Tamanho do texto

Pedido de moratória da Argentina pode fazer o PIB brasileiro cair até 0,03 pontos percentuais, diz economista; principal impacto será nas exportações

Maurício Macron arrow-options
Antonio Cruz/Agência Brasil
Maurício Macri, presidente da Argentina anunciou um pedido de renegociação de dívida com o FMI

O agravamento da crise na economia da Argentina, que culminou com um pedido do presidente Maurício Macri para renegociar uma dívida de US$ 56 bilhões com o Fundo Monetário Internacional ( FMI ), devido à incapacidade de pagamento de seu país, está sendo acompanhado atentamente pelo governo brasileiro.

Brasil está preparado para a crise da Argentina, diz presidente do Banco Central

A avaliação da área econômica do governo Bolsonaro é que a economia brasileira é mais sólida que a da Argentina, o que dá ao Brasil uma certa blindagem. A forma de contágio maior, que já está acontecendo há algum tempo, se dá na balança comercial entre os dois países.

“A queda nas exportações já reflete a crise na Argentina que começou ano passado. Um impacto substancial sobre o Brasil já aconteceu", afirmou o subsecretário de Política Macroeconômica do Ministério da Economia, Vladimir Kuhl Teles.

Macri: situação argentina 'não depende só de um governo' e quer abrir diálogo

Ele destacou que, só nos últimos dois anos, as exportações brasileiras para o país vizinho recuaram de US$ 18 bilhões para cerca de US$ 9 bilhões.

A economista chefe da Claritas Investimentos, Marcela Rocha faz uma análise semelhante. “Em 2019, as exportações para Argentina representam até o momento cerca de 5% da pauta total brasileira. Em 2018, a participação era de um pouco mais de 7%”, lembra a economista.

Para ela, o cenário na Argentina pode ter um impacto negativo no crescimento da economia brasileira.

Bolsonaro pede para empresários brasileiros ajudarem Macri na Argentina

“Com provável nova contração das exportações para o país, principalmente de veículos e setores metalúrgicos e petroquímico, a recessão Argentina  pode ter um impacto negativo entre -0,1 p.p. e -0,3 p.p. no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ao longo dos próximos meses”, alerta.

Para os dois especialistas a crise Argentina se soma a um cenário global desafiador. Teles afirma que não é só a Argentina que está no radar. A turbulência global , como a tensão causada pela guerra comercial entre China e Estados Unidos, também contribui negativamente para esse cenário.

Segundo ele, isso reforça a necessidade de que o país faça reformas , como a da Previdência e a tributária. “É possível que a gente tenha que consertar o telhado, ou seja, fazer as reformas, no meio de uma tempestade, em vez de em um dia de sol”, observa Teles.

Para Marcela Rocha, a crise na vizinha pode afetar a chegada de investimentos estrangeiros no Brasil. “Além do cenário global desafiador com desaceleração do crescimento mundial, a renegociação da dívida Argentina inibe novos investimentos na região e pode prejudicar o fluxo de capital para Brasil”, avalia.

A resposta dos organismos financeiros internacionais à moratória argentina e a reação dos indicadores econômicos do país vizinho com a medida, devem ser, na avaliação da equipe econômica do governo, acompanhados para medir os possíveis impactos na economia brasileira.

FMI mostra cautela

O Fundo Monentario Internacional (FMI) adotou uma postura de cautela para comentar a proposta da Argentina de ampliar os prazos para o pagamento de sua dívidas, o maior empréstimo da história do Fundo.

"No que diz respeito ao funcionamento da dívida anunciada pelas autoridades argentinas, o pessoal do Fundo está em processo de análise e avaliação do seu impacto. A equipe entende que as autoridades tomaram medidas importantes para atender às necessidades de liquidez e salvaguardar as reservas ", destaca nota tribuída a Gerry Rice , principal porta-voz do FMI.

“Uma equipe de funcionários do FMI, liderada pelo Sr. Roberto Cardarelli, está retornando a Washington hoje, como previamente agendado. A equipe manteve conversas produtivas com o ministro das Finanças, Hernán Lacunza, e com o presidente do BCRA, Guido Sandleris, e suas respectivas equipes", afirma a nota.

“A equipe do FMI também se reuniu com o Sr. Alberto Fernández e membros de sua equipe econômica para trocar opiniões sobre a economia argentina" , acrescenta a nota.

A entidade destaca ainda que sua equipe permanecerá "em contato próximo com as autoridades " argentinas e o Fundo "permanecerá do lado da Argentina nesses momentos desafiadores”.

O FMI estava acompanhando com lupa o processo sucessório na Argentina. Pessoas próximas da entidade acreditam que, seja qual for o resultado das eleições presidenciais, o país precisaria de uma reacomodação do contrato de financiamento devido à grave crise que o país vizinho atravessa.