Pirâmides: Telexfree é alvo de autoridades de mais dois países

Por Vitor Sorano - iG São Paulo |

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Empresa, bloqueada no Brasil desde junho, está sob investigação do Ministério Público da República Dominicana; governo peruano sugere que negócio capta dinheiro sem autorização

Reprodução
Telexfree: suspeita de ser a maior pirâmide financeira da História do País

A Telexfree, acusada de ser a maior pirâmide financeira do Brasil pelo Ministério Público do Acre, está sob investigação na República Dominicana. No Peru, uma autoridade de supervisão financeira emitiu um alerta informando que a empresa não tem autorização para captar recursos. 

As atividades da Telexfree são alvo, há cerca de um mês, da Divisão de Delitos Tecnológicos da Procuradoria Geral da República Dominicana – equivalente ao Ministério Público Federal do Brasil. A suspeita é a mesma que atinge a empresa no Brasil: pirâmide financeira.

“Essa foi a inquietude que chegou até aqui”, afirma o procurador John Henry Reynoso Ramírez, responsável pelo caso, em entrevista ao iG. “Estamos fazendo as investigações: de onde vêm? O que produzem? O que vendem?”

O número de pessoas que entraram no negócio — chamados de divulgadores – ainda é desconhecido, mas o analista financeiro e sócio-diretor da Betametrix, Alejandro Fernandez, fala em "dezenas de milhares de pessoas" Ele lembra que o salário mínimo dominicano equivale a aproximadamente US$ 120 – ou menos da metade da adesão mais barata à Telexfree.

"Mas quando a empresa começa a pagar, recebem US$ 120 por semana", comenta Fernandez, que foi ameaçado por acusar a empresa de ser uma pirâmide financeira.

Para o analista, o alto desemprego entre jovens – em 2012 estava 32% dos 19 a 24 anos, segundo Escritório Nacional de Estatísticas dominicano – combinado com alto acesso à internet tornaram a sociedade dominicana um terreno fértil para o desenvolvimento da empresa.

"E a gente é muito incrédula", conta Fernandez, que foi ameaçado por um divulgador.

Os advogados da Telexfree não comentaram.

EUA, Brasil e mundo

Fundada no estado americano de Massachusetts em 2002, onde é detida pelo brasileiro Carlos Wanzeler e pelo americano James Merrill, a Telexfree chegou ao Brasil formalmente em 2010, quando os sócios da empresa americana abriram a Ympactus Comercial em Vitória, juntamente com Carlos Costa.

Depois de atrair, no País, cerca de 1 milhão de pessoas  – que pagaram de US$ 289 a a US$ 1.375 em taxas de adesão com a promessa de lucrar na revenda de pacotes de VoIP (serviço que pode ser usado de graça) e colocação de anúncios na internet –, a Ympactus teve suas contas e atividades bloqueadas em junho, sob suspeita de ser uma pirâmide financeira. A decisão foi dada pela juíza Thaís Khalil,  da 2ª Vara Civel de Rio Branco (Acre). 

O valor captado é desconhecido, mas Thaís determinou o congelamento de até R$ 6 bilhões nas contas da empresa e dos sócios. Logo após a determinação, eles  tentaram transferir R$ 101 milhões para outras empresas do grupo, sem sucesso.

Os representantes da Telexfree negam irregularidades, e afirmam que faturamento da empresa vem da venda de pacotes de telefonia VoIP por meio de marketing multinível. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), porém, diz que o VoIP da Telexfree é clandestino.

Arquivo pessoal
Fernandez: ameaçado por ter criticado a Telexfree

O bloqueio da Ympactus no Brasil tornou mais evidentes as atividades da Telexfree no exterior. E, possivelmente, elas continuam a ocorrrer por meio da Telexfree INC, com sede em Massachusetts, e da Telexfree LLC, fundada em Nevada em julho de 2012 por Wanzeler, Costa e Merrill.

Investigações

Segundo Reynoso, o procurador dominicano, os dados obtidos até agora não permitem saber se há a participação de brasileiros no sucesso da Telexfree na República Dominicana. Por isso, ainda não houve nenhuma comunicação com autoridades brasileiras.

“Mas temos um convênio e uma boa colaboração. Certamente, se houver brasileiro [esse canal de intercâmbio será acionado].”

Fotos divulgadas em setembro por um divulgador da Telexfree na República Dominicana mostram Wanzeler e Sanderley Rodrigues – considerado um dos maiores líderes da Telexfree nos Estados Unidos – num evento do negócio em Santo Domingo, capital dominicana. Rodrigues também teria visitado o país em 14 de dezembro, segundo outra imagem.

"Ele [Sanderley] esteve aqui faz uma semana", disse o divulgador que publicou as fotos, sem saber que falava com a reportagem.

A PGR, entretanto, aguarda uma denúncia de algum integrante da Telexfree que tenha sido prejudicado – exigência, segundo Reynoso, para que uma ação possa ser instaurada contra a empresa. “Nós temos que investigar [enquanto isso]. Temos de garantir a tranquilidade da sociedade”.

Peru

No Peru, a Superintendência de Bancos, Seguros e Administradores de Fundos e Pensões emitiu no último dia 12 uma nota informando que a Telexfree “não está autorizada a captar dinheiro público.” A instituição solicitou que a população denuncie as atividades irregulares à Polícia e ao Ministério Público.

O alerta inclui também a WCM777, outra empresa que se apresenta como atuante no marketing multinível e teve as atividades bloqueadas pela Comissão de Valores Mobiliários de Massachusetts no mês passado.

Carlos Wanzeler (à direita), um dos donos da Telexfree nos Estados Unidos e no Brasil, durante evento em Santo Domingo, capital dominicana. Foto: Arquivo pessoal. Foto: Arquivo pessoalCartaz anuncia reunião da Telexfree na República Dominicana, com a presença de Sanderley Rodrigues (à direita), considerado um dos maiores líderes da Telexfree nos EUA.. Foto: Arquivo pessoalReunião da Telexfree na República Dominicana, em local que aparenta ser um templo religioso. Foto: Arquivo pessoalImagem de promoção da Telexfree na República Dominicana; para economista, "dezenas de milhares" já aderiram. Foto: Arquivo pessoalExtrato de anúncio da evento da Telexfree na República Dominicana. Foto: Arquivo pessoal


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