos. Um tênis fechado feminino, por exemplo, pode sair por R$ 59,95.


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É caro, mas não precisa ser

A internet pode ser um importante artifício para possibilitar seguir o veganismo evitando os gastos expansivos e conseguindo economizar. Há uma série de sites, canais do YouTube, páginas, grupos e influenciadores que tratam o tema apresentando receitas ou até mesmo dicas de como seguir uma vida vegana sem gastar muito .

No Instagram, por exemplo, a página Vegano Periférico , que conta com mais de 260 mil seguidores – além das mais de 17 mil curtidas no Facebook – busca mostrar que é possível seguir a dieta gastando pouco. Com receitas e textos sobre o assunto, o veganismo foge da visão estigmatizada e é apresentado como algo simples e possível.

"Chegamos a conclusão de que não precisamos participar desse veganismo elitizado, que dá pra economizar muita grana", afirma uma postagem do canal no dia 27 de setembro.

Os canais veganos ressaltam que produtos naturais, como verduras, legumes e frutas, costumam ser os mais baratos. Evidentemente, são veganos e fazem parte da dieta, muitas vezes como a base dela, o que já barateia os custos no dia-a-dia para quem quer manter-se vegano.

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Quando viramos veganos surgiu um certo receio em relação ao consumo, de quanto iríamos gastar, será que teríamos que consumir leite vegetal de caixinha, e os queijos caríssimos, "não temos grana pra comprar castanhas e nozes", questionamentos frequentes, "será que estamos fazendo a coisa certa?", não tínhamos quase nenhuma referência, "será que ser pobre e vegano é viável?", "será que isso é pra gente?". Mas mesmo assim seguimos, mesmo meio perdidos. Chegou um momento em que olhamos pra perfis nas redes sociais totalmente fora da nossa realidade, íamos às feiras veganas e ficávamos perdidos, deslocados, totalmente incomodados, não com as pessoas, mas porque não era a nossa, tamo acostumado com um outro mundo. E assim continuamos, tentando nos achar pra não abandonar algo que pra gente faz muito sentido. Aí começamos a trocar ideia sobre como o movimento é entendido pela classe trabalhadora, e o quanto esse movimento era elitizado e consumista, que pra gente não fazia o menor sentido, além de ser inviável, tava totalmente desalinhado com a realidade da população. Aí chegamos a conclusão de que não precisamos participar desse veganismo elitizado, que dá pra economizar muita grana, que não há necessidade de consumir certas coisas pra ser vegano, ou ter um tênis da marca 'x', e que o veganismo vai muito além do que só uma opção de consumo... e assim fomos praticando aquilo que estava dentro da nossa realidade, fazendo o mais simples possível. Com isso aprendemos muito, a nossa visão sobre o movimento mudou completamente. Aprendemos que a coisa mais importante é o acesso à informação, conhecimento, isso é tudo. Percebemos que não precisamos substituir leite, queijo, que é só tirar da frente e comer outras coisas, tem tanta opção. Achamos produtos acessíveis não testados em animais nos mercadinhos aqui da quebrada, e assim fomos seguindo... com os pés no chão. E hoje entendemos que a forma que muitos propagam o veganismo é só o reflexo do mundo em que eles vivem, simples assim. Não fazem por maldade, apenas vivem numa bolha privilegiada e não conhecem a realidade da maioria, mas isso com o tempo vai mudando.

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No YouTube, o canal Larica Vegana produz semanalmente vídeos que tratam o veganismo e incluem desde receitas até dicas sobre produtos veganos que vão além dos alimentos. Feito por Tito e Luísa Motta, já conta com mais de 147 mil inscritos na plataforma. Para quem é ou busca ser vegano, é um prato cheio de informação e conhecimento sobre o assunto.



Segundo Lucas Couto, a internet pode sim ser um diferencial para popularizar e desmistificar o veganismo. Ele cita grupos do Facebook, blogs, canais e sites que o ajudaram nos períodos em que tentou seguir a dieta e acompanha com menos frequência até hoje.

No entanto, ele pondera que as redes também podem trazer pessoas mal intencionadas e ignorantes, que repetem as mesmas falácias sobre o veganismo. "Tem muita gente que insiste em dizer que é só coisa de gente rica, porque é o discurso mais fácil, mas não é necessariamente isso. É também uma questão de organização para conseguir cozinhar, o que já reduz muito os custos, obviamente, e isso inclui quem não é vegano também. Se você não é vegano e só come fora, vai gastar uma fortuna do mesmo jeito", afirma.

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O veganismo pode e está sendo desmistificado nos últimos anos, e seus custos dependem de uma série de fatores. Ele pode ser caro, mas não necessariamente é. Comer fora de casa ainda é um desafio para muitos veganos, mas, especialmente nas grandes cidades, as opções vão surgindo e ganhando espaço.

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