Bill Gates cria startup que transforma o lixo nuclear em energia

Por NYT |

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Ambição do bilionário é cortar a proliferação de armas nucleares no mundo e, ao mesmo tempo, fornecer eletricidade para os Estados Unidos nos próximos 800 anos

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Sonho de bilionário: Gates mira a China para iniciar sua startup

Em um prédio térreo sem maiores atrativos, situado entre um clube de tênis coberto e um showroom de utensílios para casa, dezenas de engenheiros, físicos e especialistas em energia nuclear estão correndo atrás de um sonho radical de Bill Gates: um novo tipo de reator nuclear que seria alimentado pelo lixo nuclear de hoje em dia, fornecendo toda a eletricidade nos Estados Unidos pelos próximos 800 anos e, possivelmente, cortando o risco da proliferação de armas nucleares pelo mundo.

As pessoas que desenvolvem o reator trabalham em uma empresa novata, TerraPower, comandadas por Gates e Nathan Myhrvold, colega bilionário da Microsoft. Até agora, a firma arrecadou dezenas de milhões de dólares para o projeto, mas construir o protótipo do reator custaria US$ 5 bilhões – motivo pelo qual Gates está procurando um endereço para a unidade experimental na China, rica e faminta por energia.

(Gates, é claro, tem bastante dinheiro seu. Neste ano, a "Forbes" o listou como o segundo homem mais rico do mundo, com uma bolada de US$ 67 bilhões.)

"A esperança é de que encontraremos um país, sendo a China o mais provável, que fosse capaz de construir a unidade experimental", Gates declarou no ano passado durante conversa com Daniel Yergin, especialista em energia. "Se isso acontecer, então a parte econômica será um pouco melhor do que as usinas que temos agora."

Talvez um dos argumentos mais intrigantes que os defensores fazem a respeito do reator de Gates seja o fato de que ele poderia eliminar várias rotas para a proliferação de armas. O Irã, por exemplo, diz que seu programa nuclear tem fins pacíficos, mas está enriquecendo muito mais urânio do que precisa para gerar energia. Há muito tempo os EUA têm dito que o Irã está enriquecendo urânio para fabricar uma bomba atômica.

Ted Ellis, que trabalha na startup de Bill Gates, opera um dispositivo em Bellevue, EUA. Foto: NYTTubos de combustível usados para testes na TerraPower, nova empresa de energia de Bill Gates. Foto: NYTAsh Odedra (segundo à direita), da nova empresa de Bill Gates, apresenta as características do reator nuclear que será criado pela TerraPower. Foto: NYTSonho de bilionário: Bill Gates ambiciona transformar lixo nuclear em energia para os EUA. Foto: Getty ImagesBill Gates e Paul Allen em 1981, cercados de PCs. Foto: Eweek.comDesde 2008 Bill Gates deixou a Microsoft para cuidar de projetos filantrópicos. Foto: AP

Os reatores nucleares de hoje em dia operam com concentrações de 3% a 5% de urânio 235, combustível enriquecido que descarta o urânio 238, refugo puro e praticamente natural. (Uma bomba de urânio funciona com mais de 90% de urânio 235.) Nos reatores de agora, urânio 238 é convertido em plutônio que é usado como pequeno combustível suplementar, mas a maior parte do plutônio é rejeitada como refugo.

Em contrapartida, o reator da TerraPower faz mais plutônio com o urânio 238 para utilizar como combustível e, assim, vai operar basicamente com ele. O reator somente necessitaria de uma pequena quantidade de urânio 235, que funcionaria como fluido de isqueiro fazendo uma churrasqueira a carvão pegar fogo.

A esperança dos defensores da TerraPower é que, em resultado, os países não necessitariam enriquecer urânio na quantidade enriquecida agora, destruindo argumentos segundo os quais eles têm de possuir amplos estoques à mão para os programas civis. O conceito da empresa também enfraqueceria a lógica por trás de uma segunda rota para a bomba: recuperar plutônio do combustível gasto pelo reator, que agora é como as armas nucleares são construídas. De acordo com a TerraPower, como tanto urânio 238 está disponível, não haveria motivos para empregar esse plutônio.

Países que não têm armas atômicas ainda precisarão de muita eletricidade, disse John Gilleland, CEO da TerraPower, e "nós gostaríamos de vê-los construir algo que nos permita dormir à noite".

Ideia de longo prazo

Ninguém discute que se trata de uma aposta a muito longo prazo. Até mesmo os otimistas dizem que demoraria até pelo menos 2030 para a comercialização dessa tecnologia. Ainda não se sabe como seria a concorrência então, se eólica, solar, gás natural ou alguma outra tecnologia. Se a ideia puder ser comercializada, nem sequer está claro se a TerraPower seria a primeira.

Os engenheiros trabalhando para Gates reconhecem os desafios enormes, mas afirmam estar convencidos de que eles estão em busca da solução não apenas para a energia e a proliferação de armas, mas também para mudança climática e a pobreza.

"Se fosse possível escolher só uma coisa para se reduzir o preço – para conter a pobreza – de longe se escolheria a energia", declarou Gates ao apresentar a ideia do reator durante discurso em 2010. "Energia e clima são extremamente importantes para essas pessoas, na verdade, mais importantes para elas do que para ninguém mais no planeta", acrescentou, mencionando inundações assassinas, secas e quebras de safra motivadas pelo dióxido de carbono liberado na produção de energia. Ele ilustrou a palestra com a foto de uma criança fazendo a lição de casa sob a luz de postes da rua.

Segundo Doug Adkisson, vice-presidente sênior de operações da TerraPower, Gates tinha "uma avaliação muito humanitária e fria" a respeito da energia nuclear e do que ela poderia fazer. Segundo ele, o que o atrai à energia nuclear são as questões: "o que temos e o que se pode fazer para elevar o padrão de vida de um monte de pessoas".

Apesar das dificuldades, especialistas externos aplaudem Gates pela tentativa.

"Se você tem uma montanha de dinheiro, seja lá for por qual motivo, está disposto a fazer uma aposta de longo prazo, o que não é típico para capitalistas de risco", disse Burton Richter, vencedor do Nobel de física. "É difícil arrancar uma coisa de 20 anos do mundo do capital de risco", ele comentou, acrescentando que financiar projetos como o da TerraPower era mais típico de governos e fundos soberanos.

Segundo os envolvidos, as reuniões de uma hora com Gates sobre a TerraPower podem virar encontros de cinco horas.

"Monstro das patentes"

Em Bellevue, a TerraPower é um desdobramento da Intellectual Ventures, empresa que tem Myhrvold como um dos fundadores e que se concentra em inventar novos produtos e técnicas, entre eles sementes aprimoradas para agricultura de subsistência e métodos para manter vacinas frias durante semanas em lugares sem energia elétrica.

Para os críticos, no entanto, é um monstro das patentes porque compra grandes carteiras de patentes tecnológicas e as usa para processar projetistas de software e fabricantes de smartphones, entre outros.

Os funcionários da TerraPower trabalham em um prédio que abriga a Intellectual Ventures, que inclui uma câmara para criar mosquitos, uma cozinha experimental para desenvolver novas maneiras de preparar e conservar comida e instrumentos de alta precisão, construídos à mão, para medir detalhes minúsculos do protótipo de combustível nuclear.

A TerraPower quer um reator que transforme urânio descartado em energia e, se tal conceito puder ser comercializado, Gates talvez não seja o primeiro a fazê-lo. A General Atomics, que conta com décadas de experiência em energia nuclear, mas é mais conhecida por produzir o teleguiado Predator, procura algo a que chama de módulo de reator "multiplicador de energia" baseada no mesmo princípio geral.

Com sede em San Diego, a General Atomics usaria hélio e não sódio, potencialmente simplificando alguns problemas. "Você prepara, deixa queimar e a coisa vai", disse John Parmentola, vice-presidente sênior da empresa.

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