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Estudo mostra que quatro milhões de brasileiros têm relação patológica com o jogo. Tratamento é parecido com o de alcoólatras

Quando desconfiou de que sofria com um problema de compulsão, Teresa* se trancou no quarto, arremessou a chave pela janela e pediu que a família não abrisse a porta mesmo se ela armasse um escândalo. Pouco tempo depois, começou a se sentir mal, teve taquicardia e sudorese. Desesperada, esmurrou a porta por ajuda – mas foi ignorada. Teresa não sabia, mas estava sofrendo uma crise de abstinência. A diferença é que, neste caso, o vício não era o álcool ou as drogas. Era o jogo. Teresa é jogadora compulsiva, mal que atinge mais de quatro milhões de brasileiros e que já ocupa o terceiro lugar no ranking das compulsões, atrás do álcool e do cigarro. “Quando a pessoa aposta mais do que deveria, o jogo deixa de ser uma diversão e passa a ser uma um problema familiar”, diz Danielle Rossini, psicóloga e coordenadora do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Em muitos aspectos, a compulsão por jogo lembra o vício em álcool e em drogas. É comum ouvir relatos de jogadores que passaram a apostar no bingo ou tentar a sorte no caça-níquel para fugir de problemas pessoais, como uma crise na família ou frustrações no trabalho. Apesar de perceber que as apostas estão prejudicando sua vida, o jogador não consegue parar. Não raro a pessoa deixa de fazer outros programas para jogar e tem de apostar cada vez mais para sentir o mesmo prazer de antes. Pior: pensa no jogo o tempo todo e comete pequenos crimes, como furtos, para financiar o vício. Quando fica muito tempo afastado do vício sofre graves crises de abstinência, como o relatado no início desta reportagem. Ao todo, 10 características definem o jogador compulsivo. Se uma pessoa cumpre cinco ou mais delas está na hora de procurar ajuda profissional (veja teste abaixo).

O ferroviário aposentado Roberto Simões* conhece muito bem as características do jogador compulsivo. Casado e pai de dois filhos, começou a jogar quando ainda era garoto em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo. Há dez anos, quando estava perto de se aposentar, entrou numa casa de bingo pela primeira vez. Naquela época, tinha uma caderneta de poupança, cheque especial e conta em banco. Pouco mais de um ano depois, sobraram apenas dívidas. Para financiar o vício, fez empréstimos em quatro agências bancárias, seis financeiras e estourou o limite de quatro cartões de crédito. Por causa do jogo, Simões envolveu-se num acidente de trem e perdeu o emprego. “Chega um ponto em que a pessoa fica depressiva, sofre muita cobrança e não consegue se concentrar”, afirma Simões. “Só depois de um ano me sentindo no fundo do poço decidi buscar ajuda”.

Histórias como a de Simões são cada vez mais comuns no Brasil. Pesquisa realizada pelo psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do ambulatório de jogo patológico do Hospital das Clínicas, revela que 2,3% dos brasileiros são jogadores natos. Desses, 1% são compulsivos e outros 1,3% estão seguindo o mesmo caminho. Como cada jogador vive em média com mais três familiares, estima-se que 18 milhões de pessoas sofram diariamente com problemas relacionados ao jogo. Apostar é apenas mais um dos problemas na vida de um jogador compulsivo. Em geral, eles apresentam um quadro de comorbidade, ou seja, têm outro vício além do jogo. Cerca de 70% dos jogadores compulsivos são viciados em tabaco, 40% sofrem de depressão e ansiedade e 20% abusam de álcool e drogas.

Fichas, não

Assim como o alcoolismo, o vício em jogo não tem cura definitiva e o tratamento promove a abstinência. Ou seja, o jogador compulsivo não pode participar nem de bolão da Copa do Mundo se quiser se ver livre das apostas. A recuperação da doença pode se dar de algumas formas. Uma é através dos Jogadores Anônimos (JA). Surgido nos Estados Unidos em 1957, chegou ao Brasil há 17 anos através de um carioca que sofria com compulsão em jogos. O JA segue o mesmo princípio dos Alcoólicos Anônimos (AA): os frequentadores dividem suas histórias em sessões que reúnem entre 12 e 15 jogadores e devem seguir 12 passos de recuperação, como admitir que são impotentes perante sua compulsão. Apesar das semelhanças há também diferenças. A principal delas é que, conforme ficam um período afastados das apostas, os jogadores recebem chaveiros - e não fichas, que seriam uma forte referência aos jogos, como os frequentadores do AA.

Outra forma de tratar a doença é através de tratamentos psicoterapêutico ou psiquiátrico. Eles envolvem uma série de conversas para determinar as causas do vício e mostrar o que deixam de lado enquanto estão entregues ao jogo. Em média, o tratamento leva um ano – mas em casos extremos pode durar para sempre. A notícia boa? Dos jogadores que procuram ajuda, cerca de 60% deixam de jogar no final. “Depois do tratamento eles percebem que jogar é muito gostoso, mas pode ser muito custoso”, diz Danielle.

*Os nomes citados nesta reportagem são fictícios.

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